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Elenco de passione com o autor da novela - foto de divulgação da TV Globo

Ontem eu estive na festa de lançamento da novela Passione, que reuniu na Casa Fasano, no Itaim, parte do elenco da nova novela e apresentou as primeiras imagens e o clima da nova novela das oito para imprensa e convidados. Fui como convidada e em respeito à liberdade para transitar entre os convivas, aproveitei a festa e não entrevistei ninguém – e mesmo as fotos, que podem ver aqui (e tem mais fotos oficiais aqui), tirei com cuidado para não incomodar. Em meio a tantas figuras cujo trabalho admiro há anos eu nem saberia quem escolher se pudesse conversar com mais tempo, mas, certamente, não deixaria passar o autor da novela, Silvio de Abreu, responsável por momentos memoráveis na teledramaturgia brasileira e um dos meus favoritos por retratar com tanto amor a São Paulo onde eu vivo.

Imagens da festa de lançamento da novela Passione na Casa Fasano

Eis que a equipe de mídias sociais da CGCOM ofereceu-nos a íntegra de uma entrevista com o autor e publico-a abaixo para quem quer saber mais da visão deste que já foi ator, diretor, cenógrafo e retorna ao horário nobre em sua 14ª novela, reeditando uma parceria bem sucedida com Denise Saraceni (a diretora de núcleo). São colaboradores de Abreu na novela Daniel Ortiz, Sérgio Marques e Vinícius Viana, a pesquisadora Carmem Riguetto e a professora de italiano da USP Cecília Casini.

[Sim, professora de italiano, nem precisei ler, soube por minha mãe (fãzoca de novelas) que não teremos aquele italiano macarrônico que marcou Terra Nostra]

O que o público pode esperar da novela?

Silvio de Abreu: Divertimento! Estou querendo fazer com que o público tenha prazer de esperar a hora da novela e a assista, não por curiosidade sobre o que vai acontecer, apesar deste sentimento ser despertado também, mas, principalmente, pelo prazer de assistir àquela cena, de ver os atores representarem e pelo prazer de acompanhar a história. O que importa é você ser testemunha daquelas cenas porque a novela é dividida em duas fases: na primeira, o público vai conhecer os personagens, suas razões, as tramas amorosas, as vilanias e tudo o mais. E, na segunda parte, que não sei exatamente em que capítulo começará, a novela terá um cunho policial. Ou seja, tudo aquilo que as pessoas estavam assistindo, elas poderão ver de outra maneira. Poderão constatar que o que estava acontecendo não era tão espontâneo, nem tão determinado pelo destino como parecia. Tem uma trama policial por trás, a qual será levada até o fim da novela. A narrativa está mais próxima de um thriller do que de um melodrama. Acontece muita coisa ao mesmo tempo em muitos lugares com muitas pessoas.

Como você definiria a trama de ‘Passione’?

Silvio de Abreu: Não é uma novela que está focada em uma idéia pré-estabelecida, como em ‘Belíssima’ que falava sobre beleza; ou ‘Guerra dos Sexos’, onde o tema era a briga dos sexos; ou ainda em ‘Sassaricando’, que o assunto eram as mulheres de mais de 50 anos no mercado de trabalho; ou em ‘Cambalacho’, que era a falta de vergonha do país. ‘Passione’ é uma novela que tem segredos que, conforme vão sendo revelados, o curso da história vai mudando.

Por que o nome ‘Passione’?

Silvio de Abreu: Vem da relação de Totó (Tony Ramos) com Clara (Mariana Ximenes), uma grande passione. Mas também vem do fato de ter inspiração italiana. Mas a novela não tem uma paixão só, tem várias paixões.

De onde vem a inspiração para ‘Passione’? E por que a Itália, mais precisamente, a Toscana, como locação?

Silvio de Abreu: ‘Passione’ vem da paixão por um período específico do cinema italiano que eu adoro. A comédia e o melodrama italianos dos anos 40, 50 e 60, juntos, eram humanos, cômicos, verdadeiros e absolutamente irresistíveis. Durante minha juventude tive o privilégio de acompanhar o auge desse cinema. Vittório de Sica, Mario Monicelli, Fellini, Visconti, enfim, os grandes diretores italianos, e os mais populares como Steno; os atores como Totó, Aldo Fabrizi, Alberto Sordi, Marcello Mastroianni, Sophia Loren, Gina Lolobrigida… Tudo isso formava um mundo muito fascinante. E a Itália, para mim, era um país cativante, mágico, ensolarado, divertido, para onde eu sonhava ir. Assistia a esses filmes com enorme prazer. Claro também que essa paixão pela Itália, pelo cinema e povo italianos, vem muita da minha origem. Apesar do Abreu, que é o sobrenome do meu pai, todo o resto da família, por parte da minha mãe, é de italianos – Mestieri e Ferreto, como eram os nomes dos personagens de ‘A Próxima Vítima’. Já a Toscana, particularmente, me interessa muito como paisagem e como núcleo humano e popular.

