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mundos de eufrasia claudia lage

Está rolando uma troca muito boa entre os blogueiros que estão no Book Crossing da Editora Record promovido pela Bites. O papo, que acontece no nosso grupo e promete se transformar em posts interessantes oferecendo uma visão plural e colaborativa sobre as obras.

Eu comecei minhas leituras por Mundos de Eufrásia, de Claudia Lage, que conta a trajetoria de uma mulher incrível para seu tempo: Eufrásia Teixeira Leite, que na divulgação do livro é noticiada como enamorada de Joaquim Nabuco (aquele mesmo, famoso da História do Brasil por suas posições políticas liberais no Segundo Império e no início da República). A Eufrásia que se descobre na leitura desta obra é uma mulher incrível, que recebeu uma educação especial (seu pai resolveu desafiar os conceitos da época, que criam que o cérebro da mulher era bem inferior ao do homem e não aprendia coisas avançadas), foi uma financista quando mulheres não geriam o próprio dinheiro e se tornou uma das investidoras mais respeitadas do mundo (foi a primeira mulher a entrar na Bolsa de Valores de Paris).

Se você se interessou pela obra, vale ler a entrevista abaixo com a autora do livro que, aliás, tem um blog bem simpático. Certamente com as palavras dela fica fácil entender meu entusiasmo com a obra e com a figura de Eufrásia.

Eu enviei uma pergunta a mais para Claudia Lage, curiosa que sou pela atuação das pessoas na redes sociais. Perguntei como a experiência do blog e a chance de interagir com os leitores de forma tão direta na web 2.0 tem sido vivenciada por ela tanto como escritora quanto como pessoa. E ainda quis saber se no blog estas duas figuras conseguem se separar. A resposta foi:

A experiência de escrever no blog tem sido essencial, porque a proposta do meu blog é registrar o processo de criação, os arredores e bastidores da escrita literária. É uma forma de pensar literatura e compartilhar idéias e vivências literárias. Não existe muito uma divisão: pessoa e escritora, ambas estão presentes o tempo todo. Não dá para separar uma da outra, porque é a Claudia pessoa que vive a experiência da Claudia escritora. O blog é justamente a reelação dessa unidade. Por trás da autora, ou na frente mesmo, está a pessoa que escreve, sofre, se diverte, reflete, etc. No blog, desabafo, reflito, revelo minhas influências, textos que me inspiram, autores que me tocam, e escuto/leio o retorno dos leitores, sabendo que é um retorno franco, de leitor para blogueiro, sem intermediações, apenas e simplesmente o interesse pela leitura e escrita.

Agora a entrevista da Record:

Eufrásia Teixeira Leite é uma personagem real. O que há na história dessa mulher que te levou a querer escrever o romance?

A proposta do romance partiu da minha editora, Luciana Villas-Boas, a partir do livro de ensaios de José Carlos Bruzzi, que resgata a figura de Eufrásia e o romance dela com Joaquim Nabuco. O que me interessou, em primeiro lugar, foram as relações, totalmente folhetinescas. Um pai que exige das filhas a promessa de não se casarem e nunca se separarem. A relação quase obsessiva das irmãs, muito rodrigueana. E, claro, a postura emancipada de Eufrásia, em pleno século XIX. Ela não abre mão de sua independência, assumindo todas as conseqüências, que não foram poucas, para o bem e para o mal. E também havia outro apelo, também irresistível, do tema abolicionista, da personalidade forte de Nabuco, como também da emancipação feminina que iniciava um burburinho na metade do século XIX, principalmente por meio dos jornais femininos como O Jornal das Senhoras, presente no meu romance.

Numa variação do que Katherine Anne Porter disse e fez, Clarice Lispector afirmou certa vez que não se interessava pelos
fatos em si, mas pela repercussão dos fatos no indivíduo. Na história de Eufrásia e Nabuco, uma sucessão de fatos exteriores gera decisões e reações interiores que alteram o curso de suas vidas de forma dramática. No entanto, as ações internas são condicionadas por valores e padrões de comportamento imperativos. Você sentiu o impulso de alterar o rumo dos acontecimentos, de modo a “reorganizar” essas vidas? Enfim, você lamentou pelos destinos que tiveram e gostaria de ter contado uma história diferente?

