Vestindo árvores para cuidar de pessoas no frio curitibano (por Daniela Nogueira)

larissa tanaka DOADORA EM SÃO PAULO

Já imaginou pendurar roupas em árvores para que as pessoas que precisem peguem e levem para casa? Veja o vídeo abaixo e me diga se não é uma iniciativa do bem!

Esta história linda tinha me emocionado profundamente. Morei em Curitiba desde os 13 anos até mudar para Sampa, em 2005, e neste período não só vi o frio de perto, sofrendo na pele com o inverno rigoroso de lá, como acompanhei a atuação de movimentos sociais (eu mesma fui às ruas no inverno atender meninos e meninas de rua) e da FAS (Fundação de Ação Social) que atende aos moradores de rua nos dias mais frios, recolhendo-os para passarem a noite em abrigos.

Fiquei feliz quando recebi uma mensagem e soube que Daniela Nogueira, a idealizadora do sonho do Curitiba77, é leitora do blog e queria me contar do movimento, acrescentando um delicado recado: “queria dividir com vc, que também nos inspira!”. Corrente do bem, pois na hora eu respondi convidando-a a escrever um guest post para eu postar aqui e pensando que eu também quero dividir esta iniciativa com os leitores que me inspiram a escrever diariamente.

àrvore solidária do libélula brechó

Quem quiser conhecer a iniciativa, descrita em palavras e imagens da criadora do movimento, leia (e compartilhe!) o texto a seguir.

“Sou professora do Curso de Design de Moda em Curitiba e Pós Graduação em Gestão Estratégica de Moda, onde leciono as disciplinas de História da Moda, Moda Contemporânea, Projeto de Moda. Parece que o que fazemos está tão distante da realidade das pessoas neste momento – moda e consumo. Pessoas consomem menos, pessoas estão mais em busca do sol, da extensão das suas vidas em atividades de bem estar, melhorias sociais e causas justas – e isso parece não passar por nossa profissão.
Trabalho com moda, ensino e não posso fazer disso algo que não tenha significado na escolha da profissão dos meus alunos. Moda não é somente produzir. Se usar é o que torna a Moda, uma Moda, este “usar” cabe a todos, em diferentes preços, formas de ter, acesso e estilo e tipo de produto. Vejo hoje o caminho do COMpartilhar, COMungar. São reflexões que tento inserir na minha vida, atividade e estímulo aos alunos. Esses conceitos devem se aplicar as roupas, objetos, etc.
Nas redes sociais você rapidamente comunica o que pensa e é através dela que vejo a possibilidade de fomentar idéias e indagações criativas. Moro no Sul, e com o espetáculo esperado da neve nesta semana, alguém pagaria um preço caro. Moro no centro da Cidade de Curitiba, e por aqui o dia é uma extensão da noite, há pessoas que não querem ser conduzidas a abrigos e ficam a mercê do frio.

Postei na noite anterior à neve que cairia em Curitiba, a seguinte provocação:

arvore do bem diminui frio em curitiba

Da Moda ao Compartilhar foi um clique. Vamos cobrar um preço de entrada por este espetáculo? O Rafael Gomes Savae, representante da geração Y (sem mais explicações!) e dono do Libélula Brechó em Curitiba, rapidamente colocou o Libélula nesta história, dobrando as doações que fossem feitas nas árvores, através de sacolinhas. Em um segundo momento, o Rafael lançou a sua árvore solidária, onde idealizou o mecanismo do cabide nas árvores. Essa imagem gerou milhares de curtidas, compartilhamentos, entrevistas e mídia. Foi uma soma de fatores que eu chamo hoje de idéia compartilhada. Quando você compartilha sua idéia e abre possibilidade para que o outro a transforme, o mundo ganha, ainda mais quando a idéia vem junto com o fazer.
As ações se juntaram, e o que importa é passar o frio de alguém, neste momento causar o inesperado, ser presenteado e em tantas árvores que Curitiba tem, começar a fazer a diferença na sua própria quadra… a soma final mapeia a cidade inteira.
A tudo isso se soma a rapidez do Rafael, enquanto o vírus pra mim ainda é o da gripe, o dele é o viral do computador, rs. Fantástico, assim mais pessoas vivem essa onda. Fazer o bem é bom.

