sustentabilidade

“Os preceitos básicos que definem a ética publicitária são:

– todo anúncio deve ser honesto e verdadeiro e respeitar as leis do país,
– deve ser preparado com o devido senso de responsabilidade social, evitando acentuar diferenciações sociais,
– deve ter presente a responsabilidade da cadeia de produção junto ao consumidor,
– deve respeitar o princípio da leal concorrência e
– deve respeitar a atividade publicitária e não desmerecer a confiança do público nos serviços que a publicidade presta.”
Conar

Eu cresci numa sociedade com liberdade vigiada. Em teoria o Estado era democrático, mas na prática vivíamos sob um regime de muito controle social por conta da Ditadura Militar. Como meu avô Juca Hoffmann foi deposto por militares (numa ação daquelas de filme, com armas na cabeça e truculentos retirando-o do gabinete da prefeitura) e era “temido” por suas ideias que tendiam ao socialismo, nossa família aprendeu a se controlar em suas ideias. A família do Gui, pelo contrário, passou a vivenciar uma postura política mais ativa na geração dos pais dele, daí eles optarem por um papel mais protagonista nas lutas sociais e políticas que mudaram o Brasil no final da década de 1970 e meados de 1980.

Disso tudo, por ter crescido vendo a imagem da censura, autorizando e dizendo qual a idade certa para cada programa que víamos na TV, eu aprendi a julgar o que eu via. E da mesma forma eu controlo o que meus filhos podem ver, levando muito de perto cada comercial, cada novo programa (assisto sim, até desenhos, algum tempo antes de dizer que pode ver e ainda fico ouvindo para sacar que valores são passados). Mas o que noto é que há uma geração que não viveu a censura, não viveu a ditadura, gente que está na comunicação mas nem “cara pintada” foi. Claro que para ter opinião não é condição sine qua non ser velho ou ter vivido as coisas e sofrido na pele, mas é importante ter noção do processo social que nos leva a escolhas que mudam o controle ou a regulamentação da nossa vida.

Esta novela toda aí acima foi um prelúdio da conversa acerca do Conar, tema de uma blogagem coletiva promovida pelo Instituto Alana na última semana. O Conar nasceu no meio da tal censura da qual falei no começo.

“O Código Brasileiro de Autorregulamentação Publicitária nasceu de uma ameaça ao setor: no final dos anos 70, o governo federal pensava em sancionar uma lei criando uma espécie de censura prévia à propaganda.”

A história oficial conta que, “diante dessa ameaça, uma resposta inspirada: autorregulamentação, sintetizada num Código, que teria a função de zelar pela liberdade de expressão comercial e defender os interesses das partes envolvidas no mercado publicitário, inclusive os do consumidor”.

Grandes nomes da época – Petrônio Correa, Luiz Fernando Furquim de Campos e Dionísio Poli – representaram as agências, os anunciantes e os veículos de comunicação, articulando o reconhecimento do Código pelas autoridades federais, convencendo-as a engavetar o projeto de censura prévia e confiar que a própria publicidade brasileira era madura o bastante para se autorregulamentar.

Com a aprovação social da ideia, surgiu o Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária), criada como uma ONG encarregada de fazer valer o Código Brasileiro de Autorregulamentação Publicitária, entidade que recebe e administra processos éticos e nestes 30 anos resolveu conflitos.

Recentemente, porém, o Projeto Criança e Consumo, do Instituto Alana, sentiu que não podia mais confiar no parecer do Conar. Como acompanho os trabalhos deles, em especial com a marca em questão, creio que não foi uma experiência isolada, mas foi a mais grave e para discutir o tema de forma democrática eles convidaram blogueiros a opinarem:

“O parecer do Conar mostrou que a autorregulamentação não funciona. E vc, o que acha? Participe da nossa blogagem coletiva http://migre.me/5c2Tg

Minha visão é de que temos maturidade para autorregulamentação sim, mas não temos ainda maturidade como consumidores (de produtos palpáveis ou de produtos culturais) para escolher e assumir nossas escolhas. Está errado ver marcas que colocam mensagens subliminares em filmes infantis e em jogos eletrônicos, sim, sem dúvida, assim como sempre esteve errada a venda casada de comida e brinquedo.

Mas há também uma falha dos pais no acompanhamento destas ofertas, na orientação e educação dos novos consumidores, ensinando às novas gerações que as marcas podem estar lá, mas não são “o norte” da nossa vida, a condição sine qua non da nossa felicidade.

Quem compra são os pais, mas sobretudo quem ensina o que realmente tem valor na vida são eles. As crianças só aprendem que é melhor o computador da maçã porque um pai, um tio, uma mãe ou todos juntos contaram insistentemente para ele que era assim, que quem compra estes produtos é mais “cool”, mais “rico”, mais “gatinha”, é “gente diferenciada”. Precisamos discutir a regulamentação da propaganda, aberta ou subliminar, na publicidade para as famílias, sim, sem dúvida. Mas urge que encaremos o fato de que ao endeusar marcas nós nos tornamos títeres e perdemos não só nossa liberdade de expressão, mas nossa capacidade de existir com independência e de coexistir em harmonia.

#prapensar

Quer participar e dar sua opinião também? Conte em seu blog (e acho que quem não tem blog pode ser via Facebook, Orkut, Twitter): o que você pensa sobre a ética na publicidade hoje? Como podemos coibir os excessos e proteger nossas crianças dos apelos comerciais? Até 14 de julho, você pode escrever um post no seu blog e publicar o seu link nos comentários logo abaixo. O Criança e Consumo promete divulgar as diversas opiniões e assim criar uma grande discussão sobre o tema.

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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