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Um palhaço, um padre, um galã, Macunaíma, um vestibulando em crise, um ator que vem pra São Paulo movido por sua paixão à arte, o ex-marido da Dina Sfat: tudo isso é Paulo José. Eu já tinha lido a biografia desse ator e diretor incrível no livro de Tania Carvalho, “Memórias substantivas”, disponível para download no site da imprensa oficial. Mas ouvir a sua história é diferente. Ter, diante de si, o homem que treme e tem medo de esquecer as falas por causa de uma doença torna tudo mais real, mais próximo. De repente, você se dá conta que tudo aquilo não tem a ver apenas com o ator da tevê, porque é também a história do seu avô, da sua vizinha, a sua! É este o encanto do teatro.
A peça se chama “Algumas histórias” e o ator que nos apresenta Paulo José é Bruno Fracchia. Eles nos lembram que, assim como o mal de Parkinson, a vida também é degenerativa, progressiva e irreversível. Então, só nos resta avançar.
Disso, Bruno entende. A ideia surgiu em 2007; calcule: são quase 10 anos!

Divido minha carreira entre antes e depois deste projeto. Nestes anos todos, até a concretização da peça, o tempo passou com o ensinamento da necessidade da paciência, perseverança, resiliência. As apresentações em centros de convivência de idosos, escola para jovens e adultos especiais, a parceria com deficientes visuais, o voluntariado numa associação para parkinsonianos e parkinsonianas me deram uma visão do trabalho do ator e entendimento do papel social do artista”, ele conta.

 

Poeticamente, o enredo costura a infância, os amores, os personagens emblemáticos da carreira e as reflexões do artista sobre o seu ofício. Tania Carvalho, a autora da biografia, no programa da peça diz que tanto Paulo, quanto Bruno, “comem o mingau pelas beiradas”, com igual determinação.
É comum a gente ver grandes produções rapidamente comemorando as 100 primeiras apresentações. Esta obra-homenagem já passou por 4 Estados brasileiros e este ano foi destaque no Festival de Curitiba. Mas Bruno contabilizará a 63ª apresentação hoje, quarta-feira, às 20horas, na sede da cia Pessoal do Faroeste, que fica quase em frente à Sala São Paulo. Quarta que vem tem outra. E você paga quanto puder. É num teatro pequeno e de uma pequena arquibancada que observamos, maravilhados, uma mala se transformar em camarim, com a ajuda de um punhado de luzinhas; testemunhamos o nascer de um sotaque gaúcho (Paulo José é do Rio Grande do Sul, Bruno é de Santos); lembramos que teatro pode ser contado, cantado, projetado em enorme tela, e que nunca se está sozinho – mesmo que se trate de um monólogo.
Paulo José é um dos grandes artistas que este país tem. A trajetória dele funda e se confunde com a própria trajetória do teatro, da tevê e do cinema brasileiros. Lembrei de um filme do Truffaut, “Fahrenheit 451” (é marcante, já viram?), no qual se cria uma comunidade de homens-livro: num regime totalitário, cada refugiado memoriza um livro proibido, decorando palavra por palavra um conteúdo que não deve ser esquecido. Uma memória que é preservada e repassada a um aprendiz, até o dia em que o livro possa ser publicado novamente.

Na peça, o Jovem Aprendiz vê o mundo com os olhos de seu “mestre imaginário”. Na vida real, ainda temos o mestre, temos o livro, temos os filmes, temos a peça e temos a liberdade de desfrutar de cada um deles. Não deixe passar!

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“Algumas histórias” – uma obra-homenagem a Paulo José
Com Bruno Facchia
Quando? Quartas-feiras; dias 5, 12, 19 e 26 de outubro às 20 horas.
Onde? Sede do Pessoal do faroeste; rua do Triunfo, 301 metrô Luz (estacionamento próximo)
Quanto? Pague quanto puder (eles te entregam um envelope no início da sessão, junto com o programa).

 

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Extras:

Shazan, Xerife & cia. (série de tevê)

O palhaço (cinema)

 

 

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Lívia Lisbôa

Jornalista, atriz, dona de uma casa que tem uma estante cheia de livros, porque gosta da companhia deles. Canta no chuveiro, só faz bolos quando está feliz e mora na Praça da Árvore de uma cidade que é conhecida por ser a Selva de Pedra.

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