Bondinho da Leitura em Curitiba. Foto:Cesar Brustolin/SMCS
Bondinho da Leitura em Curitiba. Foto:Cesar Brustolin/SMCS

A página do Curitiba 77 graus de Amor surgiu para receber as fotos, pedir e mobilizar. Foi criada há 6 dias, e meu desejo é transformá-la em um fomentador de idéias e mobilizador de pessoas, no que eu chamo de solidariedade criativa. O nome refere-se ao tradicional Bondinho da Leitura, 77 é seu número e ele é o ponto turístico na Rua XV, nosso calçadão. Atende hoje as crianças que podem entrar e ler livros durante o passeio dos pais.
Com nascimento tão precoce quero muito levar o Curitiba 77 para frente, pensei regional, mas com o start da idéia, muito bem trabalhada pelo empresário Rafael do Libélula Brechó e também meu aluno, vimos que em uma semana a roupa na árvore esteve até em Goiânia, em uma ação linda como na foto anexa. Isso mostra que o professor pode agir criativamente nessa nova concepção de mundo em conexão instantânea. E o aluno tem muito o que ensinar ao professor e a comunidade. De forma viral, o que venceu foi a solidariedade. Fiz muitas anotações, enquanto professora, de todo esse processo, da ligação das pessoas com as roupas, do efeito doação estendida que eu chamo, quando você fica observando quem pegará a peça na árvore, e se emociona ao ver que 1 morador de rua levou somente a que serviu, enquanto outra moradora, pegou o cachecol rosa, que a fará mais bonita, e ela sorri em troca dessa auto estima proporcionada pela Moda. Quem doou se comprometeu a doar aquilo que fosse fazer feliz ao outro. Estamos acostumados a doar o puído, roto, amarrotado, passado da moda. Há inúmeras reflexões sobre esse processo todo. Acho uma porta interessante também de se abrir na nossa indústria da moda, onde fast fashion e slow se propagam. Um guarda roupa lotado deve ser esvaziado, olha que ótica para as escolas de moda adotarem com seus futuros profissionais da área?
E essa foi a primeira história do Curitiba 77. Tenho 36 anos, uma casa retro cercada de memória e trabalho no mundo da moda, experimentei entrar em uma corrente que não vejo mais como sair. Soprar o bem e fazer a diferença em pelo menos um pedaço do país é uma sensação de dominó em pé, qdo vc consegue derrubar o último em grande estilo!
Assim como o Curitiba77 ainda está se estruturando, que todos encontrem seu bonde para conduzir ou ser passageiro, mas que crie um comportamento, uma rotina de ajuda e mobilização das menores as maiores causas. O Rafael fez isso muito bem.
Já me perguntaram sobre o verão, e com certeza unindo o pessoal da Moda, do Design e áreas afins as campanhas com diversos objetivos – que não faltarão!- de sazonal passarão a ser no ritmo fast fashion!
Mobilize, compartilhe e faça parceiros. Foi isso que o Libélula fez, e olhe todas as ações que vem surgindo, se a Moda estava no cabide dentro do guarda roupa, encontrar um suporte em uma árvore, agora a faz mais democrática. Estou louca para conectar novas idéias… não são só gnomos que colocam coisas em árvores!”

SANYO DIGITAL CAMERA

Acompanhe também a fanpage Curitiba 77 graus de Amor e do Libélula Brechó em Curitiba. Compartilhe a ideia deste texto com os amigos, os vizinhos e sua comunidade toda esta corrente do bem que pode ser facilmente replicada onde houver necessidade de solidariedade e calor humano.

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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