cidadania / destaque

“Será possível manter os padrões actuais de liberdade, tolerância e pluralismo numa sociedade sacudida por matanças regulares de cidadãos? Provavelmente, não. Este é o problema maior da Europa.”

Rui Ramos, no Observador, sintetiza uma opinião que de alguma forma todos nós que acompanhamos a realidade sócio-política na Europa atual sentimos, a de que a situação no Velho Continente está chegando à falência.

O texto, que chegou a mim por intermédio de minha amiga Paula Sofia Luz, jornalista na região portuguesa de Leiria, retrata uma realidade que teremos que encarar de frente e de imediato.  E a pior parte desta realidade, é a percepção de que a cada novo ataque coletivo, banaliza-se a gravidade do caso, anestesia-se o público e perdemos pouco a pouco nossa capacidade de sofrer pelo outro, de sentir empatia real, de ver os números de mortos como pessoas, com rostos, vidas, famílias, trabalhos e futuros abandonados e interrompidos abruptamente.

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Como disse minha amiga portuguesa:

“Triste, triste por ontem, por outros dias, por sentir que isto não acabará, que a reacção de quem assiste tende a banalizar-se (lembram-se de como nos chocámos tanto com o ataque ao Charlie Hebdo? E como paulatinamente o mundo se vai chocando menos?)”

Estou terminando a leitura de Submissão, distopia de Houellebecq que parte dessa possível nova Europa, e me assusta porque o livro, que saiu pouco antes do episódio na sede do Charlie Hebdo, é cada dia mais real.

O que faz você decidir ler um livro? A capa, o autor, o título? Se dependesse desses três itens, Submissão passaria desapercebido para mim. No entanto, outros três itens me chamaram atenção: a temática (uma distopia europeia numa futuro próximo), a comparação com uma obra que tenho como referência (1984, de George Orwell, e Admirável mundo novo, de Aldous Huxley) e neste caso sobretudo o aval de um crítico que respeito, Mario Vargas Llosa, em sua coluna no Estadão, quem me fez comprar o livro de Michel Houellebecq, publicado no Brasil pela Editora Objetiva.

Se fosse só a sinopse, não sei se me sentiria atraída, embora hoje, depois do caminhão que matou dezenas de pessoas num dia de verão em Nice, eu pensasse duas vezes.

“França, 2022. Depois de um segundo turno acirrado, as eleições presidenciais são vencidas por Mohammed Ben Abbes, o candidato da chamada Fraternidade Muçulmana. Carismático e conciliador, Ben Abbes agrupa uma frente democrática ampla. Mas as mudanças sociais, no início imperceptíveis, aos poucos se tornam dramáticas.
François é um acadêmico solitário e desencantado, que espera da vida apenas um pouco de uniformidade. Tomado de surpresa pelo regime islâmico, ele se vê obrigado a lidar com essa nova realidade, cujas consequências — ao contrário do que ele poderia esperar — não serão necessariamente desastrosas.”

No entanto, cá estou eu, há algum tempo imersa na vida de François. É interessante acompanhar sua visão da mudança na sociedade, as despedidas silenciosas e submissas da vida deste professor que se diverte comendo congelados enquanto assiste programas políticos na TV, da sua namorada judia que muda para Israel para fugir da submissão muçulmana à sua madrasta que parece saída de uma Tea Party sulista americana vivencia o mundo à sua volta mudando inexoravelmente. Gostei sobretudo do casal amigo composto por uma colega professora e um aposentado da inteligência secreta francesa, especialista neste mundo muçulmano, um cara que lembra o núcleo da CIA em Homeland com toques de Crossing Lines.

 

E eu comparo com séries de propósito: para nós, da América do Sul, tranquilos neste Brasil que parece um lugar étnica e religiosamente pacífico, estes embates religiosos parecem ficção. Vemos o carro matar dezenas de pessoas, um franco atirador matar numa boate e bombas explodirem no metrô de Bruxelas, no aeroporto de Istambul ou no jornal em Paris como assistimos aos filmes de ação no cinema ou na TV: como telespectadores que assistem algo que é tão impactante e “cheio de efeitos” que parece muito para ser verdade. Não é tão diferente de Missão Impossível ou de 007, concordam?

 Cidade dos homens (BRA, 2007, 106min, cor, 35mm) direção: Paulo Morelli - elenco: Douglas Silva , Darlan Cunha , Rodrigo dos Santos , Camila Monteiro , Naíma Silva.

Embora nossa sociedade seja violenta, tenhamos números de mortes por armas de fogo e por acidentes de trânsito que assustem, há muito não assistimos a nada aqui no nosso terreno. Somos diferentes nisso da Inglaterra e da França, destruídas por bombardeios nas grandes guerras, do Japão que se rendeu depois de bombas nucleares, da Polônia e Alemanha que enfrentaram os piores momentos do nazismo e da Cortina de Ferro. Aqui tudo isso é tão distante quanto a ficção e por isso carecemos de empatia, padecendo da incapacidade cotidiana de nos colocar no lugar do outro.

Até quando?

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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