Djon Africa, a volta as origens que no fundo todos desejamos fazer

Com simplicidade e leveza, longa estreante nos cinemas, “Djon Africa”, retrata uma condição humana muito coerente aos tempos atuais, ou possivelmente de todas as épocas, o sentimento de busca pela própria identidade e autoconhecimento.

O filme é estrelado por Miguel Moreira, o qual interpreta o carismático John Tibars Africa Noventaz, descendente de africanos e criado em Portugal pela avó. A trama se inicia no país lusitano, onde vive John, típico malandro sem más intenções a não ser manter sua vida em tranquilidade. Ele é órfão de mãe e nunca chegou a conhecer o pai. Todavia, em uma conversa com sua avó, com quem mora, ele descobre que o pai pode estar vivo, e decide partir em sua busca no Cabo Verde, terra de onde veio sua família.

 

Apenas no momento em que está no avião em direção ao país africano, o título do filme surge na tela.

A partir de então, John embarca em uma busca não só do pai, mas, sobretudo de si mesmo. O protagonista acaba vivenciando pela primeira vez as suas origens africanas.

Ironicamente, o africano, sempre tratado de forma preconceituosa pelos europeus portugueses, é definitivamente taxado como “estrangeiro” ou “gringo” por parte dos cidadãos de sua própria terra. Todos percebem que ele não é dali, algo que acaba por vezes prejudicando-o.

Lentamente, o personagem vai tecendo sua própria identidade para com aquele povo que deixara antes mesmo de nascer, enquanto procura incansavelmente pelo pai. A trama critica intrinsecamente a forma como as pessoas de origens e regiões diferentes podem ser estereotipadas em um lugar estrangeiro. Crítica esta feita de modo inovador no cinema, sendo a vítima um africano, mas um estrangeiro em sua própria terra.

Sem muito suspense, o filme segue com passagens cômicas, provenientes, sobretudo da atuação e do carisma do personagem principal, John. Em quesitos de fotografia, vale ressaltar os variados ângulos e perspectivas que destacam o protagonista do meio em que se encontra na maioria das cenas.

Não é uma comédia e não se pode dizer que seja um drama. Entretanto, o assunto tratado na obra não deixa de ser sério em momento algum: a busca incansável pela construção de uma identidade e pela busca das origens de um indivíduo perdido no mundo. E vale ressaltar que pessoas na situação de John espalhadas mundo afora são cada vez mais comuns.

Nota da Editora:

Li uma entrevista com João Miller Guerra e Filipa Reis no qual eles desmistificavam um pouco o personagem do filme e achei que valia bem trazer para cá:

Djon África é um documentário ou uma ficção? Como vocês o definem?
Filipa Reis:
Nós chamamos ficção. No entanto, não estamos muito preocupados com essa distinção. É um filme, e ponto. A ideia foi partir da história real do Miguel – não que ele, em algum momento, tenha decidido largar tudo e ir atrás desse pai – e aproveitar essa vontade que ele sempre teve de ir até Cabo Verde.

João Miller Guerra: Todos eles, que moram em Portugal, falam dessa vontade de regressar à África. É uma herança cultural gigante.

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Daniel Benites

Estudante de jornalismo, amante eterno dá sétima arte, não passo uma semana sem frequentar às telas. Adoro viajar e ter novas experiências, toco em uma banda e espero um dia escrever um livro (ou vários).

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