Que saudade das empreguetes…

Preciso confessar uma coisa das minhas (mini) férias de julho: morri de saudade das empreguetes. Em certos momentos da viagem eu me sentia uma cópia da minha mãe, que, sem o menor pudor, se desmancha de amores por suas “novelinhas”. Mas não cheguei ainda a ser como ela, que, mesmo viajando, sempre pausava tudo para acompanhar os capítulos… é, das seis às nove da noite a gente sabia que podia brincar à vontade na praia, na casa dos tios ou onde quer que estivéssemos porque ela estaria “hipnotizada” com a sua novelinha.

Eu recorri ao Twitter para não ficar totalmente por fora porque, confesso, me senti meio “viciada” por pensar em ver novela estando na casa dos amigos ou mesmo hospedada num resort. Sair da piscina de águas termais ou deixar o jantar maravilhoso para depois só para acompanhar o capítulo que depois posso ver no site da emissora eu achei meio demais…

Mas considerei que valia comentar: Cheias de Charme tem sido uma diversão nos últimos meses.

O motivo creio que é a capacidade de mostrar situações cotidianas (mais ou menos factíveis, como o condomínio, a comunidade, o escritório de advocacia comercial e a loja estilosa) com um toque de glamour diferente, o que provém do que se chama de povão. A  Chayene (Cláudia Abreu, personagem que está no Twitter como @EstrelaChayene) é o mito da menina pobre carismática que alcançou sucesso, assim como as Marias o são, mesmo que não tenham todas o mesmo talento, mas encerram em si, assim como outras personagens femininas interessantes (Dra. Lígia ou Brunessa, por exemplo), retratos das mulheres atuais, que, muito além de sua condição sócio-cultural, vivem sob a pressão da escolha entre a família, o emprego, as convenções e as necessidades de subsistência e os desejos de sucesso.

Muito mais do que os homens, que são muito mais “focados” em seus objetivos de vida, nós somos as figuras que encaram o salto e a faxina, vivem diferentes realidades e desafios “tudo ao mesmo tempo e agora”, mas sobretudo que sempre acreditam que toda esta insanidade de papéis e de desafios vai funcionar e trará bem estar para todos que amamos.

O noto nas três personagens principais –  Rosário (Leandra Leal). Penha (Taís Araújo) e  Cida (Isabelle Drummond) – e que acho que tem imenso valor na novela por fortalecer e divulgar como “modelo”, usando a grande mídia e os programas de entretenimento para reforçar valores, é um desejo sincero por melhorias coletivas, uma capacidade de abrir mão do pouco (ou muito) que se tem em termos de segurança para fazer o certo e para ajudar o outro, de saber julgar as situações e fazer escolhas sensatas, além de separar o joio do trigo, sem se render ao jogo equivocado.

Outra questão passa abertamente por uma realidade que vivemos cada vez com mais força no Brasil e, creio, será o motor de grandes mudanças sociais nos próximos anos: o sumiço das empregadas. Não se acha mais empregadas por aí e as pessoas que conheço e contam com boas colaboradoras em seus lares “seguram-nas com unhas e dentes”. Eu, que cresci convivendo muito com empregadas e babás (porque minha mãe sempre lançou mão delas para manter a sanidade com quatro filhos e uma carreira) e estimulei muitas delas a estudar e buscar novos desafios, vejo isso tudo com certa satisfação. Mas também me ressinto porque, mesmo tendo morado no exterior e acostumado a cuidar da casa sem (muita) ajuda, esta mão de obra especializada me faz uma falta imensa!

E vejo também na novela esta questão sendo resolvida, aos poucos, com a postura profissional de alguns personagens, a coragem de encarar este trabalho como seu talento escondido que vejo em personagens como Naldo (Fábio Lago) e mesmo em Penha, que tem consciência de que assume um compromisso quando cuida da casa e da vida pessoal da “patroa”.

Este conceito talvez seja o motor de mudanças na relação entre patrões e empregados, permitindo que até esta profissão, que já foi das mais desvalorizadas, se torne uma especialização, sendo valorizada social e financeiramente por seu significado como apoio às famílias que necessitam desta ajuda cotidiana.

Faço votos de que assim seja!

E quanto à novela, vi na fanpage da Rede Globo que as empreguetes ganharam um ônibus para sair em turnê… bem podia envolver alguma ação promocional que convide blogueiras fãs da novela a participar, né? Eu iria feliz da vida, e você?

P.S. Alguns grupos, como a ONG Doméstica legal, lutam para que direitos que já são “básicos” para outras categorias sejam incorporados aos trabalhadores domésticos, garantindo jornada de trabalho de 44 horas semanais, FGTS, adicional noturno, hora extra, salário família, seguro desemprego e afastamento por acidente de trabalho.

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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