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Vivemos em um mundo conectado? Temos acesso a informações em tempo real? Podemos, realmente, nos expressar livremente? Produzir, compartilhar, colaborar e cooperar utilizando-se da Internet? Essa é uma realidade para todos?

Estas perguntas, presentes num dos capítulos da tese de mestrado de Eziquiel Menta, são um convite para pensarmos muito além da moda da internet, de startups, de compartilhamento de notícias e do oversharing atual. Ao pensar “quem, o que, por que e onde” acontece o crescimento da cibercultura no Brasil, percebemos que desde a tese de 2011 mudamos, mas não tanto. E nos faz pensar nos caminhos que queremos tomar.

Para reflexionar sobre isso, nesta manhã de sábado estivemos reunidos no Curitiba Social Media com Eziquiel Menta (@ementa), Sandro Rodrigues (@sandrorodrigues), Thiago Loch (@LochCCP) e André Telles (@andretelles). Entrevistei-os antes do papo e compartilho a seguir a nuvem de ideias que surgiu desta experiência.

Num país como o nosso, raramente um jovem sonha em ser professor ou trabalhar com educação. Como você acabou ligado à área?

 Thiago Loch: Sempre sonhei em fazer algo ligado a comunicação, puxando para a educação. Meus primeiros vestibulares foram para Pedagogia na UDESC e Jornalismo na UFSC. Como morei minha vida inteira em comunidade carente, quis sempre ligar minha vontade de aprender e ensinar, com a possível resolução dos problemas que rodeavam minha casa. Foi assim aqui logo aos 14 anos já ensinava informática básica para idosos no centro comunitário do meu bairro. Desde então busco doar conhecimento para quem estiver disposto a aprender.

Sandro Rodrigues: Trabalhei muitos anos em multinacional, na área de produto e comunicação. Era inevitável nos eventos de lançamentos, não ser convocado para preparar material para apresentar em público aos clientes B2B, ao Trade Mkt da empresa e etc.  🙂

Nesta semana eu contei num post sobre minha experiência de tempo de tela para o estudo dos meus filhos adolescentes. Em tempos nos quais crianças e adolescentes são impactados pela dinâmica cada vez maior das interações em redes sociais e aplicativos como Whatsapp, como você entende que os métodos tradicionais de sala de aula devem ser adaptados para que escolas acompanhem os novos tempos?

Thiago Loch: A modernidade é um caminho sem volta, e quem dar as costas a isso, cairá. Claro que o contato, e as relações interpessoais, devem sempre ser estimuladas e trabalhadas. Ainda é recente esse processo, e os estudos que tratam desse assunto ainda precisam de dados mais concretos. Com isso, o cuidado com a simples exposição às novas tecnologias deve ser redobrado, para não atropelar o processo pedagógico já existente e com resultados mais palpáveis em relação ao ensino.

Sandro Rodrigues: O Educador tem que ter essa consciência, pronta, intrínseca, é um processo de reciclagem e aperfeiçoamento da escola, da metodologia de ensino, e do corpo docente.

Eziquiel Menta: Quando você menciona os métodos tradicionais da escola precisamos dar ênfase nessa afirmação, pois são tradicionais mesmo! Estamos falando de metodologias de ensino que ainda são focadas centralmente no professor. Muitas aulas que acontecem ainda nos dias atuais acabam sendo meramente expositivas e não consideram construir conhecimento em conjunto, ainda baseadas na velha crença que o professor “transmite” conhecimento. As tecnologias nos evidenciam o grande potencial das metodologias de produção em grupos de interesse, facilitam a produção e o compartilhamento e provam que os alunos aprendem e produzem muito quando se percebem como sujeitos do processo. Penso que ao observar esse movimento temos muito a aprender e adaptar em nossos métodos educacionais.

Que iniciativas inovadoras no uso das TICs você destacaria?

Thiago Loch: A Khan Academy eu admiro muito. O método Khan provou que o e-learning pode ser algo simples, com linguagem acessível e sem complicações tecnológicas que sempre assustaram os alunos. Estudar pela internet se tornou então mais prazeroso e eficaz. Canais de professores no Youtube, que trazem a matéria de um jeito inovador e mais próximo do dia a dia, também destacaria. Aquela velha frase “Professor, onde vou usar isso?”, ficou mais fácil de ser respondida.

Sandro Rodrigues: Todo e qualquer gadget que seja desenvolvido com o objetivo de fomentar o e-learning, que incentive o aluno a ter o hábito da leitura como atividade prazerosa em tempos de comunicação com tags tão sucintas.

