empreendedorismo / girl up!

Courage is contagious

Eu sou mulher, tenho 26 anos, nasci e fui criada na periferia de São Paulo, me formei em jornalismo na faculdade Anhembi Morumbi, com uma bolsa integral conquistada no Prouni, e aprendi que, às vezes, mais importante do que saber as respostas é conseguir formular as perguntas. Com essa bagagem, entrei no MBA de Gestão Estratégica de Serviços da Fundação Getúlio Vargas, a famosa FGV, ansiosa para aprender a gerir melhor equipes, me reconciliar com os números e entender como funciona a cabeça dos engenheiros, economistas e administradores, que formavam a maioria da sala. Logo de cara, na minha entrevista de “admissão no curso”, um dos diretores da FGV me adiantou que, por eu ter formação em comunicação e em uma faculdade que não era “de primeira linha”, teria dificuldade para acompanhar a turma e, por isso, seria necessário que eu me esforçasse mais para obter o mesmo desempenho. Ouvi cada letra que ele disse calada, porém, lembrando que eu era a pessoa mais esforçada do mundo, de acordo com a mulher que, de fato, é a mais esforçada que eu conheço: minha mãe. Não era um senhor, com seus títulos, que me intimidaria com aquela colocação.

O tal “esforço a mais” em nenhum momento se fez necessário no que diz respeito a estudo. Não porque eu sou um gênio, mas porque as aulas e o conteúdo se mostraram medianos, para não usar a palavra medíocre. O fato de eu ser “diferente”, porém, pesou muito. Ser mulher, jovem e de periferia ofende. Se eu fosse negra, seria quase um insulto a alguns professores. Aqui, vale um parênteses: nunca estudei com um negro na FGV, “mas não há racismo no Brasil”. Eu não moro mais na Brasilândia, porém, eu sei de onde eu vim e o quanto isso me forma. Na sala de aula, cuja maioria dos alunos e professores é formada por homens, piadas sexistas foram utilizadas como “exemplos” para “descontrair”. Na sala de aula, cuja maioria dos alunos e professores é de classe média e alta, atendentes de telemarketing e outros profissionais com salários mínimos foram ridicularizados. “Mas era tudo em tom de brincadeira, sabe? Poxa, não seja assim tão mal humorada”.

Eu não sou mal humorada. Fiz até piada reversa com um professor uma vez, que ficou todo sem graça com a minha colocação feminista, ridicularizando a “pseudo-esperteza” dos homens. Não sem receber olhares tortos, é claro. Mas na última matéria, especificamente de Empreendedorismo, um professor é que não aguentou a pressão e pediu para sair. Ao que parece, literalmente. E eu juro que não fui grosseira, apenas certeira nas perguntas, que o desestabilizaram, assim como todos aqueles comentários sexistas, preconceituosos e elitistas tentaram fazer comigo. Ao ver o seu duvidoso modelo de “10 passos para se tornar um empreendedor”, percebi que ao menos dois passos tinham a ver com educação formal, o que excluía completamente as pessoas que não têm acesso à faculdade e, muito menos, a cursos de especialização. Perguntei ao professor se isso não era simplista e excludente demais. Ele riu. Em uma outra oportunidade, apresentei exemplos de excelentes empreendedores que não tinham ensino superior e que fizeram negócios de grande impacto pelo mundo. Ele relativizou. Por fim, perguntei se o MBA e o empreendedorismo existiam para ensinar fórmulas ou para dar base, para que as pessoas formulassem os seus próprios caminhos e negócios. Ele não respondeu e a aula acabou.

No dia seguinte, eu faltei, por falta de ânimo, confesso, e na outra semana fui surpreendida com o cancelamento da matéria. Achei que o professor tinha morrido ou algo do tipo. Na minha memória, ele ficou gravado como um velho, bem mais velho por conta de suas velhas ideias.

