E se São Paulo fosse uma metrópole fluvial?

“Uma São Paulo com um anel hidroviário de 600 km de extensão, conectando os rios Tietê, Pinheiros e Tamanduateí e as represas Billings, Guarapiranga e Taiaçupeba. Uma metrópole com uma bacia fluvial repleta de barcos transportando cargas diversas até ecoportos com usinas de reciclagem de lixo. Uma cidade habitada por pessoas que utilizam os rios como meio de transporte ou fonte de lazer, com piscinas flutuantes, caiaques e até pedalinhos na paisagem”.

(Crédito da foto: reprodução de site)

Revista masculina é mais do que mulher bonita sem roupa? Há tempos eu aprendi que sim. E como tenho um cabeleireiro que assina VIP, eu sempre dou uma olhada nas matérias enquanto espero – e neste mês eu tb vi na web, por conta da @mbottan, claro!

Eis que nesta semana um artigo ótimo nos convidava a repensar a cidade, numa utopia da qual todos gostaríamos de fazer parte, pensada pelo arquiteto e urbanista da Universidade de São Paulo Alexandre Delijaicov, que acredita que uma São Paulo fluvial pode ser o futuro da maior cidade da América Latina.

Segundo o artigo, que é ricamente ilustrado, Delijaicov é um dos responsáveis pelos projetos dos Centros Educacionais Unificados (CEUs), os prédios construídos em bairros da periferia de São Paulo que concentram creches, escolas, equipamentos esportivos e culturais, além de autor de trabalhos pela USP que resultaram em um projeto de implantação de ciclovias urbanas. Até aí, sonhos reais, o que o torna um idealista é a pesquisa sobre a utilização dos rios e lagos de São Paulo (iniciada há mais de dez anos) considerada por muitos uma resposta ao caos urbano.

E pelo que vi nas declarações ele não o vê como um sonho não:

“O projeto não é uma fantasia. Ele é não apenas factível, como economicamente viável. Só o transporte público de lixo pelos rios já justificaria a execução. Mas essa é uma questão de política de Estado, não de governo. Porque o projeto pode levar 20 anos, atravessar até cinco gestões, com grandes obras de infraestrutura e gastos de mais de R$ 1 bilhão” (Delijaicov)

E a parte utópica entra aqui: “O Brasil concentra 12% da água doce do mundo, mas constrói suas cidades de costas para os rios. Para inverter isso, as marginais de São Paulo, por exemplo, teriam que acabar. Hoje parece difícil, mas não sabemos no futuro. Se não houvesse restrição de dinheiro nem de opinião pública, daria para fazer.”

Se você gostou da ideia, há uma luzinha lá no fundo do túnel: o Departamento Hidroviário da Secretaria Estadual de Transportes contratou um estudo de viabilidade do anel hidroviário. Segundo o repórter da Trip, o projeto está detalhado em desenhos, mapas, fotos antigas e croquis de diferentes ângulos e escalas, propondo a criação de uma rede de navegação nos rios e represas da cidade, com portos, canais e barragens para ordenar o fluxo de balsas e barcos que transportariam passageiros e cargas de baixo valor agregado, como lixo, entulho, terra e lodo. Além do anel hidroviário de 600 km de extensão, que demandaria a construção de dois grandes canais de ligação entre represas, o projeto também prevê a abertura de um porto no centro velho de São Paulo.

Lembram-se da música infantil “fui no Itororó beber água e não achei, achei bela morena que no Itororó deixei“? Bom, este era apenas um dos rios que perfaziam 4.000 km em São Paulo –  atualmente menos de 400 km permanecem a céu aberto – e, segundo contam, ficava na atual 23 de Maio. E como a cidade tinha muitos rios, a ideia de usá-los para navegar já foi pensada antes. Lendo a reportagem descobri que o engenheiro que deu nome à rua para a qual eu escrevia tentando ganhar uma Caloi (quem tem a minha idade lembra dos Trapalhões promovendo a marca de bicicletas com promoções que iam para a rua Saturnino de Brito no Jardim Botânico no Rio) foi dos pioneiros nesta ideia que hoje consideramos “uma solução”.

Francisco Rodrigues Saturnino de Brito  (1864-1929) foi engenheiro sanitarista e realizou alguns dos mais importantes estudos de saneamento básico e urbanismo em várias cidades do país, sendo considerado o “pioneiro da Engenharia Sanitária e Ambiental no Brasil”. Dentre suas ideias ousadas está um Projeto do engenheiro Saturnino de Brito para evitar as enchentes e aproveitar a água do Rio Tietê. Não parece absurdamente contemporâneo? Prova de que as soluções não precisam ser inventadas, precisam é de figuras com coragem para colocá-las em prática.

P.S. O artigo completo da Trip é bem interessante e está aqui.

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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