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Assisti nesta semana “Eu, Daniel Blake” e fiquei impressionada! É tão impactante e forte (e ao mesmo tempo amoroso, tanto que não me fez chorar) que está me enchendo de sentimentos e reflexões sobre as pessoas e as instituições.

Quanto sofrimento e necessidades estão ao nosso lado? 

Quantos podemos resolver com o conhecimento que temos e que o Estado não reconhece? 

Recomendo muitíssimo o filme que, não por acaso, foi vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes.

As sinopses nem sempre me agradam, mas ajudam a imaginar o filme e podem nos fazer assistir ou desistir.

Neste caso, é um resumo interessante:

Após sofrer um ataque cardíaco e ser desaconselhado pelos médicos a retornar ao trabalho, Daniel Blake (Dave Johns) busca receber os benefícios concedidos pelo governo a todos que estão nesta situação. Entretanto, ele esbarra na extrema burocracia instalada pelo governo, amplificada pelo fato dele ser um analfabeto digital. Numa de suas várias idas a departamentos governamentais, ele conhece Katie (Hayley Squires),  a mãe solteira de duas crianças, que se mudou recentemente para a cidade e também não possui condições financeiras para se manter.

Após defendê-la, Daniel se aproxima de Katie e passa a ajudá-la. A relação que se dá entre eles é bonita e quem já viveu algo parecido sente empatia imediata. Eu lembrei das vizinhas idosas que tive e me ajudaram com as crianças pequenas, pensei nas pessoas que eram gentis com minha avó. Me vi nos dois lados.

E também me vi nas crianças. A atriz mirim Briana Shann, que interpreta Daisy, a filha de Katie, é um rosto lindo para guardarmos. Está muito bem no papel, fala com o olhar e com o corpo, e sua personagem tem uma das melhores falas do filme. Quando, já desistindo de tudo, Daniel não quer mais sair de casa, ela fala com ele pela porta do edifício:

– Dan, você me ajudou quando eu precisei? Então me deixe fazer o mesmo.

Parece simples. Mas retribuir a gentileza, a cordialidade e a bondade sem competir nem mensurar é o que falta neste mundo.


O ponto alto da história, que vista como esse resumo aí parece um senhor que assumiu a paternidade das crianças ou dos três, é que mostra como o amor fraterno nasce e vive em muitos de nós, de várias formas, não necessitando de um romance para se fazer presente.

Achei que veria algo como “Um homem chamado Ove“, ranzinza, de mal com o status quo e ao mesmo tempo preservando-o, mas me deparei com um personagem doce, cercado de doçura e distribuindo pequenas gentilezas, mas ao mesmo tempo capaz de levantar a voz e se levantar contra o que é absurdo.

E o filme, que muita gente sente como “um soco no estômago” (é é!), deixa a gente pensando em muita coisa. Achei positivo porque muda o olhar crítico… sabe, aquela coisa de taxar de errado quem vende produto pirata ou se prostitui? Senti que tira este peso porque demonstra como as pessoas chegam a escolhas que a gente não faria!

Como li, Daniel Blake denuncia

“a precarização da classe trabalhadora britânica diante de um Estado burocratizado, mecanizado, insensível – e, no limite, assassino. Para isso, acompanha a rotina de Daniel Blake, um carpinteiro de Newcastle que sofre um infarto, fica impedido de voltar ao trabalho e entra numa espiral surreal para obter seu auxilio-desemprego junto ao governo, além de enfrentar o estigma de quem associa o benefício, um direito, a uma certa indisposição ao trabalho.”

Em entrevista ao El Pais, o cineasta Ken Loach afirmou:

“As grandes corporações dominam a economia e isso cria uma grande leva de pessoas pobres. O Estado deve apoiá-las, mas não quer ou não tem recursos. Por isso cria a ilusão de que, se você é pobre, a culpa é sua. Porque você não preencheu seu currículo direito ou chegou tarde a uma entrevista”.

Como chegamos à situação que seu filme descreve?

É um processo inevitável, é a forma como o capitalismo se desenvolveu. As grandes corporações dominam a economia e isso cria uma grande leva de pessoas pobres. O Estado deve apoiá-las, mas não quer ou não tem recursos. Por isso cria a ilusão de que, se você é pobre, a culpa é sua. Porque você não preencheu seu currículo direito ou chegou tarde a uma entrevista. Montam um sistema burocrático que te pune por ser pobre. A humilhação é um elemento-chave na pobreza. Rouba a sua dignidade e a sua autoestima. E o Estado contribui para a humilhação com toda essa burocracia estúpida.

Abandonar os mais desfavorecidos é uma escolha política?

É uma escolha política nascida das demandas do capital. Se os pobres não aceitassem que a pobreza é sua culpa, poderia haver um movimento para desafiar o sistema econômico. Os meios de comunicação falam de gente folgada, de viciados, de pessoas que têm muitos filhos, que compram televisores grandes… Sempre encontram histórias para culpar os pobres ou os migrantes. É uma forma de demonizar a pobreza. Neste inverno, muitas famílias terão de escolher entre comer e se esquentar. Existe uma determinação da direita para não falar dessas coisas e é assustador tolerarmos isso.

E a pobreza daqui, de pertinho de nós, você a vê?

O que faz para reduzi-la? 

Tem algo que possamos fazer?

P.S. Vi na parceria do blog com a Sofá Digital  no #cinemaemcasa via AppleTV , mas está disponível também em outras plataformas, como por exemplo o Youtube, onde é possível alugar o filme por apenas R$ 6,90.

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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