Dica de filme: Neruda

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Confesso uma coisa: para mim a única coisa interessante sobre Neruda era que ele nasceu no mesmo ano do meu avô (1904) e morreu no ano em que nasci (1973). Admito, isso é praticamente nada.

Gosto de poesia, mas não conseguia ter afinidade ou empatia com os temas dele.

Por Andrevruas - Obra do próprio, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=19159276
(Foto de Andrevruas)

Mesmo assim, ao ver o trailer sobre o filme Neruda, fiquei curiosa e quis assistir. Gael Garcia Bernal me interessou? Pode ser. Uma produção dele com o renomado diretor Pablo Larraín, selecionada para a Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes e representante do Chile no Oscar 2017 de Melhor Filme Estrangeiro deveria ser boa, concordam? Mas acho que foi a semelhança de Luis Gnecco com Neruda que me fez pensar que eu precisava ver o filme.

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O filme se passa no final dos anos 1940, quando governos latino-americanos se alinham à política dos EUA e o Partido Comunista é banido do Chile, o inspetor polícia Peluchonneau (Gael García Bernal) persegue o poeta chileno ganhador do Nobel, Pablo Neruda (Luis Gnecco), à época um senador deste partido.

O longa, que tem um clima nostálgico que lembra Casablanca e outros clássicos dos Anos 40/50, me fez entender o homem por trás do poeta. E me fez ver que eu teria gostado muito dos poemas românticos dele, mas, infelizmente, acabei ouvindo repetidamente somente os de cunho político.

E são estes os que se repetem no filme, que, felizmente, traça também um retrato subliminar do homem por trás do poeta e que vai nos explicando porque ele era tão amado. Duas cenas me chamaram muito a atenção:

[Atenção, aqui tem spoilers]

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A cena que mais me marcou foi quando ele está numa cidade menor, já a caminho da sua fuga do Chile, e, disfarçado de “rico empresário da América Central”, é abordado na rua por três crianças miseráveis que lhe pedem dinheiro. Ele sinaliza que não tem nada nos bolsos e os garotos menores fogem. Mas a menina insiste, mantém o olhar, esperançosa ou, como meu coração temeu, pensando se ele lhe daria algo por algum “favor”.

(E nesta hora eu pensei: “Ah, Neruda, não seja pedófilo, por favor!”…)

Ele se compraz e a chama.

(Eu pensei novamente: “Por favor, não faça o que estou pensando!”)

Ele a chama para perto de si e acolhe, num abraço fraterno, paterno, humano. A menina fica perdida, sem saber o que fazer, em seus andrajos encardidos sendo acomodada nos braços daquele terno alvo, imaculado e tão significativo das diferenças sociais entre eles. A humanidade de Neruda nesta cena derruba todas as barreiras entre eles e nos permite vislumbrar o que ele pode ter significado para seu povo e para quem conviveu com ele.

A segunda passagem é quando ele está num cabaré (um dos muitos, pois Neruda era frequentador assíduo, ao que parece) e a polícia surge. Não é desta vez que o inspetor tem sucesso nesta caçada que é uma diversão para o poeta narcisista. Ele se esconde no meio das prostitutas e travestis, vestindo-se como cortesã. Em seguida, o inspetor desconfia, volta e acaba interrogando um travesti que cantava no local durante a batida policial. A princípio ele nega que tenha visto o Senador, mas depois admite e explica para o policial porque ele nunca o achará e, sobretudo, jamais será como o Poeta. Conta que Neruda sentou-se ao seu lado, declamou uma poesia em seu ouvido, perguntou sobre sua vida e olhou-o nos olhos, como um ser humano, conversando “de homem para homem”.

Essa magia, este homem capaz de amar, isso é o que senti no filme que fazia as pessoas o amarem e até quem não conhecia fazer o possível para proteger-lo, ajudá-lo e poupá-lo.

[Fim dos spoilers]

E como era poupado!

O Neruda do filme de Pablo Larraín é o retrato do intelectual de esquerda da América Latina que ainda tinha coronéis, é um homem de sua época, sem vergonha dos seus privilégios, das suas regalias, do que lhe diferenciava dos campesinos a quem ele defendia e enaltecia em seus poemas.

