Quando a escola pública é sim a opção! (ou sobre deixar filhos melhores para o mundo)

Colocar os filhos para estudar Mandarim ou Alemão para ter mais chances no mercado de trabalho não é mais uma “coisa de filme”. Há algumas semanas eu fui a um encontro de “coach para adolescentes”, que é um nome moderninho para o antigo “teste vocacional” que se fazia para ajudar os vestibulandos a escolher uma carreira. A curiosidade sobre a terapia de grupo planejada por uma psicóloga surgiu para mim porque meu filho mais velho, de 17 anos, está no último ano do Ensino Médio. No dia, entretanto, resolvi levar também o filho do meio, que tem 14 anos e está no primeiro ano do Ensino Médio. Chegando lá, me choquei com a faixa etária das meninas que participavam da “aula inaugural”: tinham entre 12 e 13 anos e já viviam uma rotina tão pesada de estudos, de passar a madrugada de sexta-feira antecipando tarefas e fazendo aulas de Alemão à noite em outra escola (porque só inglês e espanhol, idiomas nos quais já eram fluentes, não garantem nada), que recuei. Fui educada na medida do possível durante o papo, que durou 2 horas, e sai de lá falando para meus meninos:

Não sei o que vocês farão das suas vidas profissionais, mas sei que isso é exatamente o que eu não quero fazer com vocês como mãe!

E a vida em família neste mundo tão cheio de oportunidades e possibilidades é muito mais decidir o que não queremos do que escolher o que queremos!

(Photo by Markus Spiske on Unsplash)
(Photo by Markus Spiske on Unsplash)

Uma das coisas que eu queria sempre era que meus filhos vivessem fora da “bolha social”. Eu cresci em cidade pequena, onde a gente tinha apenas 3 escolas públicas de ciclo básico e 1 “ginásio”, para ensino fundamental 2 e ensino médio. As crianças brincavam na rua, não tinha “parque” público e o ponto de encontro era a praça na frente da igreja matriz. Mesmo assim, vivi numa bolha, pois eu era sócia do clube e na piscina eu encontrava apenas meus amigos com poder aquisitivo melhor.

Meus filhos cresceram em escolas particulares num bairro classe média e, apesar de frequentarmos parques públicos e outros espaços de lazer comunitários, nossa vida é da bolha com “clube e condomínio”.  Daí neste ano muita coisa mudou com o ingresso do mais velho numa ETEC, o que abriu nossos olhos para o mundo que perdiam por estarem desde sempre na escola particular e eu e meu marido decidimos matricular o outro numa escola pública de período integral e assim aliviar a pressão pelo “dinheiro investido” na educação dele. As descobertas têm sido interessantes e sinto os dois adoelscentes pessoas cada dia melhores.

Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo aprovariam o mutirão de ex-alunos do M.M.D.C

 

A crise financeira foi o motivo, não nego, mas pesou uma reflexão que temos feito há muitos anos sobre ter uma vida minimalista, investir nosso tempo aproveitando os tais “18 verões” (que dizem que é o tempo que os pais realmente têm com os filhos) e na empatia de verdade que a gente gostaria que eles tivessem.

Nossas descobertas têm sido incríveis e parte delas está na reportagem do El País que viralizou na minha timeline nesta semana.

 

 

Nos corredores da rede pública, essas famílias têm encontrado mais pais de classe média que tomaram a mesma decisão. Do final do ano passado para o início deste ano, 220.767 estudantes matriculados na rede estadual de São Paulo vieram da rede privada, um número 25,8% maior do que os que fizeram a mudança há cinco anos (175.404). Alguns saíram por pura ideologia. Outros, também pela dificuldade de, em plena crise econômica, pagar mensalidades que podem beirar os 5.000 reais, especialmente quando a escola aparece no topo das melhores do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM).