Como foi a criação do núcleo italiano?

Silvio de Abreu: Por um lado não poderia escrever em italiano porque o nosso público no Brasil não entenderia, mas também não queria escrever em português como se fosse italiano porque perderia o que há de melhor na Itália – a música de sua língua e o espírito. Então, criamos uma maneira para alcançar o que queríamos: primeiro escrevi os diálogos da família italiana em italiano. Em seguida, eles passaram pela consultoria da Cecília Casini, professora da USP, assim como o ensaio com os atores. Depois, junto com ela, mudei o texto. Tirei as palavras que tinham outro significado no Brasil (por exemplo, ‘prego’ que lá quer dizer ‘por favor’, aqui quer dizer ‘prego’) para não confundir a cabeça do público. Depois que os atores pegaram a música da fala e incorporaram o espírito italiano, substituímos muitas palavras por sinônimos que tivessem o mesmo sentido no Brasil. Em vez de você dizer ‘prego’, por exemplo, você diz ‘per favore’, que quer dizer a mesma coisa. Sei que isso vai fazer com que os puristas achem que não estamos sendo fiéis, mas o que interessa é o espírito da novela. Não vou deixar de usar a música napolitana ou elementos interessantes de Roma por que estamos na Toscana. A família Mattoli é da Toscana, mas é uma família que mistura romano com toscano, com napolitano.

‘Passione’ é um folhetim, tradicional, onde o mau é o mau e a mocinha é a mocinha, ou vamos ter algumas surpresas em relação a alguns personagens?

Silvio de Abreu: É uma novela inteira, mas contada em duas partes. Os personagens são inteiros, multidimensionais, têm justificativas claras em seu comportamento. Não são caricaturas ou “tipos” que representam este ou aquele valor moral para servir à trama. O bom tem justificativa para ser bom e o mau tem justificativa para ser mau. Mas isso não impede de a novela ter uma linha clara entre o bem e o mal, sem ser maniqueísta. Quem é bandido é bandido, quem é mocinho é mocinho. Mas a bandida tem um lado que pode fazer você gostar dela.

Na trama, Carolina Dieckmann é a mocinha da estória, mas ela já inicia a novela ficando com dois amigos. Pode-se dizer que ela é uma mocinha moderna?

Silvio de Abreu: Não temos a mocinha tradicional, mas ela tem todas as características da mocinha – é bom caráter, boa filha, mas não é boba. Ela não é uma super heroína que fica na torre com as tranças esperando o mocinho subir. Ela se mete na vida e quebra a cara. O mesmo acontece com o Mauro, personagem do Rodrigo Lombardi. Ele tem todas as características do herói, apesar de não ser, no começo, o alvo da paixão da mocinha. Ele é bom, amigo, honesto, mas não fica com medo de falar, não é idiota. Ele fala tudo na cara.

A abertura da novela tem composições de Vik Muniz - e ficou lindíssima!

Há duas modalidades esportivas em ‘Passione’ – ciclismo e stock car – sendo que o ciclismo é a base da empresa da trama. Eles serão peças importantes na trama?

Silvio de Abreu: O ciclismo, principalmente. Não só por ser a base da empresa deles, mas também pelos personagens do Cauã Reymond e do Kayky Britto serem ciclistas. Existe ali uma rivalidade, uma competição entre os dois, que vai para a pista. Acho isso, dramaticamente, muito interessante. Em vez de fazer uma competição dos irmãos só dentro de uma sala conversando, eles vão para a pista. O fato de ser uma fábrica de bicicleta também vem muito de querer passar uma ideia que se junta a da reciclagem do lixo, que é a da preocupação com o meio ambiente: usar a bicicleta em vez de carro. Mas tanto o lixo, quanto o ciclismo e o stock car, não são o âmago da novela. Eles são ambientes aonde a novela vai se passar e que dão para a novela características bastante lúdicas, deixando a história mais ágil e melhor como narrativa.

