Encontros e desencontros que nos fortalecem #GirlUp (por @natercia_tiba)

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Tive uma infância muito feliz. Protegida pelo amor dos pais e carinho da família, cresci achando que as pessoas são todas do bem e que devemos buscar os nossos sonhos porque podem mesmo se realizar.

Fui aquela filha que muitos pais sonhariam: boa aluna, bailarina, estudava línguas, piano, dama de honra muitas vezes e sempre a noivinha da festa junina. Casei cedo, aos 23 anos. Um casamento dos sonhos, uma emocionante cerimônia e uma linda festa, cheia de amigos queridos e pessoas que faziam parte da minha história.Foi apenas adulta que passei a viver alguns grandes sofrimentos (por doenças na família, perda de pessoas queridas) e fui então descobrindo que a vida não era tão fluida como achava até então.

Passei momentos felizes e marcantes ao longo da infância e confesso que me decepcionei com o mundo e com as pessoas conforme fui crescendo e encarando a vida de frente. Nos momentos difíceis tive dificuldade em lidar com toda a tristeza e a raiva que surgiam dentro de mim. Aqueles tons escuros e sombrios não combinavam com o mundo colorido e leve no qual eu havia crescido.

Aos poucos fui me descobrindo. Fui deixando de ser a filha ‘perfeita’, deixando de corresponder às expectativas que até então não havia notado o peso que tinham. Carreguei essas expectativas desde o nascimento e como me acompanharam desde o início não notara o quão pesadas eram. Não estou dizendo que tenha me rebelado. Não, de forma alguma, mas diante das dores e sofrimentos, pude me olhar com outros olhos e descobrir as escuridões dentro de mim e como posso levar luz para mim mesma nos momentos mais sombrios.

Minhas transformações foram acontecendo com naturalidade. Quanto mais me transformava, mais me aproximava de mim mesma. Ao mesmo tempo, me distanciei da imagem que muitos tinham de mim, o que gerou estranhamento e até mesmo desconforto.

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Posso dizer que sou grata a cada dor e sofrimento porque a partir deles pude me olhar e me conhecer melhor. Pude lidar com a realidade como um todo e não mais negar ou me proteger do ‘ruim’, mas sim descobrir forças para transformá-lo, para buscar uma forma de colaborar com todas as minhas forças, mesmo porque, as forças das emoções negativas são intensas e se bem canalizadas podem servir de alavanca para grandes movimentos na vida e nas relações.

Simples exemplos podem mostrar essa transformação.

Depois de 14 anos de ballet clássico descobri que preferia uma dança mais leve e solta, sem tantas regras e feridas nos pés (devido às sapatilhas de pontas).
Descobri que gosto de cabelo curto (bem diferente do estereótipo da mestiça de cabelos longos).
Descobri que sonhava mais em ter filhos meninos e que não gostava tanto assim de bonecas.
Descobri que posso ser espontânea sem ficar me preocupando com as regras de etiqueta e passei acreditar que a regra número um dos relacionamentos é a autenticidade, doa a quem doer.
Descobri que gosto mais de jeans rasgado do que saia e salto alto, e que prefiro roupas ‘estranhas’ (daquelas que não conseguimos entender quando penduradas no cabide) do que estampas florais.
Descobri que prefiro ganhar bombons à flores. Eles me alegram mais, mesmo que gerem uma certa culpa depois.
Descobri que gosto de me maquiar mas não me incomodo muito com celulite e estrias.

Assumi que não sou fã de músicas românticas e que não consigo me segurar ao ouvir uma música agitada. Algumas músicas clássicas me entendiam e outras me fascinam. Detesto ópera e amo musicais. Prefiro arroz, feijão e farofa a um prato elaborado com nome francês.

Percebi que minhas emoções nem sempre se adequam às situações e/ou contextos. Rio fora de hora e choro de alegria ou tristeza quase todo dia. Mas aprendi que, seja qual for a emoção, boa ou ruim, posso acolher e me dar colo, como posso também pedir ajuda. A vida continua, mas de vez em quando faço o meu mundo parar por uns instantes até me recompor. Não consigo mais me doar à vida pela metade, preciso estar inteira.

Descobri que posso sonhar sem limites e sei que tenho flexibilidade suficiente para ir adaptando os meus sonhos à realidade procurando sempre uma forma de ser feliz. Deixei de lado a enorme preocupação com futuro que me ensinaram e passei a viver intensamente o presente. Não me tornei uma irresponsável, mas decidi VIVER.

Cheguei à conclusão que não é possível agradar a todos e que preciso primeiro me deixar feliz para poder ser feliz com os outros e que o melhor amor não é aquele que se precisa do outro, mas que se quer estar junto, por opção.

Tudo que fui deixando para traz teve seu papel. Admiro ballet, flores, romantismo, um corpo sarado, o som do violino… mas não são eles que alimentam a minha alma. Gosto de saber que alimentam tantas outras.

Somos todos diferentes, não melhores, nem piores, somos únicos e para viver essa unicidade, o ponto principal é se descobrir.

natercia tibaNatércia Tiba (@natercia_tiba) é casada com Maurício, mãe do Dudu e do Kaká, e também psicóloga clínica, psicoterapeuta de casal e família, palestrante e autora de “Mulher Sem Script”. Conheça-a no www.naterciatiba.com.br

1 mês de ação em prol do empoderamento feminino focado em meninas

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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