Caminhos para melhorar o aprendizado

Para ler, pensar e decidir arregaçar as mangas e mudar:
“O desabafo de um professor sobre a violência cotidiana da escola pública – onde parte dos adolescentes não sabe ler nem escrever”
Crime sem sangue, por Eliane Brum

Há alguns dias eu estive no evento de lançamento do projeto “Caminhos para melhorar o aprendizado”, um site que pretende oferecer orientações aos gestores da Educação. Resultado de um extenso trabalho coordenado pelo pesquisador Ricardo Paes de Barros, o espaço virtual concentra as principais conclusões de 165 estudos nacionais e internacionais sobre os impactos de políticas de Educação no aprendizado dos alunos.

Eu já tinha lido algumas reportagens sobre avanços da educação brasileira nos últimos 15 anos (e para quem quiser se aprofundar, indico uma edição especial da revista Nova Escola), que traziam indicativos que nos fazem lembrar como evoluímos. Mas voltei do encontro do Todos Pela Educação e Instituto Ayrton Senna nem desanimada, nem contente, apenas ciente de que o trabalho que temos pela frente em prol da educação no Brasil é hercúleo.

E como começar? É sempre válido mostrar para quem não convive com a realidade da educação brasileira que a realidade é dura e que os professores de instituições públicas não conseguirão fazer muito sozinhos. Quando vejo reportagens como a que cito na abertura do post penso que a sociedade precisa encarar esta realidade e reagir fazendo mais do que tirar seus filhos das escolas públicas e confiar que o futuro será diferente porque parte da população terá sua formação assegurada pelo ensino particular.

É realmente arregaçar as mangas, apoiar projetos, doar dinheiro ou tempo e decidir que é hora de mudar.

E ainda dá tempo de mudar, mas é preciso mesmo que assumamos esta meta (a de uma evolução na qualidade da educação no Brasil) como uma das diretrizes de nossa sociedade. Segundo as pesquisas apresentadas no encontro – com resultados que pode ser acessado pela internet na síntese dos estudos em 25 verbetes sobre políticas educacionais nas áreas de recursos da escola, plano e práticas pedagógicas, gestão da escola e gestão da rede de ensino e, mais importante, as condições das famílias – podemos ver onde cada um pode contribuir para a implementação de políticas públicas possíveis e positivamente impactantes e também de propor um debate com todos os interessados, para que seu conteúdo possa ser melhorado continuamente.

25 anos em revista - uma radiografia completa da educação brasileria desde 1986 na revista Nova Escola

Mas, enfim, ouvimos algumas coisas boas por lá. Dentre os resultados das análises destes estudos, podem ser destacados quatro:

1 – Qualidade do professor: os estudos realizados na última década deixam claro que a qualidade do professor tem grande impacto sobre o desempenho educacional dos alunos. Um aluno que tem um bom professor (um docente entre os 20% melhores da rede) pode aprender durante um ano letivo 68% a mais do que se tivesse um professor ruim (entre os 20% piores da rede).

2 – Tamanho da turma: evidências apontam que uma redução média de 30% no tamanho da turma leva a um aumento de 44% no que tipicamente um aluno aprende ao longo de um ano. O impacto da redução da quantidade de alunos por turma depende do tamanho original do grupo. Reduzir uma turma grande gera mais impacto sobre o aprendizado do que fazer o mesmo em uma turma que já é pequena. Além disso, os efeitos variam de acordo com o ano escolar. Estudos apontam que para o 6º ano do Ensino Fundamental, por exemplo, os resultados são significativos em classes que tenham mais de 30 alunos. Para o Ensino Infantil, por exemplo, os efeitos dessa redução já começam a aparecer a partir de 20 alunos.

