Changeling

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Acompanhei a noite do Oscar calada, embora tenha lido muitos comentários no Twitter e notei algumas semelhanças entre brasileiros e norte-americanos (que eu acompanhava simultaneamente na tag #oscar2009): as pessoas amam ou odeiam o casal “Brangelina”. Como ocorre com outras figuras carismáticas me parece que não há um meio-termo quanto a eles. De minha parte, como apreciadora da Sétima Arte que busca no cinema a oportunidade de ter um momento de entretenimento, sinto-me fora desta confusão. Mas admito: gosto do fato de ambos os atores terem feito algumas boas escolhas “não-óbvias” em suas carreiras. Bonitos, rapidamente alçados à posição de celebridades, absurdamente vigiados e seguidos desde que se uniram, eles continuam optando por fazer filmes nos quais acreditam. Embora eu ache os de Angelina excessivamente panfletários como Beyond Borders (Amor sem Fronteiras, 2003) e A Mighty Heart (O preço da coragem, 2007) são bons exemplos do que ela faz quando acredita no personagem. E este foi o caso de Changeling (A Troca, 2008).

Vimos este filme ontem e, sinceramente, achei que Angelina merecia ser indicada ao Oscar de melhor atriz. A adaptação, tanto do comportamento e maneirismos dela quanto do figurino e ambiente (uma L.A. de 1928), estava convincente. Como ainda não assisti os outros filmes das indicadas a Melhor Atriz (Anne Hathaway, por O Casamento de Rachel, Mery Streep, por Doubt, Melissa Leo, por Rio Congelado e Kate Winslet, que levou a estatueta por sua atuação em The Reader), por isso não sei se a premiação foi justa. Mas sou fã de Kate Winslet e confesso que até torcia por ela – e fiquei feliz quando ela ganhou o Globo de Ouro por Revolutionary Road – e eu também queria ver a Frances McDormand concorrendo por Queime Depois de Ler.

Não achei o filme terrível, mas não sei se o veria novamente. O fato é que a história é verídica e, como mãe e mulher que trabalha, fica difícil não sentir certa empatia com a situação que a personagem Christine Collins vive: trabalha arduamente como chefe de um setor na área de comunicação (no final da década de 1920 ser chefe de telefonistas em Los Angeles devia ser um excelente cargo para uma mulher), cuida sozinha da casa e do filho de 9 anos. Creio que todas as mães que trabalham fora se identificaram com a cena na qual ela é escalada para trabalhar num sábado e precisa desmarcar o cinema que tinha combinado com o menino – e que é a última cena deles juntos no filme.

Meu marido e eu notamos também alguns detalhes da mulher que, embora traballhe e seja independente, é uma “moça de família” e diante das situações públicas se porta “comme il fault”, o que jamais aconteceria com uma personagem feminina atual. Este comportamento socialmente correto rende à personagem a real crise que o filme mostra: a bola de neve que se cria a partir de sua decisão de aceitar, ainda que provisoriamente e com todas as reservas, a guarda de uma criança que lhe foi entregue pela polícia como sendo seu filho perdido. Ciente desde o primeiro momento de que não é o filho que volta, ela não tem uma reação negativa perante os repórteres que acompanham o desfecho do caso e com isso dá margem a confusões e boatos sobre seu comportamento. E a polícia – que sim, é corrupa e incompetente – aproveita-se disso para fazer também com ela um jogo político que se baseava na aniquilação moral e mental das mulheres que discordavam de suas ações.

Collins conta com a grande mídia da época, o rádio, para se levantar, ter apoio e lugar contra o sistema (luta que, tanto quanto as perseguições de carros, é um clássico cansativo nos filmes americanos), contando com a fundamental a ajuda do reverendo Gustav Briegleb (John Malkovich, numa atuação cansativa). Em teoria sua missão seria desmascarar as sujeiras que o departamento de polícia da cidade varre para debaixo do tapete, mas na prática ele parece no filme como uma celebridade que abusa de casos com apelo popular, personagem comum na atualidade e que desconfiamos que já compunha a sociedade há 80 anos.

Triste é notar que pouca coisa mudou… me lembrou muito Arlete, a mãe do Guilherme Caramês, de Curitiba. E valeu para eu ter novamente, em termos mais maduros, uma conversa que tenho de tempos em tempos com meus filhos sobre os riscos de se confiar em estranhos – e que aprendi no livro Pais + Filhos = Companheiros de Viagem (de Roberto Shiniyashiki, Editora Gente) que devemos ter com eles desde cedo.

O que acontece quando você perde um filho e lhe devolvem um outro?  Christine Collins (abaixo, fotos verdadeiras dela e do filho) escolheu lutar. 😉

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P.S. Neste mês de março procurarei escrever com foco nas mulheres em homenagem ao Dia Internacional da Mulher. Espero não desagradar aos leitores do sexo masculino, nem enfurecer as mulheres que visitam o blog. 😉

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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