Convergência no cinema – ou porque o videogame será o novo cinema

Convergência, cinema, videogame, Cultura da Convergência, Henry Jenkins, Josep Català, A Forma do Real, Chaplin, Conto de Escola, Laerte Silvino,  Machado de Assis, Petrópolis, HQ,

Nestes dias de férias decidi reler Cultura da Convergência, de Henry Jenkins, e ao passar por um trecho no qual ele fala como a convergência de telas tem sido presente na divulgação dos novos filmes (quantos trailers costumamos ver no celular, no computador, no tablet, muito antes de ver no cinema? E quantos filmes vemos diretamente nestas telas ao invés de ver na telona?) lembrei imediatamente de um texto que li intitulado “Enquanto o Chaplin dos games não vem“. Nele o teórico Josep Català defendia que o videogame será o novo cinema.

Ideia curiosa não é mesmo?

Especialista em estudos visuais e professor da Universitat Autònoma de Barcelona, Català defende uma tese que, com pouco esforço, conseguimos vislumbrar como, no mínimo, plausível: a possibilidade de interação entre espectador e narrativa pode transformar os jogos de videogame no grande suporte expressivo das próximas décadas, assim como foi a sétima arte ao longo do século 20.

Se com o cinema nossos avós e bisavós viram seus sonhos trasportados para as telas de cinema, com os jogos interativos nos podemos viver vidas alternativas e trazemos experiências cada vez mais reais para nosso cotidiano através do virtual.

Quando o cinema surgiu, era coisa de mágico, artimanha do demônio, algo a se espiar com desconfiança. Atração de feiras e parques de diversões, dividia espaço com dançarinos anões, animais adestrados, espelhos deformadores de corpo e outras distrações que faziam a alegria das camadas populares em fins do século 19. Mulheres e homens ditos refinados não o frequentavam.

Segundo o viés defendido por Català, os videogames ainda carregam a “pecha” de brinquedos de adolescentes que buscam apenas dar tiros, pular de fase ou salvar princesas, mas sua interface que permite uma interação entre o espectador e a narrativa pode transformar o formato no grande suporte expressivo das próximas décadas.

Tema de seu livro “A Forma do Real“, os estudos visuais representam para Català uma ampliação da noção de história da arte. Estendem suas fronteiras para além dela e consideram manifestações visuais de naturezas mais amplas -campanhas publicitárias, produtos audiovisuais de toda espécie. Lugar de encontro entre “o real, o imaginário, o simbólico e o ideológico”, as imagens e as plataformas de interface são uma forma, talvez a única forma, de adentrar a subjetividade contemporânea.

É preciso então parar, com calma, e ver o videogame como forma simbólica -a possibilidade de criação de mundos imaginários e interface do jogador com esses mundos. A tendência é a de uma maior participação no mundo narrativo, de tal forma que a identificação, que se estabelecia de forma passiva, passe à forma ativa. Essa é a mudança que poderia haver, mas que ainda não se deu.

Como se estivéssemos esperando por um Chaplin dos videogames…

Sim, exatamente. O exemplo de Chaplin é muito bom, porque Chaplin, de cara, move as massas, faz-se extremamente popular. Também temos que ver que esses novos meios não anulam os anteriores, mas vão se sobrepondo. Ler um livro, ver um filme e participar de um game são experiências distintas e até complementares.

Convergência, cinema, videogame, Cultura da Convergência, Henry Jenkins, Josep Català, A Forma do Real, Chaplin, Conto de Escola, Laerte Silvino,  Machado de Assis, Petrópolis, HQ,

E por falar em múltiplas telas e na convergência das mídias (tema do livro de Jenkins, de leitura mais do que recomendada hein!), no meio da entrevista com o pensador espanhol, um dos temas foi o crescimento, no Brasil, de adaptações de grandes romances para os quadrinhos. Vejo com grande alegria esta alternativa que pode trazer para as novas gerações o universo de clássicos, sem substituí-los, mas dotando as obras de “uma roupagem” que facilite sua compreensão séculos depois. Nas últimas semanas meus filhos (de 9 e 11 anos) leram Conto de Escola, uma adaptação em quadrinhos (com texto integral) do quadrinista Laerte Silvino para a obra de Machado de Assis que faz parte da coleção Clássicos em HQ da editora Petrópolis. Leitura relativamente difícil, não só pelo estilo literário, mas pela época e os costumes, que se tornou muito mais “digerível” com o apoio dos quadrinhos. Eis que sobre este tema o teórico espanhol também opinou em sua entrevista:

As histórias em quadrinhos são um meio poderoso que, por muito tempo, foi visto como infantil. Nos últimos anos surgiram as “graphic novels” com histórias pessoais, memórias, investigações. Há uma densidade dos personagens combinadas com potência visual.

Do ponto de vista estrutural, a HQ se adianta ao cinema. O cinema é um conjunto de imagens que se sobrepõem de modo que a arquitetura cinematográfica não fica visível, enquanto a HQ traz a montagem à tona. No momento em que os desenhistas se deram conta de que tinham uma página para brincar, começaram a inventar novas formas de articulação, muito mais ousadas do que as velhas tirinhas que imitam quadros cinematográficos. Há uma capacidade de interação tremenda, que o próprio cinema agora começa a descobrir, quando reparte a tela e brinca com esses formatos.

Estamos vivendo a transição entre uma geração que cresceu com a televisão -um meio passivo- para uma geração que cresceu com internet, que é interativa. A tendência é que seja uma geração mais criativa, mais ousada? Creio que sim. E aposto que o “letramento midiático” do qual fala Jenkins e que é característico da geração dos meus filhos (que usa e abusa das múltiplas telas em seu tempo livre, sem  no entanto deixar de ler o livro como fazemos há séculos) é uma excelente forma de atrair novos consumidores de cultura e de reforçar o valor da leitura, mesmo que inicialmente ela venha “camuflada” de roteiro para se sair bem em jogos virtuais.

E aí, leitor, como você vivencia estas experiências midiáticas? Conte aí e vamos pensar neste tema como um dos debates para fazermos (mesmo que virtualmente) neste começo de ano! 

Posts relacionados 

Você pode gostar também de ler:
The following two tabs change content below.
Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

Comentários no Facebook