E viva as férias de julho!

Este texto foi escrito para ser minha em um site colaborativo em julho de 2006. Muita coisa mudou – outras nem tanto!

Então chegou julho, oh my God! Atire a primeira pedra a mãe de pré-escolares (e escolares também) que não fica de cabelo em pé quando pensa que terá crianças em casa no inverno. O que fazer com eles?

Parece o começo de uma reportagem sobre “aquele” resort ou a casa encantada (e multidisciplinar) onde seus filhos podem passar as férias felizes e criativos? Não, é um desabafo de mãe mesmo. Aliás, mãe de dois meninos de quatro e sete anos, que mora em apartamento e não tem nenhuma avó ou tia morando na mesma cidade, não vai ter férias do trabalho e se sente culpada demais para colocá-los na turminha de férias da escola durante este mês de preguiça e friozinho.

Lembrei de um texto daqueles de forward que recebi há tempos (quando eu ainda abria estas mensagens, sem nenhum medo de vírus e outros males cibernéticos) e que dizia que na nossa infância (leia-se nos idos de 1970-80) as janelas não tinham redes de proteção, os carros não tinham cadeirinhas de bebê e não havia canais de TV com desenhos 24 horas. E falava que nós fomos mais felizes. Será?

Enfim, agradeço a Deus pelas redes de proteção, pelas cadeirinhas que evitam que meus filhos troquem mais do que provocações no banco de trás e mais ainda pelos canais de TV infantis. Num deles, lembro de mães falando nos comerciais da programação contando o que notam que seus filhinhos pequenos aprendem com os desenhos de lá. Lembrei que uma vez, para este mesmo canal, eu respondi uma promoção dizendo o que tinha de especial para meu filho lá. Comecei aquele meu texto com a frase que meu filho, à época com apenas três anos, repetia: “este é o meu canal”.

Sintetiza bem o que temos feito por esta geração. Nós, mães ou pais, estamos sempre preocupados em não sobrecarregá-los e ao mesmo tempo não deixar de oferecer a eles coisas construtivas, criar programas estimulantes para eles, freqüentar feiras, exposições, peças, filmes, tudo enfim, em nome deste projetinho que assumimos e no qual, noto eu, as mães-profissionais (me incluo neste grupo) colocam todas as suas fichas, toda sua capacidade. Mas fica tudo para eles e esta sim eu acredito ser a grande diferença entre a nossa infância e a deles, o fato de o foco ser a criança, não mais a família. Ainda não concluí como fazer para integrar as duas coisas.

Ai, como mãe antenada, jornalista e etc, lá vamos nós, buscar ferramentas para resolver tanto esta questão interior quando a prática, da impossibilidade dos meus filhos passarem férias ociosas, sob o risco de terem uma mãe insana ao final de julho. As ferramentas, claro, estão nas palavras, com elas é que sei lutar diuturnamente. Fui ler sobre a questão.

Quando eu freqüentava a faculdade discutia-se muito o futuro da imprensa, não só dos jornais, mas até mesmo dos livros. Era um monstro a assombrar alguns futuros comunicadores, uma fada-madrinha para outros mais moderninhos, mas, enfim, a todos parecia algo inevitável. Não foi. A imprensa mudou, seu jeito de comunicar sofreu transformações até profundas, mas não acabou, arrisco-me a dizer que se ampliou.

Então está acontecendo o que ninguém previu: através de vinhetas na TV sobre o Marcelo Marmelo Martelo as crianças podem se cumprimentar falando “bom solário” e aprender a desenhar o Pererê com aulas do próprio cartunista, tudo em vinhetas de poucos segundos. Exatamente no tempo deles. Isto me leva aos livros, aos melhores livros do ano e mais do que tudo, leva à imaginação correndo solta. E proporcionando viagens que nem mesmo os pais mais dedicados conseguiriam oferecer aos seus filhos, vividas com a mesma intensidade com que eles as experimentaram lá, naquelas férias de julho esquecidas, sem redes de proteção nem canais de desenho.

E enfim, enquanto eu escrevo aqui e escuto as mil fantasias que meus dois piratas-caubois-e-super-heróis criam no corredor do apartamento, percebo que a questão inicial já estava resolvida e eu nem sabia. Não consegui notar o “pó mágico” que os fazia voar, a boa e velha infância. E viva as férias de julho!

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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