Meu caminho junta-se ao caminho de todos. E em seguida vejo que desde o sul da solidão fui para o norte que é o povo, o povo ao qual minha humilde poesia quisera servir de espada e de lenço para secar o suor de suas grandes dores e para dar-lhes uma arma na luta pelo pão.
Pablo Neruda

Se é verdade ou não, não sei. Pablo Neruda era um mito, não há como concordar com tudo que se lê ou ouve sobre ele, tampouco há como discordar.

O fato é que o poeta chileno,um dos mais importantes poetas da língua castelhana do século XX,  provou os prazeres da vida, amou as mulheres e se comprometeu com o comunismo no Chile, onde morreu poucos dias depois de seu amigo Salvador Allende.

O filme deixa também um desejo: conhecer melhor a obra dele. 

Desde jovem seu grande talento ganhou reconhecimento internacional e, em outubro de 1971, recebeu o Prêmio Nobel de Literatura. Dizem que a obra de Neruda se caracteriza por sua universalidade, incorporada em obras como “Residência na terra”, “Canto Geral”, “Odes Elementares” e “Confesso que vivi” , ou ainda nos versos dedicados à dança, alegria, ao livro, ao mar, ao tempo, à tristeza ou ao vinho, ou com poemas como “As alturas de Machu Picchu”, com o qual introduziu a história sul-americana. São bons títulos para começar.  Me interessou mais suas obras mais românticas, em especial “Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada”. Talvez eu comece por este, quem sabe?

E sobre o amor… Apesar de ter sido considerado um homem fisicamente pouco atraente, tímido e inseguro, Neruda se casou três vezes e teve pelo menos seis amantes furtivas, que o inspiraram a criar os famosos poemas de amor. Aparecem neste filme a holandesa Maria Antonieta Hagenaar, sua primeira esposa (com quem se casou em 1930 em Batavia, atual Jacarta) e mãe de sua filha, Malva Marina, que morreu aos oito anos de idade, vítima da hidrocefalia. E dá sustentação à história dele a artista plástica argentina Delia del Carril (Mercedes Morán), 20 anos mais velha, que teve forte influência sobre o poeta, tornando-se uma espécie de “mãe intelectual” durante os 20 anos de convivência.

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Faltou a soprano chilena Matilde Urrutia, sua terceira esposa, com quem passou seus últimos dias na casa de Isla Negra. Neruda começou o romance com ela depois dos eventos retratados no filme.

O filme é um pouco lento, tem o ritmo, a luz e as sombras da época e nem sempre isso funciona bem hoje em dia. Mas satisfez minha curiosidade sobre o personagem histórico, me deu uma dimensão maior do Chile e do seu povo, além de reforçar minha visão sobre a esquerda da região antes dos golpes. Recomendo para quem gosta do estilo e tem a mesma curiosidade e interesse histórico que eu.

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Curiosidade: ele me lembrou o nosso Poetinha, Vinícius de Moraes, pois também teve uma extensa carreira diplomática e muitas mulheres. Neruda foi cônsul em Yangum (Birmânia, atual Mianmar), Cingapura, México e Espanha. E, segundo Vinícius, eles tinham muito mais em comum.

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Ah, e você já deve ter visto várias imagens que circulam na internet com textos bonitos atribuídos a Neruda. Até textos de Martha Medeiros já vitalizaram como sendo dele. Uma os mais famosos e populares, Muere lentamente, é um exemplo de textos que não são dele. Vale a pena checar antes de postar por aí!

Basta olhar a Fundación Pablo Neruda para conferir.

 

P.S. Assisti ao filme na AppleTV, como parte da parceria do @avidaquer e a Sofá Digital, uma agregadora e distribuidora digital que faz a ponte entre as principais distribuidoras independentes do Brasil, como California Filmes, Mares Filmes, Imovision, Pandora, e as plataformas digitais, como Netflix, iTunes, Now. Usuária deste sempre destes sistemas, por comodidade e praticidade (pois a logística de uma mãe e empreendedora é muito menor se puder ver um filme em casa do que programar tudo para ir ao cinema no horário marcado!), eu tenho notado que a janela entre cinema e VoD está cada vez mais curta, e alguns filmes entram direto em VoD.
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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.