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“Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar. Viajaram para o sul. Ele, o mar, está do outro lado das dunas altas, esperando. Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza. E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai: ‘Me ajuda a olhar!’.” (Eduardo Galeano em “O Livro dos Abraços”)

 

Tanto se tem discutido sobre o que é arte, sobre qual seria a sua importância, que eu gaguejo como o Diego do conto do Galeano, me emociono como a Emília do filme “Entre irmãs” e só consigo agradecer: ela me ajuda a olhar. Olhe e veja, quem puder, quem quiser! Teu país está lá, tuas raízes esquecidas, tuas certezas instáveis, os amores incondicionais. O filme estreia neste dia 12 de outubro, feriado nacional.

 Na tela, o sertão, o nordeste dos anos 20 e 30. Mas visto por olhos de mulher. Aliás, mulheres, no plural – porque acompanhamos as histórias das irmãs Emilia (Marjorie Estiano) e Luzia (Nanda Costa). Criadas por uma tia, educadas para serem costureiras, as duas crescem ouvindo que tudo o que elas têm no mundo é… uma à outra. E durante quase três horas a gente passa pela angústia de ver essas partes separadas, pelo mundo: Luzia é como que sequestrada pelo bando de Carcará (uma espécie de Maria Bonita para Lampião) e Emília se casa e segue para a capital, Recife. Duas realidades díspares, dois Brasis que (ainda) brigam feitocão e gato, feito irmãos.

 

 

O filme dirigido por Breno Silveira é inspirado no livro da pernambucana Frances de Pontes Peebles, “A costureira e o cangaceiro”, que resgatou as memórias de sua família do interior, os recortes de jornal sobre o lendário cangaceiro, as histórias dos idosos. Narrar é importante para não esquecer. Ajuda a construir quem somos. Olhar pra trás ajuda a olhar pra frente.

E olhar para trás, neste caso, implica em acompanhar os desentendimentos entre pessoas que se amam mas discordam em suas posições políticas, implica em acompanhar por que uma mesma figura pode ser considerada herói por uns, e vilão, por outros, implica em fazer paralelos entre as épocas – tendo como fios condutores o carnaval, o casamento, a homossexualidade, a liberdade para protestar, a ciência e a religião. Assuntos que ainda pautam as polêmicas da semana, no Fantástico, no Facebook ou no almoço de domingo. Sim, a História com agá maiúsculo é feita de milhares de histórias entrelaçadas, de sonhos, de pessoas comuns e de pessoas que aparecem nos jornais, das pessoas que morrem e das que lutam para não morrer.

“Luzia (Nanda) é uma personagem forte, que sobreviveu à morte quando criança e cresceu sem expectativas: aceitava o que o mundo tinha para oferecer. Já Emília queria o mundo perfeito, sonhava com um príncipe encantado, em ser uma dama da capital. (…) As coisas estão mudando, sem dúvida e ainda bem, mas até que ponto? Tenho duas filhas e através delas, tento entender o presente. Será que elas continuam a esperar o príncipe encantado?” (Breno Silveira, o diretor)

Deixe os olhos descansarem na paisagem árida de Taquaritinga, surpreenda-se com uma época em que gelo e ventilador eram as novidades para aplacar o calor, pergunte-se o quanto a frenologia se enraizou em nossas certezas científicas. A trilha emociona, a maquiagem torna crível que essas moças sejam de um lugar bem diferente das atrizes Marjorie e Nanda, que a gente se acostumou a ver na tevê. Mas convido a reparar, também, na atriz que faz tia Sofia. Ela ajuda muito a dar integridade para a história.

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Tia Sofia (Cyria) entre as irmãs Emilia (Marjorie) e Luzia (Nanda).

Não é a primeira vez que Cyria Coentro dá vida a uma mulher sertaneja, sofrida, numa atuação emocionante. Nascida na Bahia, Cyria trabalhou em várias novelas (Renascer, O Rei do Gado, O Velho Chico, entre outras) e, no cinema, fez “Gonzaga – de Pai pra Filho”, do mesmo diretor. Aos 51 anos, Cyria faz uma tia Sofia dura, porém amorosa; cheia de responsabilidades para criar as duas meninas num ambiente agressivo com a condição feminina: um corte de cabelo, um olhar, uma paixão por passarinhos, qualquer passo fora da tessitura social já estabelecida é um risco praquelas mulheres. Diferente do teatro, que a acolheu em comédias, aqui na tela grande Cyria é dramática e empresta poesia aos momentos difíceis pelos quais a personagem vai passar…

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Lívia Lisbôa

Jornalista, atriz, dona de uma casa que tem uma estante cheia de livros, porque gosta da companhia deles. Canta no chuveiro, só faz bolos quando está feliz e mora na Praça da Árvore de uma cidade que é conhecida por ser a Selva de Pedra.

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