Ensinar é muito mais que passar conteúdo – é uma experiência rica de formação de comunidade

Ensinar é muito mais que passar conteúdo  é uma experiência rica de formação de comunidade

Comecei a semana palestrando numa escola na qual conversei com crianças de quinto ano do Fundamental 1 sobre a criação de blogs. Estar com crianças, no seu ambiente escolar e com a turma da sua idade é sempre interessantíssimo, um aprendizado e, acima de tudo, uma chance de perceber como avançam os usos de tecnologia no cotidiano das pessoas. Lemos relatórios, acompanhamos pesquisas e divulgamos infográficos sobre o crescimento das mídias sociais, mas é no olho no olho, na conversa ao vivo, que percebemos como estes espaços estão se consolidando na vida das pessoas.

Aproveitando que estava num ambiente escolar, compartilho com vocês não só esta minha reflexão, mas também uma pesquisa que li sobre o processo de aprendizagem. Começando com a premissa de que “Ensinar é muito mais que passar conteúdo“, a neurocientista Adele Diamond discute o processo de aprendizagem atual.

Felizmente a discussão não é de tecnologia, mas sim sobre comportamento humano.

“Se as necessidades emocionais, sociais e físicas forem ignoradas, não há excelência acadêmica.”

A cientista canadense realiza pesquisas que relacionam o cérebro ao aprendizado, focando os estudos no córtex pré-frontal do cérebro – espaço do qual dependem as habilidades cognitivas – e também nessas habilidades, focando em especial no desenvolvimento de crianças pequenas.

“Chamadas de funções executivas, as habilidades cognitivas respondem por uma série de fatores, como o controle da atenção (o que nos permite amplificar nossa percepção ou raciocínio em determinada direção); o autocontrole; a memória de trabalho (relacionada à manipulação de informações com propósito e não à sua armazenagem passiva); o raciocínio; a capacidade de resolução de problemas e a nossa flexibilidade cognitiva, intimamente ligada à criatividade.”

Inúmeros estudos demonstram que isso tudo está relacionado ao desempenho acadêmico. Mas não o conseguiremos da forma como as crianças são educadas na escola. Se queremos melhores resultados acadêmicos, a rota mais eficiente e de melhor custo-benefício é, ao contrário do que diz a intuição, não se concentrar na formação conteudista, mas abordar também o desenvolvimento social, emocional e físico das crianças.

E aí, claro, pais e professores querem a resposta à pergunta mais importante, que a pesquisadora veio responder num evento em São Paulo, mas, felizmente, adiantou em entrevistas para os jornais e revistas: Como tratar o desenvolvimento cognitivo, físico e emocional?

“Em primeiro lugar, não são necessários equipamentos caros ou de alta tecnologia. Nas salas infantis, os jogos e brincadeiras – longe de representarem perda de tempo – são elementos vitais para melhorar o desempenho acadêmico das crianças. No ensino médio, em vez de ensinar física em sala de aula, que tal levar a classe para restaurar um carro velho? Isso, ao mesmo tempo em que exige a aplicação dos princípios da disciplina, faz com que os alunos pratiquem uma atividade física. E mais: é uma experiência de trabalho colaborativo, em que todos participam da tomada de decisão com um propósito compartilhado. Uma experiência rica de formação de comunidade.”

Nem preciso dizer que esse modelo não é visto nas avaliações atuais, sempre focadas em conteúdo, né?

A pesquisadora nos coloca contra parede quando pergunta o que queremos para nossos filhos… você saberia responder? Ela resume parte do que se passa em nossos corações:

“Penso que a maioria quer filhos capazes de resolver problemas, de raciocinar, de ser um pensador criativo. Mas, se as avaliações medem o que é prioridade da escola, e o foco dos testes atuais são apenas conteúdos, logo se vê que a educação não tem valorizado o raciocínio de resolução de problemas e a lógica criativa.”

E ela continua:

Se a sociedade quer alunos bem preparados, precisa levar a sério que as diferentes partes do ser humano são inextricavelmente interligadas. Se as necessidades emocionais, sociais e físicas forem ignoradas, isso trabalhará contra a excelência acadêmica. Em nenhum lugar a importância da saúde social, emocional e física é mais evidente do que no córtex pré-frontal. Quando há problemas físicos ou emocionais, as crianças ficam mais pobres de raciocínio, esquecem as coisas, diminuem a capacidade de exercer disciplina e autocontrole.”

"Se as necessidades emocionais, sociais e físicas forem ignoradas, não há excelência acadêmica."

Na “palestra” ontem cheguei na turma e pedi que formassem duplas (porque o trabalho de criação dos blogs é em dupla), para “cochicharem” sobre o que é um blog. Formaram-se várias pequenas confusões divertidas que me deram noção do grupo, permitindo que o restante da conversa fosse produtivo. Mas notei nas professoras uma ansiedade para que eu pudesse falar e não ficasse com uma impressão ruim das crianças. Mal sabiam que eu queria ver as crianças reagindo e atuando criativamente, com voz ativa para fazerem um bom trabalho em mídia social (de transmissão de conteúdo e abertura para conversar), pois só assim é possível se a criança se sentir segura para errar.

Vi-me numa das falas de Adele Diamond que dizia sugiro um novo item para o relatório dos alunos, ‘aventurou-se em águas desconhecidas, tentou uma abordagem nova e diferente, foi criativo‘.

Ela também deixou dois conselhos para os professores brasileiros:

Em primeiro lugar, as crianças precisam se sentir compreendidas. Por isso, a humanidade de um professor é mais importante do que seu conhecimento ou habilidade. Segundo: para superar o que já sabem, as crianças precisam sentir que se acredita nelas. Terceiro: criança não é estudante universitário para ficar sentada por longos períodos. Elas aprendem melhor em movimento. Quarto: não use punição ou reforço negativo. Isso não funciona e pode fazer com que o pequeno se retraia.

Em vez disso tudo, incentive que uma criança ajude a outra. Estudos mostram que, em algumas situações, essa troca produz mais resultados do que a aula do professor. A lista é grande, não é? Mas o último ponto vai ajudar: os professores devem relaxar – eles não vão ser perfeitos (ninguém é!) e cometerão erros. É normal. Só não podem se estressar, porque assim nunca serão os docentes que sonham ser.

E aí, curtiu? Conte nos comentários se você é professor e tem adotado práticas interessantes assim no seu cotidiano. Se for aluno e lembrar de professores inspiradores, conte também, elogie-os nos comentários, eles certamente merecem!  E pais e mães, vamos incentivar as escolas de nossos filhos a mudarem de paradigma quanto à educação? Mande estas ideias por e-mail, imprima e envie na agenda escolar ou anime os professores de seus filhos a tentarem implantar estas novidades. Ao contar com seu apoio certamente que eles se animarão a fazer o diferente que já deve estar em seus corações e mentes criativas!

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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