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Três textos surgiram para mim como um “resumo” (longo, é verdade) do que temos vivido nas mídias digitais atualmente.

Num debate do qual participei há alguns dias no qual se debatia a saúde da mulher, entrei em confronto diplomático com uma pessoa que insistia na tese de que “expomos muito nossas vidas” nas redes sociais e que isso era resultado inequívoco de “falta de opinião, vazio existencial e manipulação da indústria do consumo”.

É verdade, essas coisas estão presentes em muitos updates que vemos por aí. Mas tem um lado incrível nesta realidade: não somos obrigados a engolir nada disso.

A democracia que tanto desejamos se mostra mais presente e visível na invasão das pessoas comuns aos canais de redes sociais, que, no caso do Brasil de 2015, traduz-se em Facebook e Instagram. Ao relatar sua vida cotidiana ou replicar em compartilhamentos os updates alheios com os quais concorda, cada um está traçando um retrato de si mesmo, algo que era um sonho para nossos pais e avós que viveram sob um regime ditatorial há poucas décadas.

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E até os regimes ditatoriais surgem estes vislumbres de um “iluminismo digital”. No texto de Hassein Derakhshan (o pai-blogueiro do Irã, editor de hoder.com compartilhado no ‘Medium’) vemos um retrato da mudança que uma nova ditadura nos traz de forma silenciosa, a da centralização do Facebook.

“O Facebook gosta que você permaneça nele. Os vídeos já são embutidos no Facebook, em breve, artigos externos também serão embutidos também, com o projeto de “Instant Articles” (Artigos Instantâneos). A visão do Sr. Zuckerberg é a de um espaço insular que consuma toda sua atenção — para que ele a venda para os anunciantes.

Agora, com aproximadamente 1.5 bilhões de usuários ativos mensalmente e um crescimento particular em lugares menos desenvolvidos, o Facebook é a Internet para muitos — 58% dos Indianos e 55% dos Brasileiros acreditam que o Facebook É a Internet, de acordo com uma pesquisa publicada pelo Quartz.

 O pior é que Mark Zuckerberg provou não ser um fã de links, ou hyperlinks. Com o Facebook, ele não encoraja que você crie links. No Instagram, ele simplesmente os proibiu. Ele está espremendo o hyperlink, portanto, matando a rede de textos externos interconectada e descentralizada conhecida por World Wide Web.”

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O resultado mais grave disso creio que a gente vive no jornalismo, que tende a morrer. Como resumiu Hassein Derakhshan, “a mídia digital foi forçada a gerar histórias tolas e “virais” para sobreviver, causando um golpe severo no jornalismo sério”. E pior, por isso reforço a ideia da ditadura que citei acima: 

“(…) como resultado dessa competição de popularidade, visões minoritárias cada vez engajam menos pessoas. Isso é particularmente alarmante em um mundo enfrentando a séria ameaça de grupos religiosos e nacionalistas radicais. O algoritmo secreto do Facebook tende a nos abastecer com mais do que já gostamos, reforçando nossos pontos de vista enquanto reduz nossa exposição a ideias desafiadoras e divergentes.”

Outro ponto que levantei no meu debate e que uso para rebater muitas críticas à eventual frivolidade feminina na internet é que pela primeira vez mulheres comuns sentem-se no direito de ter voz, de concordar ou discordar publicamente, de registrar sua história para quem quiser acompanhar.

Isso não foi fruto dos blogs, embora muitos influenciadores da minha “geração digital” acreditem que é. Blogueiros eram pessoas que, de um jeito ou de outro, juntaram a vontade de dar opinião com a convicção de que escreviam bem o suficiente para exporem suas ideias em textos públicos. Eram uma parte da elite cultural de cada região.

Os micro-influenciadores que surgiram neste mundo de Mark Zuckerberg no qual os hiperlinks não são mais a moeda mais valiosa são pessoas comuns e suas vozes nos trazem uma percepção muito mais real do mundo. Aos trancos e barrancos, aprendendo com os erros ou mudando radicalmente a forma como nossa “economia digital” se sustenta, eles estão fazendo sua própria revolução social.

Então temos muitos novos influenciadores digitais.

Aqui entra o segundo texto que me tocou nos últimos dias.

Bia Granja, “guru de dez entre dez profissionais de mídias sociais no Brasil”, fez um texto que ela mesma apresentou como um guia para imprimir e colocar na parede do escritório: como identificar um influenciador digital.

E ela começa da melhor maneira, afirmando que

“Dá pra identificar um influenciador quantitativa e qualitativamente, mas o peso maior sempre vai residir no segundo item. Ferramentas automáticas podem facilmente determinar o impacto quantitativo de um influenciador, mas é na parte quali que está a verdadeira inteligência.”