Como gosto muito do folhetim, foi exatamente o drama, a impossibilidade, que me atraiu. Uma impossibilidade interna, subjetiva, dos personagens, influenciada muito também pela mentalidade da época. Literariamente, é interessante que Eufrásia tenha cumprido a promessa sem querer. É interessante que Nabuco tenha negado a separação de bens. Que Eufrásia tenha afirmado a sua independência. Podemos lamentar pelo destino dos personagens, mas entendemos, de certa forma, suas escolhas e atitudes. Essa é a riqueza dessa história. Não há certo ou errado, bem ou mal, mas uma complexidade de circunstâncias e perspectivas, sombra e luz, que direcionam os personagens e determinam suas vidas. É belo e triste, é, enfim, humano. Não é uma história de final feliz ou infeliz, mas de afirmações e escolhas fundamentais.

Como foi o processo de investigação para chegar a essa história como um todo? Até que ponto foi teu compromisso com a realidade e a tua liberdade para ficcionalizar?

Mergulhei totalmente no século XIX. Li livros sobre o século XIX, passados no século XIX e escritos no século XIX. Às vezes me detinha em romances, fases que fui de Machado de Assis a Balzac, passando por Flaubert, George Sand e tantos outros. Às vezes em livros históricos e sociológicos sobre o Brasil no Século XIX, o Rio de Janeiro no século XIX, Vassouras no século XIX, toda a obra de Joaquim Nabuco, fora os livros sobre ele, e tudo que encontrei ligado ao regime escravocrata e o movimento abolicionista; além disso, livros sobre a França no século XIX, a emancipação feminina na França e também no Brasil. A pesquisa foi imensa, mas maior ainda foi o processo de colher o material necessário, torná-lo um elemento criativo dentro da narrativa e do universo ficcional do livro. Considerando que “a realidade” é representada pela pesquisa história, porque não há outro modo de viajar até o século XIX, eu tinha fatos à minha frente e desenhos de personalidades históricas. Quer dizer, tinha o “o quê”, mas não o “como”, e é justamente no “como” que a ficção entra nesse livro e encontrou o seu espaço para acontecer. A primeira frase do romance “Eufrásia e a sua irmã Francisca estavam de mãos dadas desde a noite anterior, quando foram chamadas às pressas para despedirem-se do pai” ilustra bem isso. Eu tinha o fato: a morte do pai de Eufrásia e Francisca, apenas isso. A ficção entra nas circunstâncias dessa morte, na reação das irmãs, de mãos dadas desde a noite anterior, sobressaltadas com o pai doente. E em tudo o mais que envolve a narrativa, inclusive a linguagem. Nesse sentido, a liberdade foi total. É possível dizer que não há nenhuma linha nesse romance que não seja ficção, e, ao mesmo tempo, dizer que não há nada que fira as pesquisas históricas.

Você mencionou autores como Flaubert, Sand, Machado de Assis, que ajudaram na construção da base dessa história e contribuíram para um maior entendimento sobre o século XIX. Que autores fazem parte da construção da tua base como escritora? E por quê?

Clarice foi a primeira revelação estética para mim. Ela disse, uma vez: “quero escrever movimento puro”. Essa frase me espantou, como assim? Mudei completamente meu olhar sobre o texto, buscando esse movimento. É mais do que um autor ter uma técnica, um estilo, é possuir uma visão artística, uma proposta que ultrapassa a questão de escrever livros, mas toca no cerne da própria criação, a escrita. Continuo lendo e aprendendo muito com Clarice Lispector, Hilda Hilst, Machado de Assis, Cortazar, Calvino, Fernando Pessoa, Caio Fernando Abreu, João Gilberto Noll, Sérgio Sant’anna, Nelson Rodrigues, Antonio Torres, entre tantos outros. São autores que possuem um caminho criativo único, bem determinado. Leio sempre procurando vislumbrar esse caminho.

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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