Conversando com outra mãe que fez esta escolha, ela sintetizou uma experiência que vivemos:

“Achamos que iriamos ganhar só com a questão financeira, mas ganhamos também a oportunidade de enxergarmos valores que não víamos e nem nos preocupávamos antes”

Em 1 mês de filho na escola pública a gente já foi chamado para “ser ouvido” e atuar em ações para pensar no modelo educacional, no projeto de apoio aos alunos e somos aceitos como voluntários para ajudar com coisas “fáceis”. Na antiga escola, particular, não só nossas idéias nunca eram bem vindas quanto os problemas não eram admitidos.

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(Photo by Jamie Street on Unsplash)

Neste papo, uma amiga, que é doutora em comunicação e professora universitária numa instituitação federal, resumiu:

A escola particular pratica a soberania.

Mas para melhorar a escola e deixar algum legado para o espaço que acolhe nossos filhos, precisamos, como me disse outra amiga, “ajudar a reduzir as desigualdades do sistema, deixando-o com um padrão de qualidade mais uniforme”.

E para isso os pais precisam ser foco também.

Não sei ainda como, mas tenho pensado se nas novas escolas dos meus filho eu posso tentar criar projetos extracurriculares que envolvam os pais, pois, em especial no Ensino Médio, eles podem ser a “ponta fraca”.

“Boa parte dos alunos da rede pública que hoje estão no ensino médio, não tiveram pais que frequentaram essa etapa do ensino e fica mais difícil para eles discutirem e negociarem com os professores. Por isso é fundamental que as camadas médias estejam na rede pública. Estes pais estão escolarizados há mais tempo, dominam o discurso da escola e podem interagir com mais qualidade com os próprios professores e exigir mais.”, afirmou na reportagem Luciano Mendes de Faria Filho, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e coordenador do projeto Pensar a Educação, Pensar o Brasil.

Ele acredita que há um estigma de má qualidade que acompanha a rede pública há décadas e que essa imagem não reflete, necessariamente, a realidade.

“Quando a imprensa falava de escola pública na década passada, falava de violência, que melhorou significativamente nas últimas duas décadas, com melhor qualidade no material didático e na formação média dos professores. A grande questão não é a qualidade da escola pública, mas a desigualdade social. É a origem social dos alunos da rede pública que faz a diferença no aprendizado. Não é a escola privada que é melhor, mas o fato de que ela trabalha com os 10% mais ricos, com famílias escolarizadas há gerações.”

Então, afinal, temos problemas maiores na nossa sociedade e nos nossos lares do que trabalhar mais para ter dinheiro para o filho estudar alemão naquela escola particular cara perto da PUC, né gente?

Tem gente tirando o filho da escola pública para trabalhar porque a família precisa de ajuda para pagar as contas. Neste contexto, ter que colocar o filho na escola pública não é nada. 

Temos que pensar num plano para que nossos filhos e os filhos de todo mundo possa ser melhor para o mundo, não só para serem os mais capacitados que terão os melhores empregos porque estudaram nas melhores escolas e têm os melhores ex-colegas – é, tem gente que acha que pagar boa escola ajuda no futuro “networking”.

(e isso me dá vontade de vomitar!)

Para quem quer ir além nestas reflexões, deixo um texto que li o update que incorporo abaixo, intitulado “A Plan For Raising Brilliant Kids, According To Science“, escrito por Anya Kamenetz.

O que não falta por aí são pais e educadores com planos para criar pessoas (crianças e adolescentes, no geral) brilhantes e trazendo o tempo todo novos métodos científicos que alcancem esse objetivo.

Mas quem quer criar seres humanos melhores?

Precisamos mudar nosso olhar para o que consideramos como “habilidades importantes” para nossos filhos. Eu quero sim que meus três filhos sejam melhores como seres sociais, que vivam #encontrosquetransformam, que sejam verdadeiros cidadãos na comunidade. Quero que sejam seres humanos em sua plenitude, não me basta que sejam “pessoas de sucesso” no padrão da moda da sociedade da nossa época. Os padrões socialmente aceitos mudam, nossa humanidade intrínseca não, continuamos precisando descaradamente de relacionamentos e de #maisamorsemfavor.

E você, o que quer?

(Photo by Ricardo Gomez Angel on Unsplash)
(Photo by Ricardo Gomez Angel on Unsplash)

 

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.