O que seria do azul se todos gostassem do amarelo?

Ontem, 29 de novembro, Gui e eu fizemos 19 anos de namoro. É muito tempo juntos, mas um tempo natural para quem se conheceu na escola e dois anos e meio depois começou a namorar.

A gente sabia que seria corrido, não daria para programar algo especial e o jeito era postergar o jantar romântico, mas não esperávamos que, quase 20 anos depois, nossas vidas fossem tão envolvidas com as vidas de outros. Além de compromissos de trabalho sérios (nossa empresa está fechando três projetos importantes ao mesmo tempo nestes dias), à noitinha ficamos em função das crianças. Engana-se quem pensa que foi aquela confusão de pegar na escola, dar banho, jantar e etc… ficamos no leva e traz dos ensaios.

Isso, ensaio de teatro. Enzo será o Ventinho (o amigo cupido de Romeu e Julieta na versão de Ruth Rocha) na peça de teatro do final de ano letivo. E Giorgio faz o pai do Romeu, chefe do clã de borboletas azuis que não admite mistura com borboletas e flores de outras cores – Julieta é amarela e vive no canteiro de margaridas.

A ideia da peça, baseada num dos primeiros contos que Ruth escreveu na década de 1970 para a emergente revista Recreio, editada por sua (na época) cunhada Ana Maria Machado (imaginem como eram os encontros de família para as crianças nascidas neste clã, hein!), nos faz pensar no quanto é importante permitir a diversidade na vida dos nossos filhos.

Nós conhecemos a história graças ao CD Mil Pássaros no qual Ruth Rocha narra sete de suas primeiras histórias que foram também “musicalizados” pelo grupo Palavra Cantada. Lindo – super recomendo!

O que seria do azul se todos gostassem do amarelo? O que seria do mundo se todos os meninos resolvessem fazer escolinha de futebol? Deixaríamos de ter homens no teatro, no cinema, na TV, nas companhias de dança? Passaríamos ao kabuki e Nô feminino? E se a cada desenho exaltando a natureza que nossos filhos fizessem a gente dissesse: florzinha é coisa de menina!

Como mãe de garotos – dois garotões, que já falam de meninas como quem está se apaixonando e sabem sim discutir esportes masculinos quando querem – me empenho muito para que eles sejam sensibilizados pela arte. Quando eles eram queridos, minha ideia era manter acessas neles a curiosidade e a capacidade infantis de se deslumbrar com o belo. Como digo no @avidaquer, pensava nos meus pequenos consumidores de cultura. Acabei, sem planejar, criando bases para possíves produtores de cultura se sentirem à vontade para existir num mundo que, vamos combinar, precisa muito e cada vez mais deles.

Então, numa terça como esta, em que terei novamente ensaios de teatro pela frente numa noitada pesada de pré-estreia – e com direito a lançamento de um livro com os “Talentos” da escola no qual Enzo tem um texto publicado – eu me sinto no meio de uma construção boa, daquelas que não tem fim e na qual eu serei mais um pedreiro a assentar parte dos tijolos de uma obra que nem sei se verei, mas da qual me orgulha ter feito minha parte.

E vocês, pais, mães, avós e tios corujas, como tem sido seu trabalho na construção dos novos produtores do Brasil?

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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