Comida é vida e a vida pode ser estudada por meio da comida

Cresci numa cidade onde os povos que compõem sua história são celebrados em tempo real, sempre, em vários setores da sociedade. Quando entrei no Ensino Médio, era curioso porque ia almoçar e fazer trabalho na casa de colegas e um dia se falava ucraniano, no outro chinês, outro dia alemão, no mês seguinte podia ser japonês, com comidas típicas misturadas ao jeito brasileiro de ser e por aí seguia. Muitos amigos faziam parte de grupos folclóricos e a gente marcava vários encontros nas feiras livres noturnas que acontecem pela cidade, a partir de umas 17h, onde se comprava frutas e verduras e se comia muita comida das feiras das nações.

A tradicional Feira das Nações tem três décadas em Curitiba, mas a comida não é tudo que podemos fazer para manter uma cultura viva.

Enaltecendo a diversidade étnica, o Festival Folclórico e de Etnias do Paraná acontece anualmente no mês de agosto e segue com o objetivo de conduzir o público a um caminho de autoconhecimento a partir do contato com a origem, a história e a cultura de seus antepassados. Neste ano, minha mãe foi ver a dança espanhola na qual se apresentavam a esposa do meu primo e sua filha, de 6 anos. E é assim: as famílias se sentem muito empoderadas no que são, mesmo tão mescladas depois de gerações!

Os parques da cidade, como o Bosque do Papa (onde o Papa João Paulo II, que era polonês, rezou missa, em 1980), são verdadeiros santuários da cultura das etnias representativas do estado do Paraná. E a minha querida UFPR, universidade onde me graduei em jornalismo, tem vários departamentos que mantém vivas as etnias, como o Celin, que não só mantém vivas as línguas dos povos migrantes que fizeram nosso estado – por exemplo, minha mãe estudou hebraico por anos, gratuitamente, lá – como fazem um excelente trabalho de acolhimento para os estrangeiros.

E é sobre os estrangeiros que fala o título do post.

Afinal, eu já fui estrangeira, meu esposo ainda trabalha com colocação de brasileiros no Japão e a gente tem muitos parentes e amigos morando fora ou chegando ao Brasil.

O que nos une? Muitas vezes a comida.

Uma amiga nossa mudou para o Líbano neste ano. Estamos sempre nos falando sobre comidas e passando vontade lá e cá.

A comida pode desempenhar um papel fundamental no resgate da identidade dos povos.

É o que me faz me sentir mais ou menos japonesa, alemã, brasileira.

E o estudo realizado pela Universidade de São Paulo (USP), sobre os refugiados sírios que vivem em São Paulo, mostra que mesmo qpara quem chega neste século XX essa máxima ainda vale. Em  “Representações da comida síria por refugiados sírios na cidade de São Paulo, Brasil: Um estudo etnográfico”, publicado no início de outubro pela revista científica Appetite, em inglês, com resumo disponível em seu site.

“Comida é vida e a vida pode ser estudada por meio da comida”, disse a professora de Nutrição da USP e idealizadora do estudo, Fernanda Scagliusi. Segundo ela pesquisadora, a publicação revela a importância do alimento na vida dos refugiados sírios mostrando os diferentes papeis socioculturais que a alimentação desempenha na vida deles, o resgate de sua identidade e a condição de subsistência financeira.

Esta é a primeira de quatro publicações que devem sair sobre a alimentação e os refugiados sírios em São Paulo, sem data prevista de divulgação – mas eu prometo ficar de olho!

Participam do estudo também a nutricionista Fernanda Porreca, as doutoras em Nutrição e Saúde Pública Mariana Ulian e Priscila Sato e o antropólogo Ramiro Unsain.

O estudo fala sobre os processos de aculturação e como a comida é refletida nesses processos, e como a alimentação é um código que permeia nossas vidas, uma espécie de lente para pensar o mundo.

