Clodovil

Soube da morte cerebral do Clodovil num telefonema de uma colega que dizia: “ficamos tristes, de verdade, aqui em casa”. Pouco depois vi uma matéria na TV que mostrava cenas dele no programa TV Mulher e lembrei de várias coisas. Clodovil foi o primeiro homossexual com quem eu tive algum “convívio” e foi através dele, de sua forma de encarar o mundo e do seu jeito que eu comecei a perceber outros homossexuais que estavam à minha volta.

Fã de TV, já aspirante a jornalista sem nem mesmo sabê-lo, assistia diariamente ao programa TV Mulher, das inserções da sexóloga Marta Suplicy aos desenhos – à época indecifráveis para mim, mas nem por isso menos encantadores – de Henfil. E amava as roupas desenhadas por Clô, tanto quanto as respostas inteligentes e ácidas às cartas no programa, no qual ele podia dizer “minha filha, se você tem problemas com a bainha tem sorte, algumas pessoas não tem bainha para se preocupar”.


Numa entrevista eu soube que ele descobriu o talento para moda muito cedo. “Quando estava no último ano do normal, uma colega de classe perguntou por que eu não desenhava vestidos. Eu tinha 16 anos e não sabia que existia essa profissão. Peguei uma página de caderno e fiz 11 vestidos e levei numa loja no centro de São Paulo. A gerente comprou seis dos 11 desenhos. Ganhei mais dinheiro do que o meu pai me mandava de mesada. Foi aí que comecei a trabalhar com moda. Desisti de fazer faculdade de filosofia. Em 1960, ganhava meu primeiro Agulha de Ouro. ” Pergunto: quem fez isso aos 16?

Confesso que me diverti com o sofá de couro do gabinete dele em Brasilia e com a ironia de sua votação expressiva que acontecia num partido cristão – o PTC, Partido Trabalhador Cristão. Coisas que não terão o mesmo peso no futuro, num Brasil diferente que os meus filhos herdam justamente porque figuras como Clodovil ergueram a cabeça e foram à luta sem pudores ou fingimentos. Aparentemente sempre contra tudo e contra todos (mesmo sendo primeiro homossexual assumido a ser eleito deputado federal, declarava-se contra a Parada do Orgulho GLBT, o casamento gay e o movimento homossexual brasileiro), ele foi daquelas figuras que, como Dercy Gonçalves e suas “pornofonias”, fizeram do nosso país um lugar mais democrático e divertido.

Crédito da foto:  Sergio Lima (Folha Imagem), retirada do blog Meu diário na internet, mostra  decoração do gabinete do deputado Clodovil Hernandes na Câmara, com quadro dele e seus cachorros, o brasão da República nas almofadas e uma cobra como pé de mesa.

P.S. Como ficou claro, na minha infância não se questionava muito o acesso das crianças à programação de TV, como reflexionei hoje em Criança e TV no Mãe com filhos.

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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