Como a comédia estará representada na trama?

Silvio de Abreu: No núcleo do rei do lixo, que é muito divertido. Este núcleo é de comédia mesmo. Já o núcleo dos italianos é melodramático, mas eles são divertidos em si. É um núcleo com o qual o público vai poder dar muita risada pelo jeito que eles são, por suas atitudes. É um humor diferente do núcleo da Clô (Irene Ravache) e do Olavo (Francisco Cuoco). A tragicomédia é a marca mais forte do cinema italiano. Você ri e, ao mesmo tempo, chora. É isso que estou tentando fazer no núcleo deles. O pessoal do mercado também, mais precisamente Candê, personagem de Vera Holtz, apesar de ter um drama, o jeito dela de ser, de encarar as coisas, como ela faz, é divertido.

Num folhetim, normalmente, o amor verdadeiro não pode faltar. Em ‘Passione’ haverá espaço para o amor puro e sincero?

Silvio de Abreu: Diana (Carolina Dieckmann) e Mauro (Rodrigo Lombardi) são o mocinho e a mocinha, sem dúvida. Amor puro e sincero. Outra história forte de amor é a do Totó (Tony Ramos) por Clara (Mariana Ximenes), mas aí tem a vilania dela em cima dele. E na relação de Fred (Reynaldo Gianecchini) com Clara não tem amor, só atração. Um não confia no outro e ambos se usam de todas as maneiras.

Breve biografia:

Silvio de Abreu começou a carreira estudando na primeira turma de cenografia da Escola de Artes Dramáticas de São Paulo, onde terminou o curso sem nunca ter exercido a profissão. Para ele, a Escola foi apenas subsídio para realizar um desejo antigo: ser ator. Na época, ele se considerava tímido para subir ao palco. Com o tempo adquiriu conhecimento e experiência e ganhou coragem para fazer um teste como ator para seu primeiro papel no teatro. Estreou em 1964, no Teatro Brasileiro de Comédia, na peça “Vereda da Salvação”, dirigida por Antunes Filho. Em 1966, embarcou para Nova York e foi estudar no Actor’s Studio. Durante esse ano, teve aulas com grandes nomes do cinema internacional, como Lee Strasberg e Elia Kazan.

Após oito anos, oito novelas e atuando nos palcos ao lado de ícones da dramaturgia nacional, como Fernanda Montenegro, Raul Cortez, Cleide Yáconis e Aracy Balabanian, Silvio de Abreu descobriu o fascínio pelos bastidores e começou a trabalhar como assistente de direção. Nesta época, ao lado dos atores Stenio Garcia, Cleide Yáconis e do diretor Antonio Abujamra, de quem era assistente de direção, criou uma companhia de teatro. E foi trabalhando como assistente de direção de Carlos Manga, mestre do cinema nacional, que recebeu o primeiro incentivo para se dedicar a escrever roteiros.

Na década de 70, escreveu e dirigiu vários filmes, incluindo “Assim era Atlântida”, ao lado de Carlos Manga, e algumas pornochanchadas. Em 1977, convidado para fazer uma novela na TV Tupi, Silvio de Abreu escreveu Éramos Seis. No ano seguinte, já na TV Globo, lançou Pecado Rasgado, e, em 1978, trabalhou na finalização de Plumas e Paetês, de Cassiano Gabus Mendes, e Jogo da Vida, em 1981. Dois anos depois, em 1983, inovou sobrepondo o humor ao drama em Guerra dos Sexos – um grande sucesso que abriu espaço para a comédia no horário das 19h. O mesmo gênero prevaleceu em Vereda Tropical, escrita com Carlos Lombardi e exibida em 1984, em Cambalacho, em 1987, e em Sassaricando, em 1987. Também foi autor de Rainha da Sucata, lançada em 1990; Deus Nos Acuda, em 1992; A Próxima Vítima, em 1995; Torre de Babel, em 1998; A Incrível Batalha das Filhas da Mãe no Jardim do Éden, em 2001; e Belíssima, em 2005. Silvio de Abreu escreveu ainda a minissérie Boca do Lixo, exibida em 1995, e supervisionou, em 1997, O Amor está no Ar; em 1998, o remake de Anjo Mau; em 2003, Da Cor do Pecado; e, em 2008, Beleza Pura.

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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