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Estreia, hoje, também, no Dia mundial da Água, “A Odisseia” – um daqueles filmes que vale a pena ver na telona!

Em grandes proporções, as imagens das expedições de Jacques Cousteau (vivido por Lambert Wilson) nos ajudam a sondar o insondável: os mistérios da vida e da morte, a imensidão do espaço (aquele sobre nossas cabeças tanto quanto aquele sob as águas oceânicas), as exigências do ego e as doações do amor, as escolhas que enxergamos (ou não) ter.

O filme de Jérôme Salle, de saída, tem tudo para te encantar com o azul profundo, as focas, os pinguins, as baleias e a pequenez do homem frente à natureza – que, no Brasil, nos acostumamos a ver pela Rede Globo, na Rede Manchete e na TV Educativa.

Rodado durante cinco meses e com o orçamento de mais de 20 milhões de Euros, o longa traz belas imagens, desde o ambiente gelado da Antártida até a interação com tubarões das Bahamas. “Foi um pouco arriscado. Nunca ninguém tinha rodado em alguns dos locais onde rodamos. Filmar na Antártida é como filmar na lua”, disse o diretor, em entrevista à France TV.

 

Mas a narrativa mostra aquele lado do homem atrás das câmeras, através dos anos (é a história de Cousteau dos 37 aos 70 anos – ele morreu com 87): o Cousteau pai, o Cousteau marido, o Cousteau empresário. Ou seja, a que custo o protagonista construiu sua história.

E, aí, a atriz Audrey Tautou, tem importância fundamental, como a primeira esposa do Capitão: Simone Melchior.

 

Simone também acredita no sonho do navio Calypso. Não apenas com palavras de encorajamento, não apenas cuidando da família, nos bastidores, mas “colocando a mão na massa”: ela vende as joias para que o navio possa sair do campo das ideias; divide a decisão da educação dos dois filhos (que terão que ir para um colégio interno); administra a presença dos funcionários no seu barco/casa como uma gerente – enquanto Cousteau inventa um escafandro, séries para a tevê, um novo navio, casas submarinas, novas expedições. Parece o acordo ideal, uma parceria fundada no amor, e destinada a prosperar no negócio que lhes desperta verdadeira paixão.

Até que novos amores de Cousteau se somam ao envelhecimento, à distância e conflitos com os filhos, às dificuldades financeiras e aos revezes da vida, por vezes, súbitos. Não dá mesmo para se ter tudo, ao mesmo tempo, a vida toda! Numa lente de aumento, alguma coisa sempre está sendo negligenciada, deixada pra depois. Resta saber o que, e por quanto tempo! Resta tentar o equilíbrio possível. E, em “Odisseia”, o que era música e frescor adquire um tom amargo, cansado, infeliz. Simone passa para segundo plano. Audrey Tautou tem a ajuda da caracterização, é verdade, mas é impressionante como ela consegue nos convencer como a Simone recém-casada e a Simone de meia-idade, numa interpretação sutil! A atriz não é mais a menina de “O Fabuloso destino de Amelie Poulain”, mas continua encantando, com uma construção muito crível.

A narrativa não mitifica completamente o protagonista, justamente por expôr as falhas do homem, mas dá um jeito de fazer com que nos reconciliemos com o Capitão. Afinal, o filme termina quando a Fundação Cousteau de proteção ao meio ambiente está sendo criada, nos anos 70. Se as primeiras aventuras no mar não levavam em consideração o equilíbrio do planeta, os filhos de Cousteau mudam a rota do trabalho do pai, e enobrecem a herança que ele deixa, para além dos equipamentos que o Cousteau-cientista inventou.

 

Na vida real, sabemos que, em 1990, Jacques Cousteau lança uma petição mundial para salvar a Antártida da exploração mineral. Por pelo menos 50 anos, essa região do planeta está protegida, sendo considerada Patrimônio de toda a Humanidade.

“(…) eu sei que ele também ficaria preocupado com os constantes saques dos oceanos pela indústria da pesca, por aqueles que dizimam o fundo do mar e pescam indiscriminadamente, com as catástrofes geradas na exploração de reservas de petróleo no mar e com a acidificação da água do mar causada pelos gases causadores do efeito estufa, que ameaçam a saúde de toda a vida na Terra”, afirmou Pierre-Yves, filho de Cousteau, à BBC, em 2010 (na ocasião das comemorações pelo centenário de nascimento do pai).

 

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Lívia Lisbôa

Jornalista, atriz, dona de uma casa que tem uma estante cheia de livros, porque gosta da companhia deles. Canta no chuveiro, só faz bolos quando está feliz e mora na Praça da Árvore de uma cidade que é conhecida por ser a Selva de Pedra.

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