O que me faz saber como conversar com meninas é o fato de eu ser uma experiente “mãe de menino”



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Tudo começou com a tradução de um texto de Lisa Bloom. Daí, como no Dicionário infantil da Colômbia (Casa das estrelas: o universo contado pelas crianças, de Javier Naranjo), um viral se formou na internet e quem pensa na infância de um jeito novo foi sensibilizado.

A ideia era repensar “Como conversar com meninas” e a autora contava que se habituou a se conter quando encontras garotinhas – “negando [o] primeiro impulso, que é dizer o quão fofas/lindas/bonitas/bem vestidas/de unhas feitas/cabelo arrumado elas são/estão” – e usando outras frases para quebrar o gelo no encontro.

Pensar no mundo das garotinhas é uma coisa que parece nova para mim porque sou mãe de menina há apenas 40 dias, mas na verdade sempre esteve na minha mente porque (1) fui uma menina, (2) tenho duas irmãs mais novas e (3) sou tia de meninas do lado do meu marido. Mas, acima de tudo, o que me faz saber como conversar com meninas é o fato de eu ser uma experiente “mãe de menino”.

Ao longo de 8 anos escrevi dezenas de posts no @avidaquer e no @maecomfilhos sobre empoderamento feminino porque acredito com todas as minhas forças que devemos tratar meninos e meninas como seres humanos plenos, sem tatibitate (aquele linguagem de bebê) e sem sexismo. Simples assim.

Acredito que meninos e meninas merecem nosso respeito, merecem conversas inteligentes, merecem dignidade no tratamento, merecem diversidade no seu cotidiano, merecem partilhar das nossas descobertas e das nossas reflexões, merecem ser ouvidos e merecem que conversemos com eles sobre assuntos interessantes.

E todos merecem, viram? Nada de empoderar só as meninas e deixar os meninos com o estigma de serem “só meninos”, bagunceiros, desligados ou outros adjetivos indelicados que lhes restam. Um mundo melhor para as mulheres exige e conta com homens melhores.

Precisamos conversar sobre o bombardeio de consumismo, de modelos equivocados e de falta de perspectiva tanto com garotas quanto com garotos. Eles sofrem impactos negativos sobre a “estética” abusiva da mesma forma que elas (apesar de que, concordo, ainda respondem menos às cobranças sociais) e é com uma mudança no jeito que criamos, convivemos e educamos os dois lados – o masculino e o feminino – da nossa sociedade que conseguiremos de fato mudar alguma coisa – ou muita coisa, se começarmos já e nos unirmos por este ideal.

Entendo perfeitamente a preocupação da autora e de quem replicou o texto Como conversar com meninas de que “a exigência cultural de que as garotas sejam lindas 24 horas por dia [faz] as mulheres [se tornarem] cada vez mais infelizes”. Mas o que está faltando – “um sentido para a vida, uma vida de ideias e livros e de sermos valorizadas por nossos pensamentos e realizações” – é sentido também pelos garotos.

Então, para quem de agora em diante vai se esforçar para olhar nos olhos das crianças, ficar na sua altura e conversar sobre suas leituras e interesses, minha sugestão é começar a fazer isso com TODAS as crianças, sem distinção. Aproveite as dicas e imagine-as sem ser para meninas, mas para todas as pessoas e mostre não só como uma mulher pensante fala e age, mas como um ser humano completo e isento de preconceitos interage com outros seres pensantes.

“Tente isto da próxima vez que você conhecer uma garotinha. Ela pode ficar surpresa e incerta no começo, porque poucos perguntam sobre sua mente, mas seja paciente e insista. Pergunte-a o que ela está lendo. Do que ela gosta ou não gosta, e por quê? Não existem respostas erradas. Você apenas está gerando uma conversa inteligente que respeita o cérebro dela. Para garotas mais velhas, pergunte sobre eventos atuais: poluição, guerras, cortes no orçamento para educação. O que a incomoda no mundo? Como ela consertaria se tivesse uma varinha mágica? Você pode receber algumas respostas intrigantes. Conte a ela sobre suas ideias e conquistas e seus livros preferidos. Mostre para ela como uma mulher pensante fala e age.”

E para as amigas que me indicaram a leitura, digo que o caminho é este: empoderar seres humanos, homens e mulheres, desde a mais tenra idade. Minha pequena Manu foi concebida e gerada no meio de campanhas como “É da nossa conta”, esteve comigo (na barriga) levando a voz do Twitter no seminário Social Good Brasil, começamos juntas o movimento @aleitamos para tratar de saúde feminina, dentre tantas outras atividades ligadas a temas importantes da sociedade que estão na nossa (minha, dela, de vocês) todos os dias.

Estou segura de que, cercada de grandes mulheres e de homens generosos, ela e as meninas de sua geração nos surpreenderão incansavelmente. :-)

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2 respostas para “O que me faz saber como conversar com meninas é o fato de eu ser uma experiente “mãe de menino””

  1. Amei seu texto. Qdo meu mais velho estava para nascer, li um livro sobre criação de filhos, e lá dizia que nunca deveríamos nos esquecer que apesar de serem pequenos, eles eram pessoas que mereciam respeito. E isso para mim fez tanto sentido que não consigo tratar as crianças como se fossem "mentalmente incapazes". E esses textos (o seu e o de como conversar com meninas) fez muito sentido e vai de encontro com tudo isso que penso. Crianças não são retardadas, nós mulheres não somos só um rostinho bonitinho, todos nós merecemos ser tratados com toda dignidade e respeito que todo ser humano merece.
    Bjos
    Elaina Furlan
    http://www.vidademae.net

  2. Para pensar num país onde ainda hj se "educa" meninos e meninas separadamente no colegio e a mulher só serve para procriar!

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