Dica de série: Call the midwife

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Vi Call the midwife por meses no meu Netflix e admito, nunca pensei nem em clicar para ver. A foto da mocinha sorridente sobre uma bicicleta antiga e o nome – chame a parteira – me repeliam!

Mas, como eu vejo muitas séries da BBC e tenho um fraco por história, mais ainda pela “história da vida privada”, a série ficava aparecendo o tempo todo entre os relacionados e as sugestões do algoritimo, até que um dia tive paciência e venci o primeiro episódio.

Bom, de cara, o que vemos é uma cuidadosa reconstituição de época cuja qualidade alcança figurinos e cenografia.

Ao ver mais episódios – em algumas madrugadas insones fiz maratonas de temporadas – a gente passa a viajar na História por histórias humanas, que desmistiticam preconceitos.

Aprendi que as freiras inglesas, talvez por não serem católicas, não faziam as moças que moravam no seu lar viverem como num monastério, acompanhei discussões importantes sobre amor entre irmãos, miséria material e espiritual, acolhimento de filhos fora do casamento, descobri que os padres namoram e não eram obrigados a casar com a primeira namorada (e a congregação não pedia para o bispo mandá-los embora!) e sobretudo que há espaço para errar e continuar tentando até acertar quando estamos agindo com amor e priorizando relacionamentos.

O sistema de saúde inglês nas décadas de 1950/60 também me deixou boquiaberta.

Li detalhes no Paleonerd e me impressionei mais ainda!

O acompanhamento de saúde oferecido pelas midwives era gratuito, sob um sistema governamental chamado National Health Sevice (NHS) recém-instalado no Reino Unido que fazia parte do pacote de Bem-estar Social. Inclusive, em alguns episódios você pode perceber a transição do serviço particular para o gratuito em que alguns pacientes chegam a desconfiar das enfermeiras, acreditando que cobrariam pela assistência. Por muitos anos, antes da implantação do NHS pelo governo, as parturientes sem condições financeiras tinham seus filhos sem nenhum ou pouco acesso à ajuda médica (na raça mesmo e por isso era alta a taxa de complicações e mortes em partos). Devido ao seu trabalho, as midwives eram muito respeitadas pela comunidade e seus serviços reconhecidos como de suma importância para o nascimento dos bebês assim como para a manutenção da saúde dessas pessoas que viviam em péssimas condições, o que reforçado pela série.

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Imagine que eles tinham um sistema público em que enfermeiras visitavam os lares para cuidar de enfermos (desde aplicar insulina e fazer exames de urina em diabéticos até tratar de ferimentos) e acompanhavam gravidezes, planejando os partos em casa. Sim, em casa, com parteiras treinadas, sem medo de nada!

Já pensaram como seria o Brasil se contássemos com 50 anos de atendimento assim? Se nossas avós tivesse recebido atendimento adequado, se nossas mães fossem empoderadas sobre parto natural e aleitamento materno, se nossos pais tivessem aulas para apoiar suas esposas em casa? 

A pobreza é indiscutível no bairro onde se localiza o Lar Nonato, a sede da congregação, escola profissionalizante de enfermeiras parteiras e casa que freiras e moças solteiras dividem. Mas, por outro lado, as dificuldades unem as pessoas e elas acabam se ajudando, mudando a política regional e trazendo benefícios sociais para todos.

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A East End de Londres, também conhecida simplesmente por East End, é a área de Londres, Inglaterra, localizada a leste da muralha medieval da Cidade de Londres, e ao norte do rio Tâmisa. O uso do termo East End em um sentido pejorativo começou no final do século XIX, quando a expansão da população de Londres levou à extrema superlotação de toda essa área e uma concentração de pobres e imigrantes. Os problemas se agravaram com a construção da St Katharine Docks (1827) e de um terminal da ferrovia central de Londres (1840-1875) que causaram a eliminação de antigas favelas, com muitas das pessoas desalojadas se deslocando para East End. Ao longo de um século, East End se tornou sinônimo de pobreza, doenças, superlotação e criminalidade.

A trama é ambientada nos anos 1950 e segue a trajetória de uma enfermeira de 22 anos que atua como parteira junto com um grupo de freiras no East End de Londres. A história é real, baseada em livros escritos pela Jennifer Worth –  Call the Midwife, Shadows of the Workhouse e Farewell to The East End – e talvez seja essa experiência extraordinária que faz a série ser tão envolvente.  Ela trabalhou no London Hospital no começo dos anos 1950 e com as freiras anglicanas (Sisters of St John the Divine, a comunidade retratada na série), passando depois pelo Elizabeth Garrett Anderson Hospital e o Hospital Marie Curie para doentes terminais.

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A série conta também com personagens e atores que nos fazem sentir empatia, torcer e ter vontade de rever. Jessica Raine como Jenny Lee, Miranda Hart como “Chummy” Browne (Camilla Fortescue-Cholmeley-Browne), depois “Chummy” Noakes, Jenny Agutter como Sister Julienne, Pam Ferris como Sister Evangelina, Judy Parfitt como Sister Monica Joan, Helen George como Beatrix “Trixie” Franklin, Bryony Hannah como Cynthia Miller, Cliff Parisi como Fred,  Laura Main como Shelagh, Stephen McGann como Dr Patrick Turner.

Jessica Raine é a mocinha na bicicleta que falei cno começo, mas a série não é (só) sobre ela.

Miranda Hart, uma comediante conhecida, é incrível como Chummy e muita gente se ressente das ausências dela.

As veteranas Jenny Agutter, Pam Ferris, Judy Parfitt e Vanessa Redgrave (a narradora, a voz de Jenny mais velha) são um show à parte. Para entender, basta dar uma olhada nelas em outros papeis ou apenas “sem o hábito”.

Gostou? Bom,  5 (das 9) temporadas estão disponíveis na Netflix. 🙂

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.