Cremação

946007_cherry_blossoms__arlington_cemetery.jpgO tema é estranho, mas passei as últimas horas falando dele com Giorgio. Hoje pela primeira vez em sua vidinha de 5 anos e 4 meses ele foi ao velório de uma pessoa da família, um tio-avô do Gui. Estes eventos no geral são oportunidade para nos encontrarmos com pessoas da família ou amigos há muito deixados para trás na correria do cotidiano e hoje não foi diferente: primos de segundo grau, suas famílias, os tios mais velhos. Sensação boa de estar com gente querida num momento importante.

Na minha infância os velórios eram situações cheias de sussuros, com velas, coroas de flores (que eu achava fedidas) e pessoas em romaria beijando as mãos do morto. Nunca gostei disto. Prefiro celebrar a vida de quem vai. No enterro de minha Batian (avó) minha prima Leninha, que na época tinha 12 ou 13 anos, teve um gesto que ficou marcado em minha memória. Ela pediu para ler uma poesia antes de descerem o túmulo. Parece-me que a Batian ia com mais leveza para o espaço que comprara no cemitério onde estava enterrado o Ditian, um túmulo de granito negro com kanjis japoneses do nosso sobrenome e que repousava à sombra de uma bela árvore.

Na minha família japonesa a morte é encarada com mais naturalidade e depois destes eventos sempre há uma confraternização. Este costume choca algumas pessoas, mas a chance de conversarmos mais longamente com pessoas queridas, se inteirar de sua vida atual e relembrar momentos com aquele de quem nos despedimos é rica e reconstrói relacionamentos.

Mas hoje não era a família japonesa, era o lado da ascendência espanhola do Gui. Em certo momento a situação me lembrou o personagem do Orlando Bloom (Drew Baylor) no filme Elizabethtown. O vazio de decidir o que fazer com as cinzas do pai, os reencontros com familiares que não reconhecemos, a estranheza dentro daquilo que, infelizmente, deveria ser familiar e emocionante são sentimentos que percebo nestas situações. Estivemos no Crematório da Vila Alpina e confesso que foi meio assustador ver o caixão subir por um elevador, vindo de um espaço no centro do ambiente na sala circular onde acontecia a cerimônia ecumênica*. O nome da cerimônia não condizia a situação, porque nada tinha de religioso.

Nós, os familiares, nos sentamos lá e ficamos em silêncio, ouvindo Quatro Estações do Vivaldi (que Giorgio adorou) e, como dizia num cartaz pregado à porta de entra, “O silêncio é foi uma forma de prece“. Gui (lembrando-me muito a postura de seu pai) pensou em se levantar e falar algo, mas não o fez, nem ele se sentiu à vontade. Fizemos em silêncio nossas orações e fiquei espantada com a sensibilidade que o Giorgio demonstrou, preocupando-se sinceramente com o “último tchau” e com os primos que choravam a perda do avô. Nestes momentos aprendemos a ser gente e só é possível fazê-lo na vivência pessoal. Vi que meu filhinho já aprendeu.

* No Dicionário Aurélio ecumenismo é um movimento que visa à unificação das igrejas cristãs (católica, ortodoxa e protestante). A definição eclesiástica, mais abrangente, diz que é a aproximação, a cooperação, a busca fraterna da superação das divisões entre as diferentes igrejas cristãs.

Você pode gostar também de ler:
The following two tabs change content below.
Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.