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Quando o filme “Men, Women and Children” chegou aos cinemas brasileiros, recebi convites para conferir o que era indicado como o novo filme de Jason Reitman (Juno, Amor Sem Escalas). Quis ver, mas as poucas salas que o exibiam logo tiraram o filme de cartaz.

E foi assim que, movida pela curiosidade, cheguei ao livro que deu origem à versão cinematográfica.

O jeito atual que pretende ser um retrato (uma #selfie?) da sociedade atual é tônica dos filmes de Reitman, mas está lá no livro de Chat Kultgen, que lembra um roteiro rápido e cheio de referências cotidianas. No começo da leitura logo me vieram à mente filmes como “Crash – no limite” e “Short Cuts – Cenas da vida“, que podem ter influenciado tanto o escritor quanto o diretor.

O tema nos é próximo, de um jeito (a sexualidade humana) ou de outro (a tecnologia).

Left to right: Rosemarie DeWitt plays Helen Truby and Adam Sandler plays Don Truby in MEN, WOMEN & CHILDREN, from Paramount Pictures and Chocolate Milk Pictures. PBD-02603R

(cena do filme)

E ela é a linha que une e distancia os personagens, forçando-nos ao limite das indagações sobre como ao mesmo podemos ser tãos obcecados com a conectividade entre pessoas e tão despreocupados com o distanciamento que ela pode causar.

Como li numa crítica do filme, “o drama estabelece um verdadeiro pot-pourri das mudanças causadas pela tecnologia, de websites onde todas as perguntas erradas podem ser respondidas, à facilitação da procura por afeto por desconhecidos, aos desvios gerados pelo excesso de pornografia, passando pelo desperdício de tempo em uma vida que não é a sua, questões sobre privacidade e até as promessas de vida fácil em se tornar uma celebridade online. Não há pedra que o diretor não vire aqui.”

No livro, ao acompanhar a vida de seis adolescentes e suas famílias através de suas relações com a tecnologia, a gente entra na intimidade nem sempre agradável da família.

Passado o mal-estar da nudez mental dos personagens, a gente percebe que boa parte das imagens mentais são importantes para construir os personagens.

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Então, por mais estranho que seja, tem algum valor saber que o cara não só “se alivia” sozinho em casa no seu horário de almoço, como sente-se compelido a jogar até o lixo com os resíduos da sua “atividade” no lixeiro do vizinho, para evitar perguntas da esposa. Esse jeito “cru” que o autor usa para apresentar os pensamentos de cada um dos envolvidos nas microestórias (adultos ou adolescentes, todos nus perante o leitor em cada pensamento ao longo do dia) é valioso para que a gente entenda onde cada um deles se meteu – e como isso aconteceu. A mocinha que parece perfeita (nota A em tudo, atleta e linda!) tem a vaidade explorada pela mãe numa rotina que faz a gente desejar chamar a Benson, de Law & Order SVU! Dá vontade também de mandar os pais do menino que é viciado em pornografia transexual em vídeo se separarem e olha, não tem nada a ver com a preferência do garoto, é com o vazio do não-relacionamento sexual dos pais que a gente se exaspera. E as meninas de 13 (!!) anos que discutem no vestiário da escola quem será a primeira a perder a virgindade na turma, numa competição vazia de desejo real, mas cheia da necessidade de ser a primeira, a melhor e entrar para a história daquele grupo? O pior é que para provar que são pioneiras, elas são capazes de fazer #selfie do sexo oral que “ofereceram” para alguém e carregam esta prova/trofeu no celular, para mostrar quando precisarem “mijar no poste”.

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Continuo sem ter visto o filme, mas a crítica (que pelo que entendi não leu o livro) elogiou bastante a presença de Adam Sandler, Rosemarie DeWitt, Ansel Elgort e Kaitlyn Dever. E tem Paul Rudd, aquele especialista em situações contrangedoras, como a cena de This Is 40 na qual a esposa o xinga porque está jogando no iPad enquanto usa o banheiro.

E por falar em iPad e tecnologia, uma das coisas “datadas” do filme é que os adultos usam computadores para tudo. Há uma mãe do movimento que monitora e filtra todas as contas, aparelhos e atuação online dos filhos (deletando até SMS de convite de um colega para ir ao cinema), mas no geral são todos da geração laptop e myspace. Num mundo de Facebook, smartphones e whatsapp, será que este livro/filme ainda tem sentido?

Acho que tem!

Mas esse ainda é muito mais um assunto dos pais do que dos filhos. Quer dizer, não é para os pais lerem este meu texto, chegarem em casa, sem nem olharem o livro ou o filme e falarem pra filha de 12 anos:

– Procure o livro/filme XX, fala de coisas da sua idade, da sua geração, você vai gostar.

Porque eu sei, tem gente que vai fazer exatamente isso. Nem vai testar, conhecer, provar. Vai simplesmente “pagar de moderno” e achar que indicando algo “com tecnologia e que fale das besteiras que a molecada gosta” vai ser bom.

E não vai.

Este livro/filme, como outros na mesma linha de Trust (2010), pretende nos mostrar que nós, adultos, estamos fazendo falta. Mas não é no controle, é na companhia, na presença, no interesse e, por que não, no simancol de saber quando não cabe ser nem sequer “coadjuvante” da vida do filho. Há momentos para tudo e nem todo mundo sabe como viver cada fase.

Aliás, fica a dica: os dois filmes têm censura 16 anos e eu mesma não veria antes dos 18. 😉

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E para quem pensa que isso tudo só acontece fora do Brasil:
Uma pesquisa super recente da Capricho, chamada 101 Quartos, revela que as principais atividades ligadas à afirmação da personalidade das meninas – como escolher os melhores looks, experimentar produtos de beleza, assistir às suas séries favoritas e interagir com amigos e colegas – se passa principalmente no quarto, usando a internet.  A pesquisa é composta de dois levantamentos — o primeiro, quantitativo, entrevistou 4.747 adolescentes entre 14 e 17 anos das classes A (22%), B (60%) e C (18%); já o segundo, qualitativo, consistiu em visitas aos quartos de 101 adolescentes, presencialmente e por skype. 100% das entrevistadas têm conexão no quarto e a grande maioria, 83%, tem um smartphone, enquanto 48% têm um computador só delas. Conectadas a maior parte do tempo e trocando dicas e informações por mídias sociais, elas são consumidoras ativas e bem informadas. Metade das entrevistadas não tem mesada e 54% não têm cartão de crédito — apenas 10% delas trabalham. O resultado dessa nova configuração, entretanto, é um alto grau de sedentarismo: 70% das entrevistadas confessam que não praticam atividades extras. As principais atividades que se passam no quarto, segundo elas, são estudar, assistir a séries, ler e acessar a internet.
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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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