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Como ler um livro num mundo cheio de distrações? A pergunta de Tim Parks no New York Review of Books me remeteu à pilha de livros, jogos e leitor digital, presentes deste Natal que comprovam que continuamos leitores, consumidores de cultura, independentemente das mídias escolhidas.

😉

O texto de Tim Parks, professor de Literatura e Tradução na Universidade de Comunicação e Línguas (IULM) de Milão, na Itália, e editor de um blog sobre livros e leitura, com textos em inglês, dentro da New York Review of Books, começava com uma pergunta que nem o leitor mais voraz e apaixonado consegue responder sem pensar muito e se aperceber em fase de mudança nas suas leituras:

“As condições de leitura de hoje não são as mesmas que tínhamos 30 anos atrás. A pergunta é: como a ficção contemporânea vai se adaptar às mudanças? Ela, afinal, vai ter de se adaptar. Nenhuma forma de arte consegue existir independentemente das condições em que é desfrutada.
Refiro-me aqui ao estado de distração constante em que vivemos e como isso afeta as energias exigidas para se enfrentar uma obra substancial de ficção – submergir no texto e depois voltar a ele de novo e de novo em várias ocasiões ao longo de um período de dias, semanas ou meses, sempre retomando o fio da meada da história ou das histórias, os padrões de referência interna, o lugar da obra dentro do contexto dos outros romances e, de fato, do mundo em geral. Cada leitor terá a própria noção de como as condições de leitura mudaram, mas segue aqui a minha experiência.”
(Tim Parks)

Curiosamente eu li o texto – num jornal de papel, pois meu pai ainda assina versões assim e eu estava na casa deles, em Curitiba – num momento em que me forcei a repensar meu excesso de conexão. Como contei aqui, me dei um digital detox nas férias e estou tentando ser “menos escrava” dos dispositivos móveis. Nestas miniférias de Natal, descobri (bem tardiamente, eu sei) o prazer de ler num leitor feito só para isso.

Claro que eu já tinha convertido parte das minhas leituras para o tablet, mas sempre no iPad, onde avisos pulam na tela e me tiram a concentração. Como meu filho ganhou da avó, como presente de formatura (ele vai para o Ensino Médio neste ano) um leitor digital, testei e gostei. Claridade na medida, distração quase zero – quase, porque a gente entra na internet para ver a loja e se perde como numa livraria real! kkkk

motivos para ler e fazer quase tudo no ipad

Na volta da viagem, alguns trechos da leitura têm vindo à minha mente o tempo todo:

– Agora, todos os momentos de leitura séria precisam ser conquistados e planejados com antecipação.

– A mente, ou ao menos a minha mente, pende demais para a comunicação, ou, se essa palavra for meio excessiva, à troca que há no contato com os outros.

– Então, quando lemos, temos mais interrupções, mais pontos em que precisamos parar e recomeçar, mais informações vindo de outros lugares, menos refúgios onde a mente possa se acomodar. Não é só a interrupção em si o problema, mas, sim, o fato de que temos uma propensão à interrupção. Portanto, cada vez mais energia é necessária para manter contato com um livro, particularmente quando é longo e complexo.

Passei as semanas finais de 2014 e comecei 2015 imersa em leituras deliciosas e longas.

Mas concordo com Tim quando ele fala que o romance longo tem que se reinventar para conseguirmos nos manter leitores.

“É claro que livros longos continuam sendo escritos. Não terão fim. As pessoas ainda se sentam no metrô com o interminável Senhor dos Anéis e todas as sagas de fantasia que agora preenchem as estantes de nossos filhos adolescentes. É certo que Cinquenta Tons de Cinza e as outras matizes todas acabaram sendo muito mais longos do que precisavam ser. E o mesmo vale para a trilogia Millenium, de Stieg Larsson. Nunca o leitor teve tanta disposição para se comprometer com um mundo alternativo por um extenso período de tempo.”
(Tim Parks)

Enquanto eu lia, pensei sobre uma característica levantada por ele sobre o novo jeito de escrever.

“Há um caráter martelador no romance contemporâneo, uma insistência e repetição que permitem ao leitor que aguente firme, apesar das interrupções frequentes às quais a maioria dos leitores comuns é vulnerável. O intrigante é que um autor como Philip Roth, que já fez reclamações públicas que as pessoas não têm “a concentração, o foco, a solidão ou o silêncio” necessários “para a leitura séria”, foi ele mesmo acusado de ter adotado um estilo martelante e coercivo, pelo menos nos romances mais longos.”
(Tim Parks)

Não sei se é bom ou ruim. Sei que talvez a geração dos meus filhos ou netos tenha uma dificuldade fora de série para ler coisas que fizeram parte da minha adolescência, de “hibernar” com meu livro da ocasião e esquecer do mundo nas férias, de verão ou de inverno, sem ver o dia ou a noite acontecerem.

O que, a julgar pela pilha de livros deste Natal e o entusiasmo das nossas conversas familiares depois, eu posso falar é que continuaremos leitores, mas que possivelmente teremos que nos ajustar para que a leitura continue a ter o espaço que merece em nossas vidas.

Talvez uma alternativa seja a que adotamos aqui.

Mesclar interesses, fazer crossmedia entre os jogos, filmes e os livros, usar diferentes dispositivos para ler. Mas o fato é que queremos continuar lendo. 

🙂

Se você tem feito esta reflexão – ou começou a pensar nisso agora – veja a previsão do crítico:

“O romance da prosa altamente distinta e elegante, do cuidado conceitual e da complexidade sintática, tenderá a se subdividir em seções cada vez mais curtas, oferecendo quebras mais frequentes, para podermos dar pausas. O romance popular mais longo, ou o romance de arquitetura narrativa extensa, vai se tornar cada vez mais carregado de fórmulas repetitivas e retórica declamatória e coerciva para que fique cada vez mais fácil retomá-lo depois de uma interrupção – recuperar não tanto um fio da meada, mas um cabo firme de aço. Não há dúvidas de que haverá exceções preciosas. É bom ficar de olho nelas.
(Tim Parks)

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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