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Depois de muita negociação, que acompanhei pela mídia especializada e por relatos de Aline Kelly, do Inspiração Sustentável, que foi a reuniões sobre o fechamento da Av Paulista, ontem passei por lá no primeiro domingo em que a rua mais emblemática da cidade ficou oficialmente sem carros.

Foi o pontapé das operações do programa Rua Aberta, que reserva o espaço de vias da Capital para pedestres e ciclistas. Foi assim que, das 9h às 17h,  os dois sentidos do trecho da Av Paulista entre a praça Oswaldo Cruz e a rua da Consolação virou um espaço para lazer, prática esportiva e convivência.

(reunião da Paulista Livre por @alinekelly do @isustentavel)

(reunião da Paulista Aberta por @alinekelly do @isustentavel)

O que Aline tinha me contado das reuniões que presenciou, foi que de fato a prefeitura abriu um diálogo com os moradores, os comerciantes e os ciclistas – e venceu a turma que acredita que estabelecer Ruas de Lazer é uma coisa boa para a cidade, boa para todos.

No meu bairro, a Mooca, há um debate para escolher qual seria a melhor Rua de Lazer e me deixa feliz ver que as pessoas reagem bem à ideia de termos um espaço assim, para reviver o bairro e reunir os vizinhos.

Parece que muita gente concorda com a gente:

De acordo com uma pesquisa do IBOPE (28/8-5/9), 64% dos paulistanos são favoráveis ao uso de vias como a Avenida Paulista por pedestres e ciclistas aos domingos. A iniciativa amplia a oferta de espaços de lazer na cidade e deverá ser estendida para todas as subprefeituras.

Neste mês, além da avenida Paulista, um trecho da rua Benedito Galvão (na altura da Praça Albino Francisco de Figueiredo), em Aricanduva, e a avenida Luiz Gushiken, em M’Boi Mirim, também estiveram abertas para pedestres e ciclistas. As vias dessas regiões foram escolhidas pelos moradores em audiências públicas realizadas em setembro em 25 das 32 subprefeituras, como a que tivemos por aqui.  Veja detalhes das alterações de circulação no site da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego).

rua das flores em curitiba foto de mathiew bertrand struck

Aprendi a sair sozinha pelas ruas numa capital que tem uma rua completamente fechada para o trânsito bem no centro da cidade. Na verdade, é pouco mais de 3 km, mas a rua XV de Novembro, conhecida em Curitiba como Rua das Flores, tem um trecho super central fechado para a circulação de automóveis e exclusiva para pedestres desde 1972 e foi uma das principais obras do primeiro mandato do então prefeito Jaime Lerner. Lá fiz atividades de pintura quando era criança, entrava no Bondinho para ver livros, comprei  meus primeiros insumos de costura nas ruas de lá, meu primeiro encontro com meu marido foi num restaurante da Rua XV e anos depois a Rua das Flores era meu caminho para faculdade, no antigo prédio da UFPR.

bondinho de curitiba

No meu primeiro dia das crianças, em 12 de outubro de 1973, o Bondinho, que representa a história da frota de bondes de Curitiba, foi instalado na Rua das Flores. Eu morava meus pais pertinho dali, na Praça Rui Barbosa e aposto que a babá me levou para ver. Como acontece agora na Rua Aberta em São Paulo, a ideia era dar liberdade às famílias enquanto os pais passeavam.

Acho que é minha experiência curitibana que me faz pensar que algumas ruas poderiam ser assim, fechadas para o trânsito e livres para as pessoas.

🙂

E sabem que alguns países têm feito esta mudança?

Vi um levantamento sobre cidades que a gente sonha visitar (ou voltar) e que estão indo nesta linha.

Foto de Bill Lindeke no post Three Urban Design Lessons from Sweden. Como ele destaca, notem a ausência de placas de trânsito para carros.

(Foto de Bill Lindeke no post Three Urban Design Lessons from Sweden. Como ele destaca, notem a ausência de placas de trânsito para carros.) 

  • na Suécia: Estocolmo foi a pioneira no estabelecimento de uma zona de tráfego limitada em 1996. Desde agosto de 2007, depois de um referendo com sua população, todas as entradas e as saídas da área de tráfego limitado estão equipadas com pontos de controle automáticos que funcionam com um sistema de reconhecimento do número da placa. Todos os veículos que entram ou saem da área de pagamento, com poucas exceções, têm que pagar entre 1 e 2 euros (3 a 6 reais) sobre o horário de acesso, entre 6h30 e 18h29. O pagamento máximo diário por veículo é de 6 euros (18,45 reais). O pagamento pode ser efetuado de vários modos, mas rigorosamente dentro de 14 dias, e não é possível pagar nos pontos de controle. É o Imposto de congestionamento de Estocolmo (Ou Trängselskatt i Stockholm, em sueco), um sistema de pedágios urbanos que busca reduzir o congestionamento do trânsito e diminuir a poluição ambiental (atmosférica e acústica) no centro da cidade. Os fundos arrecadados são utilizados para a construção de novas vias.

