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“Você sabia que a expressão “tribo urbana” foi criada pelo sociólogo francês Michel Maffesoli em 1985? 

Seu livro “O Tempo das Tribos: O declínio do individualismo nas sociedades de massa” defende que o fenômeno das tribos urbanas se constitui nas “diversas redes, grupos de afinidades e de interesse, laços de vizinhança que estruturam nossas megalópoles. Seja ele qual for, o que está em jogo é a potência contra o poder, mesmo que aquela não possa avançar senão mascarada para não ser esmagada por este”.

Hoje no blog temos um convidado especial: Enzo, de 14 anos, opina sobre este fenômeno na adolescência e diz como acredita que o processo se perpetua na vida adulta.”

 

As tribos são parte do que nos define. Todos temos um grupo no qual nos encaixamos, e até mesmo dentro dos grupos nós temos os lugares em que nos encaixamos mais.

Elas têm uma relação muito forte conosco – tanto que a tribo nos muda, e até controla as pessoas.

As tribos podem ou não ter relacionamentos, porém são bem mais claros quando possuem, especificamente se forem negativos. E assim começa a xenofobia, preconceito e repulsão às outras tribos.

Um bom exemplo disso é a tribo do Funk, que se apresenta em diversas classes, mas mais freqüentemente nas classes sociais menos privilegiadas.

A tribo é tão forte que chega a definir tudo aquilo que as pessoas vão fazer. A pessoa usa o seu tempo livre para usos exclusivos da tribo. Isso está presente em todos, sem exceção. E cria, além de novas atitudes, novos comportamentos.

Por exemplo, atualmente a periferia está na nova fase da Ostentação. Foi colocado pela tribo mais popular que na verdade era necessário que você tivesse todo aquele dinheiro, coisas caras, mas especialmente, mostrar que tem algo. Porém quem mostra isso nunca realmente tem tudo aquilo, e o que começa a aparecer é integrantes da tribo alugando, e até roubando, gastando uma infinidade de dinheiro com celulares, roupas, coisas apenas para mostrar que têm.

Mas para quê mostrar tanto algo? Simples, para dizer que faz mais parte daquela tribo. Até mesmo dentro da tribo há as subdivisões, classes diferentes que acabam por não se misturar.

E o comportamento não para por aí – há um psicológico muito mais envolvido do que apenas o monetário, as pessoas se habituam e começam a pensar exclusivamente como no meio que frequentam.

Outro exemplo é a reputação que as mulheres começar a ter em eventos com o Baile Funk: se não estiverem de roupas íntimas, elas entram de graça. Isso estimula elas a irem assim, pensando no dinheiro,e ainda mais paraa organização do evento, porque mulheres nestas condições significam disponíveis, atraindo os homens, que vão para pagar.

Porém, isso acaba vulgarizando os dois lados: O das mulheres, de trocarem seu corpo por um ingresso, e dos homens, por irem apenas por isso.

Tudo isso é apenas uma consequência de adentrar o mundo da tribo. Há o dinheiro envolvido como passaporte e a distorção da imagem como convite de entrada no grupo.

Há grupos que chegam a extremos para participar, chegando a sofrer uma verdadeira “lavagem cerebral”. Por exemplo, clubes de futebol, que hoje possuem o “Sócio-Torcedor”. Os integrantes pagam uma enorme quantia de dinheiro, apenas para quando houverem jogos receberem algum benefício, mesmo com tantos sócios-torcedores para dar tal benefício e preferência. Porém, “quem realmente for do time vai pagar o sócio torcedor, porque sou do Time X” é o pensamento de muitos.

Por outro lado, o relacionamento pode ser positivo e bom. Há tribos que possuem interação, e até geram certas relações construtivas.

Um exemplo são shows de bandas diferentes. Quando ocorrem shows de cantores com outras bandas, dois cantores, duas bandas diferentes… Isso acaba gerando uma união entre fãs do mesmo estilo.

E ainda há o relacionamento negativo entre tribos que domina outra tribo: ao invés de apenas não se misturarem, eles vão depreciar, querem acabar com a existência de outras tribos que não se relacionam bem. Isso força a unificar as tribos, e acabar com a variedade.

Uma forma disso é a rivalidade entre dois times de futebol, novamente.

São criados xingamentos, gozações, várias formas de humilhar os integrantes de outro time.

Ou seja, as tribos são em boa parte uma definição do que o ser pertence. Elas podem se relacionar ou não, se relacionarem, pode ser positivo e se unirem ou não, assim como a negativa, que vai de preconceito à dominação.

A  tribo muda o que é a pessoa, o que faz e como vai fazer, podendo gastar da imagem até a sua reputação.

Fazer parte de uma tribo é algo natural do ser humano. Temos de achar um equilíbrio entre o interesse e a iniciativa de fazer, tem que achar algo que você realmente pode fazer parte. Senão, a tribo será uma eterna escravidão, que vai ditar o que você fará. 

Nota da Editora: 

 

Logo depois ser plateia do ensaio do meu filho para o seminário de Sociologia  que ele faria na escola (ele cursa o 1º ano do Ensino Médio), postei no meu perfil pessoal (www.instagram.com/samegui) sobre este livro póstumo de Carl Sagan (Bilhões e Bilhões, da editora Companhia das Letras) e lembrei que tinha post sobre ele no blog. 

Nele eu comentava um artigo do meu professor de faculdade Cristóvão Tezza que dizia que o modo como você lê não está mudando. Já mudou. E o livro foi para mim um dos divisores de água em algumas concepções que eu tinha como recém-formada e recém-chegada no Primeiro Mundo (li quando mudei para o Japão).

Acredito no prognóstico (diagnóstico) de Cristóvão Tezza: a internet, mesmo com internetês, está salvando esta nova geração e remendando gerações passadas. Graças a ela não corremos mais o risco de sermos agráfos, ela permite que meu filho leia os e-books antes de ver o filme e que ele blogue sobre o que pesquisa na escola. E, melhor, ele pode ter uma troca com os autores que lhe interessam que não tem precedentes na história pregressa das gerações de leitores da sua família! 

Como não louvar o instrumento que nos traz tudo isso? 🙂 

Leia e comente o post no http://www.avidaquer.com.br/livro-no-brasil. 


Comments

  1. Que legal seu texto, Enzo, parabéns!

    Quando adolescente fiz parte de um grupo de punks. Todo grupo é muito complexo, cheio de prós e contras, tem bitolados e desapegados, mas realmente todos dão sua contribuição na formação de nosso caráter. Eu adorava a minha turma, encontrava nela afinidades, idealismo e uma parceria que não encontrava em nenhum outro lugar.

    Hoje acho que estamos entrando em uma nova era de individualismo, menos egocêntrica, que dialoga com grupos mas não se prende a rótulos. Ainda sentimos uma necessidade de pertencimento em algum grupo, mas não é o principal norteador de nossas ações.

    Por isso que vemos tantas notícias sobre heróis da vida real, empreendedores, busca dos sonhos, protagonismo, etc.

    O que você acha?

    Abs!

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