Eziquiel Menta: Essa é a parte instigante, tenho acompanhado, ao longo dos anos, algumas iniciativas muito interessantes de uso de tecnologias na educação. dentre elas destaco algumas que a Secretaria vem realizando com foco em inserir os professores neste mundo tão comum para muitos dos nossos alunos. Estamos fomentando cursos a distância em que os professores compartilham conhecimento e debatem seus projetos a serem implementados em escolas. Este mês, por exemplo, concluímos um curso que envolveu mais de 40.000 professores em 2000 temáticas. Estes professores discutiram os projetos de intervenção pedagógica que serão aplicados em escolas públicas do nosso estado. Outra ação interessante tem sido um curso que lançamos recentemente para o uso de dispositivos móveis na educação (www.diaadiaeducacao.org/mobilidade), neste curso os professores estão conhecendo algumas possibilidades de uso destes dispositivos tanto para sua vida pessoal como profissional. Lançamos uma rede social própria, o Conecta (www.diaadiaeducacao.org) e durante o curso trabalhamos com conceitos de mobilidade, nuvem, apps, etc. Acredito que seja importante, para além de falarmos das possibilidades do uso das tic na educação, proporcionar vivência de tais tecnologias para que os professores possam eles mesmos identificar as potencialidades pedagógicas.

O que credencia gente como nós, heavy users ou early adopters das novas tecnologias, a falar sobre seu uso para quem é nativo digital? Os jovens ainda têm o que aprender com a gente?

 Thiago Loch: Nossa geração foi uma transição, conseguimos aprender com a mudança de paradigma e hoje temos o desafio de não ficar para trás com tudo que vem surgindo. Podemos ajudar com nossa experiência de vida, de quem ia brincar na rua, sem ao menos existir celular. Cabe a nós humanizar os processos e evitar que essa geração se perca no individualismo que a modernidade tende a gerar. Os erros e acertos vão continuar os mesmos, e é nesse ponto que vamos poder dar nossa maior contribuição. No giz ou no tablete, a raiz quadrada é a mesma. E foi ali, nesse “empurrãozinho”, que fiquei fascinado por passar e trocar conhecimento em público.

Sandro Rodrigues: Tem, e muito. Entretanto devemos nos conscientizar que a troca no aprendizado entre professor e aluno, é constante e inevitável. Antigamente era perfeitamente possível um professor se negar a aprender com o aluno (algo já errado naquela época na minha opinião) e hoje é inevitável. Nossa geração é menos imediatista, e essa característica bem explorada no sentido de extrair o que há de melhor e mais eficaz em uma plataforma, é uma das principais garantias ao nosso favor.

Eziquiel Menta: Penso que como educadores temos sim muito o que ensinar (e muito mais a aprender) com os estudantes. Sabemos que para a maioria deles a utilização das tecnologias é cotidiana, porém como a utilizam? Para que? Estariam eles preparados  para simplesmente não serem manipulados e escravizados por tais tecnologias?

Conte como você explicaria, numa sala de aula, o tema do nisso debate: “a recriação da educação na sala de aula quase infinita da internet”. O que isso significa em 2014?

Thiago Loch: Como manter o foco com tanta informação, com tantos links e possibilidades? Como manter o processo de ensino linear, quando temos tantos sites, blogs e aplicativos a nossa disposição no mesmo local? É por isso que devemos recriar a “sala de aula”, entre aspas mesmo, já que o espaço físico em si pode sumir com o tempo. Organizar a hierarquia de informações, mantendo possível o sistema de ensino é justamente nosso maior desafio. Mostrar para os nativos digitais que mesmo tendo um mundo a sua disposição, saber os atalhos é o que fará toda a diferença. Talvez seja essa a maior tarefa dos educadores modernos.

Sandro Rodrigues: Eu vim (e sou) de mercado. Eu gosto muito de olhar para o aluno, e esperar dele um retorno em KPI’s estabelecidos no início da nossa relação. Isto é, procurar deixar claro a hierarquia de direcionamentos, mas com extrema abertura para que o desenvolvimento em sala de aula, possa ser mensurado por ambos durante o processo. E acredito que recriar e educação nesse contexto do título, é tornar a relação professor e aluno, cutomizada, caso a caso, tal qual o mercado faz com seus portfólios de produtos, que por vezes, vendem os mesmos benefícios, de formas e entregas diferentes.

Eziquiel Menta: Significa identificar o potencial educativo que a inserção da internet em sala de aula pode possuir , porém no Brasil temos grandes desafios a enfrentar, o primeiro deles é garantir acesso a Internet nas escolas com infra-estrutura e conexão adequada. No Paraná temos uma rede de fibra óptica disponível em mais de 2/3 das nossas escolas, mas essa não é a realidade brasileira. Mesmo assim ainda não chegamos com a conexão em sala de aula.

 E você, quais seriam suas respostas? Conte aí, nos comentários, ou compartilhando na sua rede de contatos. 

P.S. Eziquiel Menta chefia a Diretoria de Políticas e Programas Educacionais do Paraná, instituição que assegura a integração entre as ações dos departamentos, coordenações e demais segmentos de atuação da Secretaria de Estado da Educação, articulando suas políticas e programas educacionais a fim de garantir uma educação básica pública com qualidade. As políticas da Diretoria incluem prevenção ao uso indevido de drogas, cidadania e direitos humanos, educação ambiental, enfrentamento à violência nas escolas, educação fiscal e financeira, vizinhança escolar segura, erradicação do trabalho infantil, defesa civil, PET, Bolsa Família, e educação nas Unidades de Socioeducação.

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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