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No início de maio, tomamos uma decisão radical: tiramos nossa filha caçula da escola.
Os motivos são inúmeros, do ajuste das contas (se eu estou em casa, quase em ano sabático, por que pagar para ela ir para escola?) à percepção da condição de saúde dela (recebi os “trabalhinhos” de escola e descobri que ela tinha ido penas 50% do primeiro bimestre), passando por um profundo desconforto com a pressão pela alfabetização e com a vida cada dia mais dentro da caixinha que acabamos oferecendo para ela.
“Hoje em dia a rotina das crianças é o que eu chamo de caixinhas. Está na caixinha que é a casa, entra na caixinha com rodas que é o carro ou a van, vai para a escola, que é a caixa maior, e geralmente só tem dez minutos para lanche e dez para brincar. Aí ela volta para casa e não sai, porque é perigoso ou por falta de opção. Nessa rotina ela só teve dez minutos livre, o que traz muitos problemas.”
Irene Quintáns, do Red Ocara

E assim, há meses estamos vivendo cada dia, sem escola.

Sim, sem. Não farei homeschooling, não tenho vontade de brincar de escolinha com minha filha – e na real, tenho receio de isso faça uma confusão emocional na cabecinha dela! No próximo ano ela já tem vaga reservada numa escola de educação infantil e, com 5 anos, como manda a lei, iniciará sua alfabetização – e eu volto para a vida profissional em horário integral.
“É superimportante trabalhar o tema do pertencimento. Se ela não se sente pertencente ao seu bairro, à cidade, como é que você vai ensinar coisas do tipo ‘não se joga lixo na rua’? Através do tablet? Uma coisa que eu não gosto é que as pessoas falam: a criança é o cidadão do futuro. Não, ela é um cidadão de hoje, de ontem e de amanhã.”
Irene Quintáns, do Red Ocara
Ah, e claro, a escolinha fica a menos de 1km de casa, vejo a entrada e as árvores da janela da cozinha e nossa oganização de vida é ir e voltar a pé, curtindo o mundo ao nosso redor como fizemos hoje, no nosso passeio.
Uma criança que não anda não convive com moradores de rua, com situações e pessoas de cores diferentes. Um dia eu caminhava com o meu filho e ele deu um sorrisão para um morador de rua e falou ‘bom dia!’. Como você vai fazer esse tipo de construção social se você é transportado de uma caixa para outra?
Irene Quintáns, do Red Ocara.
Bom, este preâmbulo foi para contar que nesta tarde estávamos passeando e aprendendo na rua. Isso sim faz parte do nosso ano sabático e eu tenho registrado mais ou menos nosso tempo de unschooling, contando o que temos descoberto, aprendido e feito da nossa vida.
E o registro de hoje merecia post no blog.
Vejam que historinha linda e real, que vivi pouco antes de ler a entrevista com Irene que indiquei em aspas ao longo do texto.
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No nosso #unschooling de hoje fomos passear na Subprefeitura da Mooca. Em segundos Manu tinha feito amizade com um menino da mesma idade que ela. Se apresentaram:
– Sou Manuela, qual é o seu nome? É Jorge de Tal – e ele disse seu nome e sobrenome!
E começaram a brincar sem parar.
Foi bonitinho de ver. Dez minutos depois, chegou uma menina que, apesar de mais alta, disse ter 3 anos (uau, 1 ano mais nova!) e, meio tímida, se juntou a eles no imenso parque que estava vazio.
O novo amigo espirrou, eu ofereci um lenço de papel e ele falou:
– Não precisa, eu tenho lá na minha casa – e apontou para um carrinho com uma mudancinha.
Pois, como eu imaginei quando vi o menino lindo, com roupinha limpa e cuidadinho desenvolto e sozinho no local, ele mora lá no parque. Mora na rua.
Brincaram mais um pouco, nos distanciamos um pouco (as crianças resolveram brincar nos equipamentos de exercícios da terceira idade) e uma pessoa chamou Jorge. Ele foi correndo, conversou com uma moça que tinha um menino menor nos braços e voltou. Era a mãe, possivelmente com um irmãozinho do pequeno, que estava de olho no filho, mas à distância. Não sei se ela estava longe porque achou que não a acolheríamos ou se estava esperando algum atendimento no CRAS, mas olhei para ela e sorri.
Continuamos a brincar, as crianças a conversar animadamente (como acham tanto assunto?), até que era nossa hora de ir embora. Estava tarde e depois de um horário o parque da Mooca não inspira segurança, mesmo no parquinho que fica grudado na sede da subprefeitura.
Felizmente para nós, temos para onde voltar em segurança. Infelizmente pro Jorge, ele não tem.
Orei por ele, talvez eu volte para saber como estão e para levar alguns presentes.
Mas o que ele deu para Manu hoje não tem preço: amizade, empatia, afeto sem preconceito. Se ela não escolheu nem tratou diferente o menino negro e a menina ruiva, envolvendo os dois numa parceria bonita, ele também deixou na memória dela o sorriso e o olhar que sonhamos em ter e nem sempre alcançamos.
 

E esta história, bem como a entrevista com a urbanista, me lembrou o vídeo Caminhando com Tintin, que vi no encontro de Pais da IBAB Criança:

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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