bem estar / destaque / educação

Tenho reservado temas como “choro de bebê” para o Mãe Com Filhos, blog que já tentei incorporar no @avidaquer, mas que me deixa mais à vontade sendo um projeto à parte – no qual, felizmente, atualmente estou num coletivo de mães super legais.

Mas os estudos de Andreia Mortensen, que contaria a “norma cultural de que o choro não deve ser atendido imediatamente”, me chamou atenção porque mostra o impacto deste comportamento na vida adulta. A neurocientista e professora no Departamento de Farmacologia e Fisiologia na Universidade Drexel, na Filadélfia (EUA), Mortensen afirma que um mito que atender ao choro cria filhos dependentes.

carinho nunca é demais

Segundo ela, a ideia de que devemos deixar a criança chorar até parar vem da crença de que o aprendizado vem do sofrimento e não do exemplo e da empatia. Segundo texto de Valéria Mendes, a pesquisadora é uma das idealizadoras do projeto ‘Crescer sem violência’ e defende com segurança o que eu chamo de teoria do afeto.

“Para além dos manuais que pregam “deixa chorar até dormir” como técnica para ensinar um bebê a adormecer sozinho no berço, é a própria família que ressoa conceitos como “não dê colo, seu filho vai ficar mimado” ou “deixa fazer birra, ela está te manipulando”. Se de um lado, a cultura naturaliza a negligência ao choro de um bebê, por outro, esse mesmo choro (ou birra) é motivo de constrangimento para os pais que se vêem diante de uma situação pública tendo que lidar ao mesmo tempo com as lágrimas de sua criança e o julgamento social de que aquela situação demonstraria uma falta de controle dos cuidadores sobre os filhos.”

Veja outros pontos bem interessantes dos estudos de Andreia Mortensen:

dar colo ou deixar chorar

  • Outros tabus parecidos, relacionados ao sono, por exemplo, que ditam que é proibido adormecer as crianças embalando-as ou amamentado-os e é proibido dormir com elas (a famosa cama compartilhada, tão comum e agora em voga).
  • Em relação à amamentação, as regras culturais dizem é proibido amamentar a qualquer momento, em qualquer lugar ou amamentar uma criança crescida. A Organização Mundial de Saúde recomenda nos primeiros 6 meses de vida o aleitamento materno exclusivo que deve ser estendido até 2 anos ou mais.
  • Esses tabus têm algo em comum, pois todos proíbem o contato físico entre mãe e filho. “Isso explica, em grande parte, por que o choro negligenciado é tão aceito e está ligado à crença de que isso incentiva a independência da criança. Porém, é um mito que atender ao choro cria filhos dependentes”.
  • Nenhuma dessas crenças são baseadas na neurobiologia do desenvolvimento infantil, nos estudos atuais da neurociência e trauma infantil.  A cultura do “deixa chorar” persiste nos dias atuais porque “acredita-se que a criança é caprichosa, que abusa e irrita os que lhe cuidam, acredita-se na maldade intrínseca do recém-nascido e da criança. A crença é a de que uma educação fortemente repressiva resulta em aquisição de valores morais, que a criança precisa chorar, e que esse choro não é sinal de sofrimento ou comunicação, é simplesmente algo normal, inócuo, que toda criança faz, por fazer”.
  • Existem pesquisas que mostram que os efeitos negativos dos castigos físicos a uma criança não são cancelados na presença de um ambiente afetuoso. “A pesquisadora norte-americana Elizabeth Gershoff publicou um trabalho que evidencia que, apesar de ser difícil calcular com exatidão quantos eventos adversos na vida da criança seriam necessários para causar danos a longo prazo, sugere a possibilidade de traumas futuros, mesmo que esses bebês sejam acolhidos e nunca mais negligenciados em sua infância”.
  • Uma pesquisa do órgão norte-americano Centers for Disease Control and Prevention analisou os efeitos de uma má criação crônica, quando a criança era exposta a uma série de traumas. “Constaram que quanto mais traumas, mais danos e efeitos cumulativos na vida do adulto são observados. E mais, há evidências, mesmo que indiretas, de que o método ‘choro controlado’ (utilizado para ‘ensinar’ a criança a adormecer sozinha) causa mudanças a longo prazo nos níveis de cortisol, que é um corticóide produzido por nosso corpo em situações de estresse. Assim, a exposição repetida ao estresse, por aumentar a liberação de cortisol, induz uma série de alterações danosas ao organismo, como alergias, processos autoimunes e outros problemas”.
  • Por outro lado, segundo Andreia, pesquisas em epigenética têm provado cada vez mais que um cuidado maternal carinhoso na infância pode resultar em benefícios. “Um importante estudo comparou dois grupos de ratas, aquelas que haviam recebido lambidas frequentes de suas mães quando ainda bebês e aquelas que não haviam recebido qualquer tipo de cuidado materno. Os animais que receberam cuidados maternos sadios transformaram-se em animais adultos mais tranquilos, quando comparados com os que não receberam. Observou-se também mudanças cerebrais correlacionadas com a regulação dos níveis dos hormônios do estresse ao longo de toda sua vida adulta”.
  • “Todos dizem que querem um mundo menos violento, mais pacífico, com mais respeito e menos desigualdades. Porém, há ainda muitos individualismos e falta de empatia, em parte devido à pressão por produtividade e em parte devido às relações humanas baseadas em competitividade e egocentrismo”. É importante lembrar que as crianças são parte da sociedade e se mostrar solidário em uma situação de choro é contribuir para um mundo menos violento.

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No livro ‘Educar sem violência – criando filhos sem palmadas‘, de Andreia Mortensen e da doutora em ciências e doutoranda em saúde coletiva Ligia Moreiras Sena, as autoras afirmam que uma das explicações para as explosões de comportamento é que o cérebro infantil não está completamente desenvolvido e pode, com frequência, entrar em “curto-circuito”. As escritoras explicam que o cérebro pode ser dividido em duas grandes áreas, ‘cérebro reptiliano’ e ‘cérebro mamífero’. O primeiro é a parte mais antiga do cérebro humano e é basicamente igual em todos os vertebrados, a região regula funções básicas de sobrevivência como fome e respiração. O segundo, é mais complexo e foi sendo moldado ao longo da evolução, se relaciona a habilidades de convivência, à construção de relações sociais, à regulação de sentimentos e reações emocionais, capacidade de relacionar problemas, criatividade e imaginação. “O bebê já nasce com a parte reptiliana que se desenvolve quando ainda está no útero da mãe. Já o cérebro mamífero, racional (composto de neocórtex, lobos frontais) vai de desenvolvendo durante o crescimento da criança, atingindo a maturidade na vida adulta”, explicam as pesquisados.

Não existe nenhuma doença mental causada por um excesso de colo de carinho de afagos

“Existem vários tabus modernos relacionados ao choro e que culturalmente ditam que é proibido dar atenção às crianças que choram, pegar-lhes ao colo ou dar-lhes aquilo que querem”. 
Carlos Gonzalez, pediatra espanhol, autor de Besame Mucho, que já citamos aqui no post Se os castigos são todos inúteis, como educar?

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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