Empregada-escrava branca-adolescente (por @elismonteiro) #semtrabalhoinfantil

Pois eu me lembro muito bem, como se fosse hoje: minha mãe, dona Penha, de quem tenho o maior orgulho, me levando de mobilete para a escola. Eu de uniforme; ela também! Dona Penha só foi estudar quando eu e meus dois irmãos estávamos quase nos formando no antigo ensino médio. Eu tinha o maior orgulho de desfilar com aquela loura linda de pernas torneadas e saia plissada. Usávamos o mesmo uniforme!

Dona Penha sempre foi um exemplo pra mim e para os meus irmãos porque é mulher batalhadora. Podia ter sido “apenas” tanta coisa e acabou sendo mais que demais! Ainda no começo da puberdade foi jogada aos tubarões: saiu da ilha na qual cresceu e emigrou para a “cidade grande”, Bom Jesus do Itabapoana, menos de 30 mil habitantes; multidão perto dos cinco da ilha na qual cresceu – seu pai, sua mãe e os dois irmãos.

Seu destino? Forno e fogão! E pia. E tanque. E lavanderia. E varanda. E trouxa de roupa. Por comida, casa e alguns trapos que sobravam da “filha da patroa”.

Mamãe foi escrava branca, sem saber o que era isso nem ter sido avisada. Aos 14 anos estava lavando chão e olhando o mundo de baixo para cima. Tinha sido “doada” pelos pais para a “madrinha”. E onde já se viu “madrinha” que usa a afilhada como empregada? Pois ser “madrinha”era o que garantia o não-salário da empregada, ora bolas! Era não, é assim até hoje, em muitos lugares. Acreditem!

Mamãe foi empregada doméstica, não pôde estudar e tirou o atraso depois de ter criado os filhos que teve com seu Athos, aquele poeta fiscal de rendas que a tirou da escravidão por amor.

Dona Penha não se lembra de ter vivido a adolescência; estava ocupada limpando a casa dos outros e varrendo e esfregando. O potencial que tinha – e tem – só pôde mostrar com os filhos quase criados.

Dia desses, eu e ela estávamos conversando sobre trabalho doméstico. A mesma “escravidão” que ela viveu perdura no interior. E dá-lhe discursinho de madame “adota uma menininha do interior que ela vai ficar feliz de viver longe da roça e cuidando do seu filho pra você”. Engana-se, e feio, quem acha que os tempos de Dona Penha “escrava-adolescente-pobre-humilde-sem-opção-de-futuro” ficaram para trás. Para quem pode pagar – e aceita esse tipo de relação espúria – ter uma empregada doméstica adolescente é sonho, muitas vezes realidade, de consumo.

Agradeço a generosidade do envio deste texto, de Elis Monteiro, umas das minhas escritoras favoritas. E o texto dela remete aos hangouts on air que fizemos recentemente para a campanha “É da nossa conta! Trabalho infantil e adolescente”, promovida pela Fundação Telefônica em parceria com a Unicef e OIT. Publico abaixo os vídeos nos quais os advogados Viviane Weingartner e Marcos Alencar tratam sobre o tema, respondendo às perguntas dos internautas.

Participe também do papo que fazemos todas as terças e quintas, das 15h às 16h, na fanpage do projeto Promenino da Fundação Telefônica ou no Twitter usando a hashtag #semtrabalhoinfantil. E dos hangouts on air às sextas à tarde, entre 14h e 15h, no canal do youtube da campanha

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