destaque / entretenimento / relacionamentos

 Se você ainda não assistiu à nova animação da Disney-Pixar, Divertida Mente, sugiro que assista primeiro antes de ler esse texto (a menos que não se incomode com spoilers).

Quando assisti ao trailer, me despertou uma curiosidade imensa para que estreasse logo e foi uma ansiedade só conseguir me organizar para ir ao cinema (demorou um tantinho).

http://m.youtube.com/watch?v=LSpeM7G4zfY

O filme nos surpreendeu muito, a mim, ao meu marido e à minha filha. Esperávamos uma animação-comédia, encontramos uma animação-drama. E sua mensagem tocou em cada um de nós de maneira diferente.

Minha filha, que tem seis anos, saiu chorando muito do cinema e disse que só gostou da alegria. Talvez ela ainda seja muito jovem para a reflexão que o filme propõe, de um jeito doce e divertido sim, mas profundo também. E ainda seja muito jovem para pensar a respeito, quando na verdade, às crianças cabe apenas o sentir.

  
Meu marido, sem planejar, acabou tendo um reencontro com a criança que foi um dia. Achou o filme triste e tenso. Assim como Riley, a personagem do filme, ele também mudou de cidade/escola/”amigos” quando tinha 11 anos. E sem querer, rememorou toda a tensão desta época. O filme traz esta situação para promover a reflexão sobre os sentimentos e o lugar que cada um ocupa dentro de nós. 

E eu, bem, eu estava muito curiosa para ver como aqueles seres que vivem na cabeça da Riley e de seus pais se sairiam numa aventura. E ao longo do filme fui me lembrando de diversas situações que envolvem cada um daqueles personagens: Alegria, Medo, Raiva, Nojinho e Tristeza. Lembrei-me de situações vividas por mim, por amigos e por pacientes meus em Psicoterapia. 

Só para ilustrar, dias antes de ir ao cinema, uma grande amiga me escreveu contando sobre uma notícia muito triste que recebeu e me perguntando como faz pra lidar com aquele sentimento. E eu respondi que a única forma que eu conheço, é deixando ele vir e se esgotar. Qual não foi minha surpresa quando, ao longo do filme, a mensagem é exatamente essa, a de que cada sentimento, desagradável ou não, tem sua importância e merece espaço para se manifestar dentro de nós. E que, juntos, eles são responsáveis por criar e coordenar o bom funcionamento das nossas várias “ilhas”, que são pedaços da nossa personalidade e que guardam nossas memórias, boas ou ruins, mas que são parte integrante de nós. E o curioso é que eles funcionam bem juntos! Separados, a confusão está feita! (Risos- vide o ‘Raiva’ no comando).

Tudo o que vivemos, todas as nossas experiências, vão nos formando e nos transformando no que somos no momento presente. Mas, como a vida não é estática, é impossível manter o mesmo equilíbrio para sempre, tarefa árdua e que faz com que a personagem Alegria lute quase o filme inteiro, até que ela própria se dá conta de que precisa deixar a tristeza chegar. E dando espaço a ela, o processo de resolução do conflito causado pela mudança começa a acontecer.

  

Os anos vão se passando e novas ilhas vão se formando, novos pedaços de nossa personalidade. O que era muito importante em anos passados, pode perder a importância ou assumir nova forma. E assim, nos configuramos como seres em constante crescimento e transformação.

O filme pode ser uma grande oportunidade de encontro com nós mesmos, com a criança que fomos um dia, com tempos remotos ou com momentos nem tão distantes, mas que ainda reverberam em nossas emoções e que merecem atenção e espaço nas nossas vidas.

Analisando a história de Riley, a Alegria procurou criar, desde o início, bons argumentos para fazer da nova vida um sucesso. Um misto de ansiedade e empolgação tomava conta de Riley na chegada à casa nova e em seu primeiro dia de aula. Mas todos os sentimentos estavam lá, presentes, ainda que negligenciados. A dor de deixar um lugar onde se foi feliz, amigos queridos, boas experiências, tudo o que se conhece, para se lançar numa nova vida, pode ser mesmo assustador, gerar raiva, medo, até nojo. E a tão temida tristeza!
  

Como Psicoterapeuta, eu costumo dizer que, toda vez que tentamos impedir um sentimento de se manifestar, ele fica guardado esperando uma brecha para se mostrar. E às vezes isso acontece em momentos totalmente sem razão de ser (imaginem uma explosão de raiva diante de uma pergunta boba? Um tanto exagerado, não? Mas pode ser a chance que ela encontrou de se manifestar, depois de ficar guardada por algum tempo, sem espaço. Vale pensar a respeito).

Assim, cabe aqui a reflexão sobre quem nós somos, como fomos formados e que caminho percorremos para chegar até o momento presente. Tudo isso é parte de nós e merece atenção e cuidado. Qualquer dor merece ser vivida na sua plenitude, qualquer alegria merece ser vivida intensamente, no momento em que acontecem.

Posso concluir que o filme traz para as crianças a mensagem de que é possível e necessário ser feliz, dando a chance para todos os sentimentos se expressarem e que isso não vai fazer tudo ficar perdido. Ao contrário, assim se constroem novas histórias e novas boas memórias. Alegria (personagem) percebe que, porque Riley ficou triste, todos apareceram para demostrar amor e solidariedade e isso fez a alegria (sentimento) ressurgir.

Aos adultos, pais ou não, considero um convite ao reencontro consigo mesmo. Um resgate da sua criança perdida, de suas histórias, das ilhas esquecidas na infância, mas que podem dar leveza ao dia a dia. Uma reflexão sobre que caminhos foram percorridos, que novas ilhas foram formadas e quais perderam a importância no seu processo de crescimento. Tudo isso nos forma e é igualmente importante para seguirmos sempre adiante, “ao infinito e além”, lembrando de outra animação que nos faz voltar à infância. É força que nos move, lembrem disso!

Já viu o filme? Estou doida pra rever!

Ainda não viu e mesmo assim leu o texto? Corre pro cinema, ainda dá tempo!

The following two tabs change content below.
Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

Latest posts by Sam @samegui Shiraishi (see all)


Comentários no Facebook

SEO Powered by Platinum SEO from Techblissonline Estatísticas