Três meses depois, ao voltar para fazer uma matéria com a mesma turma que estudei Empreendedorismo, a surpresa: todo mundo lembrava mim. Não, eu não me considero uma mulher marcante a ponto de ter uma aula com as pessoas e elas gravarem o meu rosto. O tal professor é que fez o favor de reclamar sobre as minhas perguntas, que considerou “agressivas”, para o coordenador do curso que, surpreso, recebeu no outro dia um e-mail da representante de sala reclamando sobre a postura do professor. O coordenador  respondeu dizendo que o professor já havia adiantado essa questão e, de forma desconfiada, deixou claro que ela não poderia falar por todos os alunos. Ela copiou as pessoas da sua turma (da qual eu não faço parte) e simplesmente respondeu que eu não havia sido grosseira, mas assertiva em minhas perguntas e que todos compartilhavam da insatisfação.

O professor cancelou a matéria, num feito que parece ser inédito. Eu achei super engraçada a história quando fiquei sabendo – 3 meses após o fato -, mas, sinceramente, achei excessiva a saída dele. Descobri depois, através de um aluno, que o professor havia ligado para alguns homens da sala para saber se eles concordavam com a reclamação feita pela representante, que, “obviamente”, tinha sido incentivada pelas minhas “perguntas sabotadoras” no dia anterior e, foi além, afirmou que eu não deveria estar naquela turma e assistindo a sua aula, sem especificar o porquê. Vai ver que é porque eu sou mulher, jovem e de origem pobre. Em uma coisa ele estava certo, o meu ato de questionar sua excludente teoria dos 10 passos abriu espaço para que outras mulheres, no dia seguinte, se indignassem com uma piada machista feita em sala (isso eu só fiquei sabendo depois também) e decidissem reclamar junto ao coordenador.

Mas não foram as reclamações, a representante, a sala ou a piada machista que figuraram como fator decisivo para a saída do professor, mas sim as minhas perguntas, que atormentaram aquela cabeça coberta por cabelos brancos e, de forma diferente, ficaram gravadas nos alunos, principalmente nas alunas, que tiveram aquela única aula de Empreendedorismo comigo e tão bem me defenderam da acusação do coordenador. As perguntas não eram geniais, apenas corajosas e inquietantes. Ao lançá-las, eu poderia ser considerada chata, mas em meio a tanta fórmula pré-fabricada, elas acabaram despertando reflexão… Um perigo, como vocês bem sabem.

Por uma “coincidência”, ontem o coordenador do curso decidiu aparecer na sala para esclarecer essa história. Começou tentando vender que faltou empatia entre o professor e a turma, ao ver que ninguém comprou isso, mudou o discurso e disse que, pelo relato de algumas pessoas, o professor falou pouco do conteúdo da matéria, o que é estranho visto que ele tem os títulos A, B, C… antes que o coordenador continuasse, perguntei se as ligações para os alunos, veja só, todos homens, para falar mal de uma aluna – eu -, era uma atitude normal na FGV. Ele ficou sério na hora, disse que não, porém, que o grande erro nessa história foi o professor não ter cumprido com sua obrigação de ensinar a matéria. Assim, sem desculpas, sem nenhum tipo de repreensão para o professor que, o coordenador fez questão de contar, “havia sido homenageado pelos alunos cariocas na formatura”. Não me espanta que a área de serviços no Rio tenha uma fama tão ruim, pensei.

Farei uma reclamação junto ao diretor que me entrevistou, antes de eu ser aceita na FGV, e que me vendeu um curso e instituição que quase não encontrei nesses 2 anos. O que vi foi um forte reflexo de uma sociedade muito machista, hierárquica e excludente, sendo repetido em sala, nos corredores, na secretaria… E vou contar para ele que eu preciso sim me esforçar mais do que a média, mas é para aguentar ser empurrada para baixo, junto dela e de seus preconceitos.

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@talitaribeiro

Apaixonada por palavras e viagens, gestora em formação, jornalista não praticante, esposa, amiga, prima-irmã, filha, neta, futura tia e mãe.

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