Palmada não resolve e não há castigo corporal tolerável #rodaviva

“Faz séculos que as crianças mundo afora sofrem com o castigo corporal ou físico, aquele que recorre à força e inflige certo grau de dor, mesmo leve. Na maioria dos casos, trata-se de bater nas crianças (palmadas, bofetadas, surras) com a mão ou com objetos como chicote, vara, cinturão, sapato e colher de madeira. Mas pode consistir também em dar pontapés, empurrões, arranhá-las, mordê-las, obrigá-las a ficar em posturas incômodas, produzir queimaduras, obrigar a ingerir água fervendo, alimentos picantes ou a lavar a boca com sabão. Além desses há outros castigos que não são físicos, mas igualmente cruéis e degradantes, castigos em que se menospreza, se humilha, se denigre, se ameaça, se assusta ou se ridiculariza a criança.”
Paulo Sérgio Pinheiro (Comissionado e Relator da Criança, Comissão Interamericana de Direitos Humanos, OEA,Washington, EUA)

Nós queremos crer que as barbáries listadas acima não são mais comuns e que no século XXI já vencemos isso, pelo menos no Brasil. Mas ainda há um caminho a percorrer. No dia em que o governo federal prometeu encaminhar ao Poder Legislativo o Projeto de Lei que proíbe castigos corporais em crianças e adolescentes eu notei no Twitter que a polêmica mal tinha começado. Aqui e ali via manifestações sobre o lado educativo dos beliscões e tapinhas e muitas pessoas que eu considero bastante lúcidas lançavam mão de sua experiência infantil dizendo “apanhei e não me tornei um desajustado por isso”.

A questão, creio, é maior, diz respeito a uma postura que devemos tomar como sociedade: na maioria dos casos (no Brasil e no mundo) todo castigo físico contra menores raramente se limita à “palmadinha” nas crianças, chegando não raro a bofetadas, surras, espancamento com a mão ou com objetos como chicote, vara, cinturão, sapato e colher de madeira.

“O Projeto de Lei que tramita no Congresso estipula que adolescentes e crianças devem ser educadas sem receber palmadas, beliscões ou outros castigos físicos. Polêmico, o projeto divide opiniões. Uma pesquisa do Instituto Datafolha, com quase 11 mil pessoas, mostrou que 54% dos entrevistados são a favor de aplicar punições como palmadas nos filhos, enquanto 36% são contra. O levantamento aponta também que 74% dos homens e 69% das mulheres apanharam dos pais quando eram crianças. E 69% das mães e 44% dos pais já bateram de alguma forma nos filhos.”

Eu mesma apanhei diversas vezes de meus pais – não cheguei a me machucar gravemente nunca, mas sei que ficam marcas indeléveis das surras e, caso sejam frequentes, elas afetam sim a forma como reagimos quando acuados – e por isso eu hoje considero que qualquer castigo corporal é errado. Da mesma forma, como já escrevi há um tempo, a agressão verbal é igualmente cruel e degradante, pois, como outros castigos, se menospreza, se humilha, se denigre, se ameaça, se assusta ou se ridiculariza o outro.

E para quem afirma que agressões dos pais não deixam marcas, basta observar nas crianças e adolescentes vítimas destes abusos as conseqüências: hiperatividade, baixo desempenho escolar, desordens psicossomáticas até lesões no cérebro e no sistema nervoso central, nos olhos, nos ouvidos, problemas de saúde reprodutiva das adolescentes. Isso sem falar dos danos psicológicos e psíquicos: alcoolismo, depressão, ansiedade, desordens do sono, sentimentos de culpa e angustia.

Nesta noite, a partir das 21h na internet e das 22h na TV Cultura, eu, Daniela Ohuti (@doduti) e A.J. Freire (@nerdpai) estaremos na bancada do programa Roda Vida no Live Tweeting (cobertura colaborativa pelo Twitter) da entrevista coletiva que o programa fará com Paulo Sérgio Pinheiro, citado na abertura do post. Se for do seu interesse assista na TV, converse com a gente (basta clicar nas imagens para nos achar no Twitter) e opine sobre o tema também.

Estará também conosco o fotógrafo Marcos Badari. E os entrevistadores da noite são Ricardo Kotscho (Repórter da revista Brasileiros e editor do Blog Balaio do Kotscho no Portal IG), Fernanda Mena (Editora do caderno Folhateen, do jornal Folha de S. Paulo), Ivan Marsiglia (Editor assistente do Caderno Aliás do jornal O Estado de S. Paulo), Paula Perim (Diretora de redação da Revista Crescer).

Veja os posts sobre violência doméstica aqui no blog nos últimos anos:

A partir do dia 14 de julho, instituições de saúde deverão comunicar o Conselho Tutelar de Crianças e Adolescentes sobre quaisquer ocorrências de embriaguez ou consumo de drogas por parte de crianças e adolescentes. Entenda um pouco mais sobre esse Projeto de Lei no post do blog Medicinia.

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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