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Neste sábado revivi meu francês. Assisti Made in France, filme que no Brasil ganhou o título de Os caminhos do terror e trata de um tema que assombra a Europa atual: o crescimento de células jihadistas.


Em 2016 eu li dois livros que tratavam disso. Submissão, distopia de Houellebecq, e Na pele de uma jihadista, de Anne Erelle, que é (pretensamente) a história real de uma jornalista recrutada pelo Estado Islâmico. Falei dele neste post, explicando o quanto a história de um futuro próximo no qual os muçulmanos ricos tomariam o poder e os espaços intelectuais franceses, parecia até factível diante do crescimento da xenofobia na Europa.


No segundo, controverso porque a autora não assumiu seu nome real, a história mostra como uma jovem e frágil (chamada Mélodie), recém-convertida ao islamismo, conhece, num chat do Facebook, Bilel, integrante de alto escalão do Estado Islâmico e braço direito de Abu Bakr al-Baghdadi, um dos terroristas mais perigosos do mundo. Após somente dois dias de conversas por Skype, ele já se declara “apaixonado”. Mais do que isso: pede Mélodie em casamento, instigando-a a juntar-se a ele na Síria para viverem juntos uma vida idílica, repleta de riquezas materiais e espirituais.  Mas o que Bilel não sabe é que Mélodie não existe fora do mundo virtual. Ela é, na verdade, Anna Erelle, uma jovem repórter parisiense que investiga as redes de recrutamento de grupos terroristas e suas propagandas digitais.


O filme que vi hoje tem uma Mélodie e outros jovens europeus que têm se convertido ao movimento em busca de um objetivo de vida, visibilidade e, como vemos em Made in France, um grupo que os acolha. Em cada momento que os personagens se chamam “mon frère” (meu irmão), vê-se o quão valioso é o vínculo que sustenta as “células”. 

O personagem principal, Sam, vivido pelo ator francês Malik Zidi, é também um retrato interessante do francês da minha geração. Filho de argelino, ele é árabe de sangue e muçulmano por herança. 

Para entender, ajuda saber um pouco da Argélia, país de origem de ícones franceses da atualidade como Zinedine Zidade e Jean Reno,e que se libertou de 132 anos de domínio francês no meio do século XX, depois de uma guerra difícil que durou muitos anos e deixou 1 milhão de vítimas. 

A Argélia tem uma rica história, tendo conhecido muitos impérios e dinastias, incluindo os antigos numídios, fenícios, romanos, vândalos, bizantinos, omíadas, abássidos, idríssidos, aglábidos, rustamidas, fatimidas, ziridas, hamaditas, almorávidas, almóadas, otomanos e o império colonial francês. 

País majoritariamente muçulmano, a  Constituição argelina define “o islã, os árabes e os berberes” como “componentes fundamentais” da identidade do povo argelino, e o país como “terra do islã, parte integrante do Grande Magreb, do Mediterrâneo e da África.


Agora tentem pintar um cenário no qual cerca de 5 milhões dos 6,5 milhões de muçulmanos na França sejam argelinos. A maioria é pobre, e muitos se consideram cidadãos de segunda classe na terra da igualdade.

Esse é o público que escuta pregadores como o que abre o filme. E em parte é o que segue pessoas como Hassam (vivido por Dimitri Stororage), sem discutir suas ideias, sem buscar referências e sem medo de seguir suas ordens. 

O filme é muito masculino. Mas duas personagens femininas bem diferentes são interessantes e creio que o roteiro as coloca como emblemáticas. Zora (vivida por Nailia Harzoune), a jovem francesa do interior que parece ser inspirada na Mélodie do livro na pele de uma jihadista e é a esposa do líder Hassam. E Laure (vivida por Judith Davis), a jovem mãe e esposa do personagem principal Sam. A forma como elas lidam com as escolhas e os passos dos maridos também nos explica algumas coisas. 

Nicolas Boukhrief, de Assalto ao Carro Forte (2004), Guardiões da Ordem (2010) and Cortex (2008), teve um certo trabalho para explicar, no final de 2016, que seu filme não previu atentados no seu país, só mostrou uma realidade possível. Mesmo assim o filme teve sua estreia adiada e muito enfraquecida.

Se você entende francês, pode ouvi-lo nesta entrevista: https://youtu.be/xKuytFBJaOU 

Saiba mais:

“Sam, um jornalista independente, está prestes a aproveitar o fato de conhecer bastante da cultura muçulmana, e se infiltrar em um dos grupos fundamentalistas instalados nos subúrbios de Paris. E, ao se aproximar de um grupo de quatro jovens participantes, acaba descobrindo que para eles fora dada a tarefa de criar uma célula jihadista e semear o caos no coração de Paris.”

Veja o trailer: 

P.S. Assisti o filme no iTunes (❤ AppleTV), na parceria do blog com a distribuidora Sofá Digital.

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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