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Este texto (Psicopata é você) me lembrou um certo Insight que Marcelo Arantes deixou para todos no debate do qual participamos no youPIX. Na ocasião, Marcelo, que é psiquiatra e entende como poucos sobre a opinião alheia (ele foi BBB, avaliem!), fez questão de forçar os convidados a falarem se compartilham mesmo sem pensar. Ou seja: é sem pensar ou você pensa e mesmo assim faz? Ele nos fez refletir e cada um dos debatedores (que orgulhosamente reuni no painel que tinha minha curadoria no youPIX 2014) respondeu à sua maneira.

Mas para mim o tema ficou e a cada comentário ou compartilhamento volto a pensar na provocação do meu psiquiatra favorito.

😉

Mariana Belém, que está aqui na foto comigo e com Marcelo, contou uma história da sua mãe, Fafá de Belém. Recém chegada ao Instagram (rede da qual Mari é super usuária, com dois perfis bem sucedidos e famosos), a artista, sempre simpática, subiu um update elogiando um restaurante. Mas, inocente, tirou foto da conta, falando que foi barato (em vista do que comeram e beberam, numa turma de 4 ou 5 amigos). Em poucos minutos, muitos comentários negativos e críticas abusivas. Dá pena porque, gente, fala sério, a pessoa é famosa e bem sucedida há décadas, ganha seu dinheiro honestamente e faz com ele o que quer. Outra coisa que perturba nos comentários é a parcialidade: como bem lembra Mari, muita gente posta foto com bolsas que custam 1 mil ou 3 mil reais, mas como não tem preço na etiqueta, a gente não comenta! A outra coisa é que a gente gasta fácil 200 reais saindo só em familia (casal, mais um filho). Eu gasto, admito e acho que mereço. Com amigos, já tive contas superiores a isso, mas não estou lá para ser julgada – e, talvez, seja mais gato escaldado com medo de água fria que Fafá!

“Eis o grande problema do mundo virtual: a falta do olhar alheio.

Nosso cérebro está adaptado para interagir face-a-face com os outros – nesse tipo de conversa recebemos uma série de informações em tempo real, se estamos agradando, se a pessoa está brava, triste, feliz, e assim ajustamos o conteúdo e também a forma de nosso discurso de forma automática e inconsciente.

Isso não apenas porque queremos agradar, mas também porque ver o sofrimento do outro nos incomoda, refreando certos impulsos. Quando não temos esses freios sociais, funcionamos – em parte – como os verdadeiros psicopatas. Essas pessoas têm dificuldade para reconhecer adequadamente as emoções negativas nas expressões faciais; e são incapazes de sofrer quando vêem alguém sofrendo, por carecerem de empatia.

Ora, nas redes sociais somos todos assim: não vemos as expressões de nossos interlocutores, tanto pela invisibilidade como pela assincronia do diálogo.

E sem esse feedback, não sofremos com a dor alheia, já que não a testemunhamos diretamente.

Creio que essa é a grande razão para tantas pessoas assumirem atitudes antissociais diante de uma tela e um teclado, até mais do que o anonimato. Esse, juntamente com a suposta impossibilidade de ser pego, pode até fazer com alguns ajam com maldade, mas sobretudo os predispostos a isso. É como o escritor H. G. Wells ilustrou em O homem invisível. No livro um cientista se torna criminoso após adquirir invisibilidade, mas sua personalidade já era fria e algo desumana – ser invisível somente o liberou para fazer o que gostaria. O anonimato permite que o sujeito que quer ser ruim, seja. Mas não é ele que vira a cabeça dos bons cidadãos.

Claro que a maioria das pessoas não sofre uma transformação no mundo virtual. Mas não se pode ignorar que essa nova forma de interação humana, na qual o exercício da empatia fica prejudicado, está associada a mais atitudes de desprezo pelos outros. Como acredito na capacidade de adaptação humana, acho que a solução virá com o tempo. Só não sei quanto.”

Compartilhar (comentar) sem pensar: até quando?

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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