São 45 pontos sintéticos e eu trago para cá os primeiros:

1) Um influenciador é aquele que influencia.

2) Influenciar, do dicionário que eu achei no Google, é a “ação de um agente físico sobre alguém ou alguma coisa, suscitando-lhe modificações”.

3) Pessoas “da internet” não são influenciadoras DIGITAIS, elas são influenciadoras e ponto! Não existe mais on e off.

4) Para que uma pessoa se transforme em influenciadora, é preciso que ela esteja constantemente produzindo conteúdo.

5) E o que define esse conteúdo é a paixão e a autenticidade com que ela o produz.

6) Um influenciador produz conteúdo com uma frequencia alta, determinada ou consistente.

7) Se um influenciador não é apaixonado pelo que faz, ele não é um influenciador, ele é um oportunista.

8) Um influenciador sabe que criou uma marca e que precisa zelar por ela.

9) E entende também que criou uma nova profissão e faz parte da construção de um novo mercado.

10) Um influenciador pensa na perenidade do seu trabalho e em como manter sua indústria saudável.

11) Só existe uma coisa que um influenciador ama mais do que o conteúdo que cria: sua comunidade de fãs.

Mas quem influencia quem e que peso isso tem para nossa vida real?

Na noite em que o Presidente da Câmara autorizou o processo de impeachment da Presidente do país, vi updates de “pretensos influenciadores” sugerindo que se deveríamos ser governados por um youtuber popular ou pelo goleiro do Palmeiras, que fez o gol da vitória, já nos penaltis, contra o Santos.

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Nesta hora, olhando a tela do celular onde os tuites rolavam rapidamente, lembrei de uma frase de Umair Haque que li no Medium.

“Você sabe e eu sei: meros vencedores não são verdadeiros líderes.”

Os líderes são os que nos inspiram, como os jovens que ocupam as escolas de São Paulo nas últimas semanas. Eles nos inspiram a ir além.

O movimento dos estudantes no é uma das coisas mais importantes que está acontecendo neste país.

Sabem por que? Eles são líderes natos e estão reagindo ao que consideram errado, coisa que há muito tempo nós deixamos de fazer.

Nesta semana peguei um taxi e o motorista, um senhor de certa idade que me contou que estava dirigindo taxi há poucos meses, reclamava das concessões de novas permissões para taxistas em São Paulo, opinando também sobre o caso do Uber em Porto Alegre, no qual um motorista sofreu uma emboscada e quase foi agredido até a morte por 12 taxistas para dar o exemplo para quem “ousar” ser motorista sem ser taxista por lá. Truculento, mas em pouca coisa diferente do que tem sido as agressões ligadas à educação no Brasil e ainda inferior em violência ao que sabemos que acontece na periferia, como no caso dos jovens assassinados no Rio nesta semana. Na conversa, que terminou com ele me dizendo que se não conseguir ser sorteado na concessão em janeiro pretende se cadastrar no Uber, eu o chamei várias vezes para uma realidade sobre a qual insisto muito aqui no blog desde 2005: a gente precisa reagir, se indignar, falar em alto e bom som que discordamos. E ir pra rua, pra reunião na subprefeitura, para o conselho participativo, para a associação de moradores, arregaçar as mangas e insistir numa mudança. Se não fazemos isso, como podemos reclamar?

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Os líderes são os que falam alto e opinam, são os que dão a cara a tapa, os que falam o que a gente queria falar, são os que se informam e traduzem suas leituras para quem “não tem tempo” de ser tão CDF. Como disse Haque

Líderes não nos levam para algum lugar específico, e sim a um destino diferente: aos nossos melhores e verdadeiros eu. É um ato de amor diante da incerteza do mundo.

Nós precisamos de uma nova geração de líderes. E precisamos dela agora.

Nós estamos no meio de um grande abandono. Uma falha de liderança histórica, precisamente quando mais precisamos de líderes. Por isso é difícil, olhando à nossa volta, lembrar o que significa liderança. Estamos cercados por especialistas em vencer: eleições, negócios, títulos, bônus, empréstimos, lucro. E é comum nos dizerem: estes são os modelos que devemos seguir, porque o prazer e a acumulacão são tudo o que realmente importa.

Fuja disso e solte sua voz. Você pode ser o líder que estão procurando ao seu redor. Mas vá ciente: é preciso estar no campo de batalha também.

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Comments

  1. Sara Martinez Says: dezembro 4, 2015 at 3:17 pm

    Excelente texto, Sam!

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