London_Congestion_Charge,_Old_Street,_England

  • no Reino Unido: para lidar com o tráfego no centro, Londres aplica a taxa de congestionamento, um imposto cobrado dos veículos motorizados que operam dentro da Zona de Pedágio ou Congestion Charge Zone (CCZ), circundada pela London Inner Ring Road, no centro da cidade, de segunda à sexta entre às 7h e às 18h. Os finais de semana, feriados e o período entre o Natal e o Ano Novo não são cobrados. A cobrança padrão é de 14,6 euros (44,9 reais) por dia para cada veículo que entrar dentro da zona, com uma multa que varia de 82 a 247 euros (252 a 759 reais) para quem não pagar. A cobrança é baseada principalmente no reconhecimento das placas. Existem exceções, entretanto. Os veículos com 9 ou mais lugares, moto-triciclos e veículos de recuperação de ruas não pagam a tarifa, enquanto as pessoas que moram dentro ou próximas da área podem ter um desconto de 90% na tarifa.

Umweltzone

  • na Alemanha: desde 2008, é preciso ter uma placa de identificação ambiental, imprescindível para entrar na Umweltzone (Zona Ambiental), ou seja, as zonas verdes das grandes cidades alemãs. No caso de Berlim, esta área se encontra dentro do anel que delimita o centro e inclui os bairros Mitte, Charlottenburg, Friedrichshain e Kreuzberg. Os veículos sem placa ambiental que circularem pela zona restrita são multados em 40 euros (123 reais) e um ponto na carteira de motorista, isso se o veículo não superar os valores de emissão permitidos. O adesivo necessário para transitar pela área restrita custa 6 euros (18,45 reais) para veículos alemães e 12,5 euros (38 reais) para os estrangeiros.

Área-C-em-Milão-zona-de-tráfego-limitado

  • na Itália: os centros antigos das principais cidades tiveram seu acesso restringido, com a intenção de preservar seu patrimônio histórico. A área restrita é chamada de Zona de Tráfego Limitado (ZTL), na qual só podem entrar os veículos com permissões especiais, geralmente dadas aos moradores, pessoas que trabalham na área restrita e hóspedes de hotéis. Em muitos casos, existem sistemas de vigilância automática para controlar o acesso e multar os transgressores. Em geral, a restrição aplica-se somente de segunda à sexta no horário comercial, ainda que às vezes seja utilizado o rodízio de carros de acordo com o número da placa, proibindo a passagem para os veículos que terminarem em número par ou ímpar, dependendo da ocasião.
(A rua Ermou perto da Praça Syntagma em Athenas lembra a minha Rua das Flores. Foto de Dimorsitanos.)

(A rua Ermou perto da Praça Syntagma em Athenas lembra a minha Rua das Flores. Foto de Dimorsitanos.)

  • na Grécia: desde 1982, o trânsito de automóveis é restrito na área central de Atenas que corresponde ao anel interno de acesso que circunda a área metropolitana. O objetivo principal da medida foi diminuir os altos níveis de poluição do ar, produzidos pelo grande congestionamento do trânsito naquela época e pelas condições meteorológicas do vale no qual se situa a cidade. O sistema restringe a circulação de segunda à sexta de forma alternada para os veículos com placas terminadas em números pares e ímpares. Atualmente estão isentos do rodízio os ônibus, táxis, motocicletas, bicicletas, os veículos alugados e os visitantes com placas de outros países.
(O balão de ar quente sobre o Parque André Citroën que monitora a qualidade do ar em Paris. Foto de Aero4.)

(O balão de ar quente sobre o Parque André Citroën que monitora a qualidade do ar em Paris. Foto de Aero4.)

  • na França: em Paris, uma das iniciativas para reduzir a contaminação produzida pelo tráfego foi a instalação de um balão permanente sobre o parque André-Citroën, visível a 40 quilômetros, que vai da cor verde à vermelha de acordo com o grau de poluição. Com níveis de poluição da cidade alcançando níveis históricos, a cidade aplicou em 2015 um teste de um dia para seus moradores parecido com nosso rodízio de veículos paulistano: só poderiam circular os veículos com placas ímpares em todo o perímetro definido, não poderiam entrar os caminhões com mais de 3,5 toneladas, com exceção dos caminhões de lixo ou os frigoríficos de armazenamento de alimentos e só foram liberados sem restrições os veículos limpos (elétricos, híbridos ou movidos a gás). A infração à norma era paga com uma multa de 20 a 50 euros (61 a 153 reais) e, para incentivar ainda mais os parisienses, as viagens de metrô e ônibus foram gratuitas durante vários dias. A Lei ZAPA proíbe a entrada na zona urbana para carros 4×4, carros antigos à diesel e grandes caminhões. Em 10 anos, o ex-prefeito socialista Bertrand Delanoë (2001-2014) tirou 75 hectares de terreno dos carros para entregá-los aos pedestres, para as bicicletas e outros meios de transporte ‘limpos’.
(Rua Fuencarral, em Madri, exclusiva para pedestres desde 2006. Foto: Juan Bosco Marcel) -

(Rua Fuencarral, em Madri, exclusiva para pedestres desde 2006. Foto: Juan Bosco Marcel) 

  • na Espanha, a Prefeitura de Madri acaba de lançar um Plano de Mobilidade, válido até 2020, que pretende “restringir a capacidade de circulação de carros e de estacionamento”, aplicando medidas de “discriminação positiva”. Alguns exemplos são aumentar o preço dos parquímetros (até que custem o mesmo que os estacionamentos públicos) e limitar o tempo máximo de duas horas para cada carro estacionado; aumentar em 25% as áreas para pedestres, multiplicar as faixas de ônibus e dar prioridade a eles nos semáforos; além de delimitar três novas zonas às que somente moradores podem ter acesso.

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