Crianças trabalhando para nosso entretenimento

Ser mãe mudou muito o ponto de vista, o ângulo sob o qual eu vejo as coisas, alterando de modo indelével minha opinião. Em 2001 quando via a novela Um anjo caiu do céu, achava que a pequena Stephany Brito no papel de Dorinha era apenas nora que eu queria para o Enzo bebê,  sem jamais pensar no fato que para compor o elenco a menina já trabalhava duro.

Imagem da saída de Stephany e Pato da igreja. É reprodução do site EGO e notem que, como acontece cada dia com mais frequencia, o jornalista digitou tão rápido que trocou as letras...
Imagem da saída de Stephany e Pato da igreja. É reprodução do site EGO e notem que, como acontece cada dia com mais frequencia, o jornalista digitou tão rápido que trocou as letras...

Lembrei disso com a notícia do casamento dela e de Alexandre Pato. Ambos são tão jovens e estão se preparando ou trabalhando há tanto tempo, praticamente tanto quanto eu! A biografia da Stephany conta que aos sete anos ela já estudava teatro, fazia comerciais de brinquedos e produtos infantis e aos 12 fazia parte do elenco de Chiquititas – novela que, pelo que lembro, foi gravada na Argentina, portanto as crianças ficaram longe de casa para este job. Foi no ano que ela começou (1995) que eu, já com 22 anos, comecei meu primeiro estágio em jornalismo – o que quer dizer que começamos a trabalhar juntas, mesmo tendo 14 anos de diferença de idade! Pato também não se tornou o artilheiro do Campeonato Brasileiro sub-20 aos 16 anos sem ter trabalhado e treinado incansavelmente durante sua infância.

Neste dia em que o mundo parou para homenagear Michael Jackson, sobre quem já falei aqui da minha dor no coração ao perceber que foi descoberto quando era mais jovem do que meu filho Enzo é hoje – e o menino prodígio, como são todos eles, jamais parou de trabalhar depois daquilo -, reitero minha reflexão sobre a necessidade que temos de criar novos ícones infantis como foram Shirley Temple, Jodie Foster, Lindsay Lohan, e Macaylay Culkin. Será mesmo necessário ter uma Maisa para “alegrar” o horário infantil do SBT? A indústria da moda precisava mesmo da Ana Paula Arósio fotografando no Japão, EUA e Europa aos doze anos? A Angélica tinha que ser a sucessora da Xuxa mesmo sendo criança? Consideramos o trabalho infantil errado quando vemos as imagens das crianças carvoeiras ou dos cortadores de cana, mas não nos incomodados com o excesso de cenas das crianças da novela das sete e das oito!

Na novela Caras e Bocas ontem Walcyr Carrasco colocou a questão da exposição infantil e do abandono que os possíveis talentos sofrem por parte dos pais – os da menina Ada, numa alusão ao filme Little Miss Sunshine, sequer tinham visto o tipo de dança que a menina aprendia com a ex-vedete e que culminou na cena que posto abaixo. Vale a pena ver e refletir, bem como debater o tema e repensar a necessidade que nossa sociedade tem de enaltecer estas “princesinhas”.

P.S. Que fique claro aqui que não estou emitindo julgamento sobre os pais que agenciam os filhos, apenas reflexiono em voz alta sobre a necessidade que nós, como platéia, temos de aplaudir talentos cada vez mais jovens para nosso entretenimento.

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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