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Uma das coisas que o cinema nos dá é a chance de entrarmos na vida de outras pessoas, em experiências que não são nossas. Muitas vezes, além de não serem nossas, são coisas e lugares que, por diversas razões, não viveremos.

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Senti isso quando vi o filme argentino “O incêndio” (El incêndio, 2015), um dos que me convidaram a ver naquela parceria de “videos on demand” com a Sofá Digital. E novamente é um dos filmes que talvez eu nem visse no cinema, mas que no sofá de casa, vendo no iTunes pela minha AppleTV, caiu bem.

Como li numa crítica, o filme é o retrato fiel da maioria dos casais de hoje.

Não sei se é só um retrato de casais, mas dos relacionamentos afetivos interpessoais no geral, pois no filme fica clara a falta de comunicação e de intimidade real como um ponto que poderia mudar tudo.

A história parte de uma premissa que já é o retrato de pessoas que fazem o que a sociedade manda, seguindo o status quo:

“Lucía e Marcelo estão sitiados entre caixas e malas. Eles estão prestes a deixar o apartamento alugado em que moraram nos últimos anos para viver em um novo imóvel recém-comprado. Sem grandes explicações, a mudança é cancelada, adiando os planos do casal para o dia seguinte. Esse inesperado contratempo os força a ponderar sobre suas vidas e o seu relacionamento – e o que parecia ser o início de um futuro compartilhado torna-se um pesadelo. Nessas 24 horas da vida do casal, constrói-se um retrato de uma sociedade neurótica prestes a explodir. “

Neste dia, é incrível como as coisas acontecem nas vidas pessoais deles e entre o casal protagonista sem que eles efetivamente se comuniquem.

Cada um tem um problema específico e não conversa sobre esse problema com o outro. E isso resulta em que? Em frustração, raiva, irritabilidade, e tudo isso é jogado para cima do outro, resultando em brigas, brigas e mais brigas. O que acontece é que eles estão juntos, mas não estão juntos. Estão presentes no mesmo lugar, mas a cabeça está longe, não está ali, eles não compartilham uma vida de verdade visto que não se comunicam, não expressam suas vontades, seus problemas. E quando não dá mais pra segurar tudo, vem tudo como numa explosão. Seria tão mais fácil se desde o começo as coisas tivessem sido conversadas, não é mesmo? E a vida é exatamente assim. A gente nunca fala, por diversos motivos, e no fim dá tudo errado por causa dessa falta de diálogo. Nós é que acabamos dificultando tudo, quando poderia ser mais fácil. Afinal, um problema compartilhado sempre é mais fácil de ser levado, certo? O peso fica menor.

Tenho dificuldade de julgar e de efetivamente estar no lugar de Lucia e Marcelo, pois casei cedo e a estabilidade de comprar um imóvel não me seduziu na época, mas vejo neles em relances muitos amigos que estão na faixa dos 20 aos 30 anos. Morar junto faz a gente ir levando a vida junto sem saber bem por quê? Tem uma hora em que a gente queria fugir, fazer outra coisa, mudar de ideia, mas já está envolvido demais para isso? Os silêncios desta falta de escolha vão mudando tudo? Tem um limite, aquela gota d’água que faz tudo se perder? Será que amigos e família enxergar isso tudo em nós ou somos invisíveis?

São muitas questões neste filme que, como bom cinema argentino, é feito de silêncios e de reflexões sobre o cotidiano simples, rústico, real.

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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