3- Composição das turmas: se as escolas devem agrupar os alunos em turmas homogêneas ou heterogêneas é um tema controverso, sobretudo porque cada tipo de composição de turmas tem suas vantagens e desvantagens. A escola tem entre seus objetivos desenvolver habilidades principalmente em duas dimensões: cognitiva (que chamamos aqui de aprendizado) e social e de cidadania. Como o recorte desse projeto é o de estudar o impacto no aprendizado, os estudos indicam que, mantendo-se constante a qualidade do professor e do material didático, o fato de estar em uma turma homogênea aumenta o aprendizado, tanto no Ensino Fundamental como no Médio. O ganho no desempenho médio equivale a 35% do que um aluno aprende tipicamente em um ano.

4 – Calendário escolar: há evidência científica de que não cumprir os dias letivos previstos pode aumentar a taxa de repetência, especialmente dos alunos de pior desempenho. Uma das explicações para esse resultado é que, para cumprir o currículo estipulado em um ano letivo mais curto, o professor aumenta o ritmo das aulas, passando maior volume de conteúdo em menos tempo, o que prejudica o aprendizado, principalmente, o dos alunos que apresentam maior dificuldade. Outra explicação é que o currículo é apenas parcialmente cumprido.

E para que servem estes dados?

Segundo Viviane Senna, “a intenção do projeto é que os gestores tomem contato com as informações e decidam se as idéias apresentadas podem ajudá-lo em sua gestão. O impacto de muitas das políticas apresentadas é mais fortemente dependente da vontade política e da competência técnica para serem realizadas do que de recursos adicionais. É o caso das políticas de cumprimento do calendário escolar, por exemplo, com altíssimo impacto no desempenho dos alunos.

E como se concluiu tudo isso?

O projeto “Caminhos para melhorar o aprendizado” foi elaborado a partir de evidências sobre o que é ou não eficaz para melhorar o aprendizado dos alunos. Um grupo de 17 pesquisadores de quatro renomadas universidades brasileiras – Fundação Getúlio Vargas (FGV), Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec), Universidade de São Paulo Universidade (USP) e Federal de Minas Gerais (UFMG) – coordenado pelo pesquisador Ricardo Paes de Barros, analisou cerca de 600 pesquisas e selecionou as que cumpriram com os critérios técnicos definidos pela equipe para compor os verbetes e recomendações.

Foram considerados apenas os estudos com amostra de pelo menos 2.000 pessoas ou com cem escolas/sistemas educacionais. Todas as pesquisas que não incluíam alguma forma de controle para o ambiente socioeconômico ou que não apresentavam medidas precisas das estimativas de impacto foram excluídas. Os estudos que tratam do contexto nacional tiveram prioridade.
Ao todo, 165 (140 internacionais e 25 nacionais) atenderam aos critérios de seleção e formam a base dos 25 verbetes que compõem o “Caminhos para melhorar o aprendizado”. Cada um desses verbetes é composto por um resumo, que reúne as conclusões das pesquisas, suas limitações e possibilidades de ação. Também há notas técnicas sobre a confiabilidade dos estudos, a possibilidade de generalização para outros contextos e a bibliografia utilizada.

E a conversa está apenas começando. Nesta terça estarei na sede do Todos pela Educação para uma reunião intitulada Educação em Pauta, encontro entre jornalistas e especialistas para falar sobre Plano Nacional de Educação e que contará com a apresentação de Ricardo Martins, membro da Comissão Técnica do Todos Pela Educação e assessor parlamentar, sobre a viabilidade das metas do Plano e de Michel Neil, da Patri, consultoria em Relações Institucionais e Governamentais, sobre a tramitação do Projeto de Lei na Comissão Especial. Comentam também o tema Carlos Abicalil, (Secretário de Articulação Política do Ministério da Educação – MEC), Antonio Carlos Ronca (presidente do Conselho Nacional de Educação – CNE), Thiago Peixoto (Secretário de Educação do Estado de Goiás, pelo Conselho Nacional de Secretários de Estado de Educação – Consed), Cleuza Repulho (Secretária Municipal de Educação de São Bernardo, pela União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação – Undime), Mozart Neves Ramos (conselheiro do movimento Todos Pela Educação).

Devo tuitar de lá, tá? Interessados fiquem ligados no @avidaquer e @samegui.

😉

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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