“Podemos afirmar que a guerra civil na Síria é a maior crise humanitária dos nossos tempos, e escolhemos falar sobre os refugiados sírios em São Paulo porque nesses últimos meses tivemos muitas notícias sobre a grande quantidade de sírios vindo para cá; sabemos que demorou para eles chegarem aqui por causa da distância física, e o conflito teve de se agravar para eles terem de vir para cá.”

 

De onde eu vim não existe mais #ComOsRefugiados

A comida traz esse resgate da identidade para pessoas que foram deslocadas abruptamente e que perderam o norte, já que não vivem mais em seu país, não trabalham mais em sua área de atuação, não falam mais seu idioma nas ruas.

“Notamos que grande parte dos refugiados está trabalhando com alimentação; muitos deles têm diploma, são engenheiros, médicos, executivos, comerciantes, mas não tiveram a oportunidade de continuar em sua área aqui, e encontraram na comida síria uma forma de sobreviver financeiramente. As dificuldades no processo de revalidação dos diplomas das pessoas em situação de refúgio também é um agravante desse quadro.”

Eu sigo, por exemplo, a fanpage Razan Comida Árabe, da familia Razan que veio da Síria, que me ensina sobre a cultura do país, na verdade um povo reunido numa área de interesse geográfico. Me lembra muito minha madrinha, filha de italiano com síria, e os quitutes da vó na casa deles. 

🙂

O estudo mostra que o cuidado que os refugiados têm com a comida é impressionante, ressalta a importância de chegar na receita original e a frustração quando não obtêm o resultado desejado.

“Entrevistamos um jovem que trabalhava em uma confeitaria na Síria e dedicou anos da vida fazendo pães, e disse que o que chamamos de pão sírio aqui não tem comparação com o original. Ele tenta reproduzir o pão sírio fabricado lá, mas sem muito sucesso, porque os ingredientes aqui são diferentes e isso interfere no sabor, na textura, em tudo.”

Outro exemplo é o sorvete sírio, uma mistura à base de leite, creme de leite, açúcar, água de rosas e pistache. Segundo a pesquisadora é um trabalho manual monstruoso, que exige muita força, e horas, às vezes dias de preparo.

 

“O sorvete é tão simbólico na Síria que presidentes de diversos países visitantes costumavam ir direto para a sorveteria mais conhecida de Damasco para provar a iguaria.”

No estudo, duas pessoas entrevistadas fabricavam o sorvete artesanalmente, uma em casa e a outra em um restaurante. “À mão, demora dias para ficar pronto, é muito cuidado, dedicação, e tem muito significado que eles façam esforços imensos para ter a comida”, explicou Scagliusi. A publicação mostra também um esforço financeiro por parte dos refugiados para adquirir os ingredientes e temperos da culinária síria, como o cardamomo e o pistache, que são caros no Brasil.

“Não é só pelo gosto, hábito ou costume, é o fato de estar aqui, num país com idioma diferente, numa cultura diferente, mas ainda ter o prazer de comer a comida. Outro exemplo é o churrasco sírio, que tem preparo e carnes diferentes, como a de cordeiro, muito valorizada na cultura síria, e vários tipos de quibes são preparados na grelha.”

 

Além da comida, outros fatores importantes que os refugiados mostraram são o lugar onde se fazia o churrasco, como era a casa, a sorveteria; também mencionaram frutas que não encontram aqui, como a janerek, que lembra um abacate pequeno e de casca verde; as verduras amargas, as favas, que também não acham aqui e disseram sentir falta.

Existe todo um repertório de alimentos sírios que não existe no Brasil.

Será que eles farão como meus ancestrais japoneses e como os bolivianos recentes e trarão para nossas hortas, mercados e casas ingredientes próprios?

A comida, segundo o estudo, traduz o que os sírios podem trazer com eles para esse novo lugar, num sentido figurado, do conhecimento sobre o alimento, e que a comida síria se estabeleceu como trabalho fixo para grande parte deles, que enfrentam muitas dificuldades financeiras.

USP publica estudo sobre refugiados sírios e alimentação

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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