Dica de filme: Birdman

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Viajo nesta manhã, mas, lembrando do quanto já aproveitei feriados como o carnaval, quando cidades como São Paulo esvaziam e fica perfeito para programas culturais, não sosseguei até conseguir indicar aqui dois filmes que vi e valem o tempo na telona.

Apesar dos três filhos, cinema é um prazer que não permiti que a maternidade me tirasse. Mas eu não consegui fazer encaixar na minha rotina os horários do Cinematerna, por isso meu marido e eu temos feito assim: se conseguimos ajeitar a agenda de trabalho, sobrou tempo no final da tarde ou em outro horário no qual a pequena está exausta e vai dormir parte do filme, pegamos o caminho do cinema na hora.

Por isso acabamos vendo o que está passando na hora, sem escolher muito bem planejar demais.

Foi assim que num final de tarde de sexta nos descobrimos numa sessão meio vazia de Birdman.

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Na fila do Cinemark eu olhei o jornal e conferi uma outra resenha do filme de de Alejandro Gonzalez Iñarritu que é um dos favoritos ao Oscar deste ano. Opiniões bem delivergentes sobre o longa não me desanimaram, só me deixaram mais curiosa.

Afinal, tenho meus critérios de avaliação para cinema. Colegas de trabalho se juntam por alguma afinidade, um diretor faz sua curadoria de elenco com algum propósito e certos atores se reúnem só quando concordam com a mensagem final da obra.

Alejandro Gonzalez Iñarritu pode não ser meu diretor favorito (se é que posso dizer que tenho um), mas nunca me decepciona. Tampouco o fez com Birdman, que tem algumas marcas registradas dele: ambiente noir, personagens desnudados na sua “intimidade mais íntima”, que é a interioridade de fato, crueza na representação natural do que é humano e a gente finge não ver no outro e em nós mesmos, além da possibilidade concreta de redenção, a despeito das absurdas adversidades.

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Em Birdman há mais, como a qualidade técnica da fotografia entre o escuro dos bastidores e as cores do palco e da rua, a sequência sem cortes perceptíveis, as referencias de Hitchcock a Antonioni. Para mim teve a descoberta de detalhes cenográficos do que a gente não vê ao vivo na vida real: as coxias dos teatros na Broadway, a vista menos glamurosa do terraço, o camarim que parece um apartamento caindo aos pedaços (risos) e uma rotina de trabalho insano que cansa muito.

Pensei muito em amigos queridos que dedicam a vida ao teatro no Brasil (sim, temos caras que não fazem outra coisa, sabiam?) e em quem vive de TV e cinema, pois ver o embate pessoal e ideológico dos personagens de Michael Keaton e Edward Norton é isso, olhar de frente para a vida de sacrifico, de doação, de supressão e quase extinção do eu que o ator leva quando tem seu trabalho como o centro da sua vida.

E, como alguns críticos enfatizaram, há a atuação de Michael Keaton, o retrato do mundo da fama, dos críticos, do nosso medo da invisibilidade. Há também clichês sobre o heroi em crise americano: o grande ator e mau pai de família, instável e inseguro, que brilha na tela e sofre no camarim.

O ex-herói do cinema é também uma “piada interna” com os atores.

Keaton foi o ator da volta do Batman às telonas no final da década de 1980/90 muito antes do renascimento da Marvel e tudo que se abriu em termos de negócios com a volta dos heróis. Como seu personagem ele também ficou ofuscado pela sombra, talvez nem tanto do Batman que rivalizava com o Coringa de Jack Nicholson, mas também pelo eterno Beattlejuice. Em Birdman há um pouco do Keaton casado com uma Marisa Tomei prestes a dar à luz e dividido entre a família e o furo jornalístico, sempre pronto a escolher o trabalho não por ser CDF, mas por ser egoísta e buscar o prazer de fazer o que ama e o que quer. E quem nunca ou quem sempre né?

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Norton foi o Hulk e escalado para dar o ar sério é deprimente a um herói tão cerebral que se torna irracional. Se Batman nunca perde o controle, Hulk nunca o tem. Felizmente um é da DC e outro da Marvel. E em Birdman, o personagem de Norton, Mike Shiner, traz algo mais: relembra sua própria trajetória como ator que se tornou respeitado no teatro antes de fazer cinema.

E tem mais heróis de blockbusters na trama. A nova mocinha do King Kong está lá, com Hulk e Batman. Naomi Watts, a atriz Lesley que completa o triângulo amoroso da história dento da história (a peça de teatro de Raymond Carver que é o pano de fundo do filme), parece ser escolhida a dedo para compreender o significado da oportunidade que a montagem na Broadway significava para a personagem. Ela viveu, como sua personagem, uma espera até considerável até sair dos filmes australianos e ser reconhecida na América.

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Zach Galifianakis, Andrea Riseborough, Amy Ryan, Emma Stone fazem parte do elenco que completa o filme e traz situações que criam oportunidades tangenciais de reflexão sobre nosso papel profissional (a crítica de teatro é um pouco cada um de nós), nossa posição familiar (a filha, a namorada e a ex de Riggan Thomson) e social (com o amigo e produtor da peça).

Raramente recomendo que um filme seja visto na telona. Confesso que sou daquelas que avisa aos amigos que dá para esperar sair no On Demand ou DVD, mas neste caso acho que vale investir na ida ao cinema para imergir de verdade na história, entender o universo e, de quebra, fazer um tour virtual nas coxias da Broadway!

🙂

Birdman foi foi indicado entre os melhores filmes do ano de 2014 pela AFI e National Board of Review. Recebeu indicações no Golden Globe e muita gente diz que é um dos favoritos do Oscar.

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.