“Para mim tudo continua na mesma. Quem agora precisa se salvar sou eu.”

Órfão e analfabeto, jovem que achou Brenda quer ser bombeiro: http://folha.com/no1111147

Não sei o quanto este caso, infelizmente bastante comum em grandes cidades do mundo todo, reverberou no restante do Brasil, mas aqui  vimos muitos cartazes em busca da menina Brenda, que, aos 4 anos, desapareceu depois de um culto religioso na região do Cambuci, bairro próximo do centro e da Mooca. O caso me tocou por muitos motivos – sou mãe, já tive sustos de perder os meninos por poucos minutos em shoppings e hipermercados e moro no bairro onde a família reside – e acompanhei as notícias desde o dia 10 de junho, quando a menina sumiu e sua mãe, Geisa, começou a aparecer nos notíciários.

O que me chamou atenção desde o início foi um detalhe da história da mãe que se repete na história do herói que salvou a menina nesta semana: ambos são adultos completamente analfabetos.

Como podemos viver num país em que se marchas são feitas para lutar por diversos direitos (muitos justos, vale pontuar) e não nos unirmos em alto e bom som contra a realidade que deixa tantas pessoas abandonadas e à mercê da sorte, sem o mínimo de conhecimento e capacitação para sobreviver?

Explico: quando Brenda sumiu vi a mãe repetir, em várias entrevistas, que se distraiu porque foi pedir ajuda para ler alguma coisa, visto que ela não é alfabetizada e conta com a ajuda de estranhos quando necessita de informações mais precisas. Na reportagem que mostro no início do post o jovem que reconheceu a menina conta o mesmo, é analfabeto, mesmo tendo idade para trabalhar e, tristemente, se manter sozinho visto que a mãe morreu e ele não conheceu o pai.

Ao ver isso eu fico realmente indignada!

Por quê?

A gente perde tempo pensando em tantas coisas sociais, discutindo o sexo dos anjos, quando tem jovens assim por aí, aos 17 anos (menor de idade), órfão desde os 12 e completamente analfabeto. Fiquei com vontade de precisar de mais funcionários aqui para poder contratar, já que moro e trabalho na Mooca, onde Alex, Geisa e Brenda residem.

Mas quem contrata analfabetos, menores de idade e órfãos? Os vendedores ambulantes que fogem do rapa… ou empresas que não respeitam as leis trabalhistas. E quem verifica se eles respeitam as leis? Quem vai conferir como estão os registros funcionais? Quem foi verificar o que foi feito deste jovem desde o óbito de sua mãe, há 5 anos? Quem algum dia prestou atenção no fato do menino não frequentar a escola?

Quando vamos reagir e enfrentar de fato as bases dos problemas sociais no Brasil, que estão na educação mais básica?

Quando deixaremos de ler mensagens como o desabafo do moço, que posto abaixo?

“É claro que me senti um herói. Mas por várias vezes já chamei ambulância para ajudar, quando vi acidente na rua. Meu sonho era ser bombeiro, mas vai ser difícil.
Às vezes, fico pensando na vida, vem tudo, o serviço, minha mãe, esse negócio da alfabetização, caramba, tudo numa pessoa só, foda.
Para mim tudo continua na mesma. Quem agora precisa se salvar sou eu.”

P.S. Cada um vê as coisas com um viés, não é mesmo? Minha irmã, Tiffany, escreveu um post no @blogdati sobre o mesmo caso, mas focando na visão das crianças e da necessidade de ensinarmos aos pequenos como reagir quando se perderem.

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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