Sobre dependência química e os grupos de apoio

“Essa Copa foi a mais importante da minha vida. Eu vim com o desafio de ficar sóbrio todos os dias.”

As palavras são do jogador da seleção brasileira na minha infância e comentarista de esporte durante toda vida dos meus filhos que hoje fez o inimaginável: calou a boca daquele comentarista!

E ao falar ao vivo e em horário nobre sobre dependência química, tira da invisibilidade social esse assunto tão valioso!

Parabéns e força para ele e para quem encara essa realidade no cotidiano e tem coragem de assumir como uma questão de saúde, não uma fase, uma brincadeira ou um desvio de comportamento.

Por ter visto pessoas próximas sofrerem com dependência química na minha infância e lutarem muito para conseguir reagir sozinhos, eu sempre dei valor para trabalhos como o AA.

Na minha igreja, um projeto que tem como base o modelo de encontros do AA atua ajudando gratuitamente muitas pessoas em encontros semanais, apoiando quem deseja se libertar de dependências diversas, inclusive emocionais. É o Celebrando a Recuperação.

A dependência química é um mal terrível – e quem a enfrenta, seja na condição de dependente, seja na condição de familiar, sabe bem do que estou falando. Nessa batalha, toda ajuda não é apenas bem-vinda, mas imprescindível.

Recebi um material no qual o advogado Paulo Leme Filho, fundador do Movimento Vai Valer a Pena, organização que atua na conscientização sobre o abuso de álcool e outras drogas, contestando uma entrevista publicada pela revista Época que diz que o AA criou uma “indústria” de US$ 35 bilhões apenas nos Estados Unidos e que “ganha” com o problema.

Fui checar, claro, pois é do meu feitio conferir. No artigo, descobri que Gabrielle Glaser, apresentada como especialista na indústria dos tratamentos contra dependência química nos EUA, e critica fortemente não só o anacronismo do modelo do AA, segundo ela baseado até hoje num livro publicado em 1939. Ela critica também o viés religioso do modelo – e daí sim, eu relembrei do CR que citei logo no começo do texto.

Abre aspas para Gabrielle Glaser:

“A ideia em voga é que a pessoa deve passar 28 dias internada, sem consumir álcool ou drogas. É um momento de desintoxicação. Durante esse período, ela deve seguir os 12 passos descritos pelos Alcoólicos Anônimos no que é conhecido como O grande livro. Trata-se de um livro publicado em 1939 — e que orienta os tratamentos ainda hoje. Cinco desses 12 passos mencionam Deus. E, francamente, a maioria deles lembra uma oração. O livro entende o alcoolismo, ou o vício em outras drogas, como um sinal de fraqueza moral. Para superar o problema, e manter-se sóbria, a pessoa deve render-se à autoridade divina. Ora, isso não é ciência. Isso é religião. Essas clínicas cobram US$ 40 mil mensais de seus pacientes. Mas não vendem ciência. Elas vendem um conjunto de crenças.”

Há muita controvérsia e eu, como vivi na família dramas, penso o seguinte:

Dependência química é uma doença. Não é sem-vergonhice, preguiça, falta de objetivo de vida. É uma doença que precisa ser tratada por pessoas capacitadas e que, como no caso de Diabetes ou outras doenças crônicas, pode precisar de apoio e de uma vida regrada para sempre.

Isso exige esforço consciente de todos ao redor, não só de não colocar a “pessoa em remissão” em situação de “tentação”, mas de incluí-la na turma, nas comemorações, na vida.

O que Paulo Leme Filho diz em sua réplica a reportagem e me fez escrever aqui foi o seguinte: que eu saiba (e ele reforça isso), AA, Narcóticos Anônimos, Al-Anon, Nar-Anon e Amor-Exigente são grupos gratuitos e não clínicas ou comunidades terapêuticas.

Mas, como falei antes, muita gente precisa de apoio médico, de suporte de uma clínica, de terapia de longo prazo e de apoio. Nem sempre as família, já desgastada com a vivência com o drama de ter um dependente no cotidiano, consegue dar este apoio.

A outra coisa que ele cita que eu gostei foi a parte do voluntariado. No mundo todo, milhões de pessoas anônima e gratuitamente, trabalham para que outras possam voltar a ter uma vida digna e produtiva, e o fazem pelo simples fato de que perceberam que as primeiras a serem ajudadas são elas próprias.

São grupos que, longe de merecer qualquer ataque, precisam ser fortalecidos, inclusive com o apoio do Estado e, sobretudo, da gente.

E por falar no Estado, sabiam que há um serviço público para isso? Busque informações no AMA ou UBS (o “postinho de saúde do SUS”) mais perto da sua casa. Em São Paulo, os Centros de Atenção Psicossocial estão listados aqui.

Sobre o CR, para quem ficou curioso, o grupo funciona perto do metrô Barra Funda, em São Paulo, e a parte aberta dos encontros são como este do vídeo, no qual Roseni Welmerink começa falando do livro “Amor Líquido” de Zygmunt Bauman, entre outros olhares que já indicamos aqui no blog.

Aqui tem mais, com Ed Renê Kivitz.

Você pode gostar também de ler:
The following two tabs change content below.
Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

Comentários no Facebook