Brincar é ter liberdade de ser e criar

“Sua família é adepta de brinquedos pedagógicos?”, perguntou @mamaeviverbembom.

Na hora lembrei que tenho até um post sobre isso.

Acredito que educativo, bonito e sustentável é o “brincar desestruturado”. Confesso que tenho minhas críticas a esta mania de brinquedos educativos (e à moda sustentável também) porque vejo muita gente simplesmente redirecionando seu consumismo para estas marcas sem, de fato, rever o consumo exagerado que é a grande questão sustentável na realidade atual. Para mim, sustentável é deixar a criança brincar, livremente, sem imposição de brinquedos e orientação de brincadeiras por parte dos adultos ao seu redor. É mais sustentável a brincadeira de casinha usando as cadeiras da mesa de refeições com um cobertor como telhado do que estimular o consumo para ensinar a ser um adulto “legal”.

E, como gosto demais de conversar com as pessoas e saber o que elas pensam sobre os temas que me interessam, naquele meu conceito de educação continuada, pedi a opinião de outras mães, pais e educadores no Facebook.

Estou falando contra o consumo? Não! Eu consumo como todo mundo, mas eu sou contra qualquer “divinização” e “modismo“. Os brinquedos pedagógicos, quando feitos em casa ou na escola, são oportunidades de aprendizado, mas quando comprados em “lojinhas da moda” são simples consumo vazio e não são muito mais baratos não.

Investi meu tempo em momentos felizes brincando com meus filhos sempre que podia, preferindo isso a horas-extras para ter mais grana e assim poder comprar coisas que brincam sozinhas ou remetem a royalties de marcas. Hoje, vendo-os psicologicamente saudáveis como consumidores (aos 10 e 12 anos), tenho a sensação de que funcionou.

Leia também: Consumismo infantil: na contramão da sustentabilidade

Gostou? Quer experimentar?

Não precisa mudar muito sua rotina, só acrescentar um tempinho para brincar coisas que não surgem prontas. Pode ser jogar baralho, criar brinquedos de sucata, inventar carrinhos e casinhas com caixas de papelão ou mesmo colocar uma coberta sobre as cadeiras da sala para fazer um forte.

Ontem compartilharam comigo uma notícia que falava sobre o valor do brinquedo-sucata. Nem sou tão fã dele, pois acho que faz a gente consumir para aproveitar o material, uma coisa meio incongruente. Mas o texto falava dos “atributos para o desenvolvimento dos aspectos cognitivos e das relações socioculturais da criança”, explicando que “propõe-se a fazer uma reflexão acerca da contribuição do brinquedo-sucata como instrumento que favorece o desenvolvimento do pensamento da criança”. Os autores que fundamentam essa discussão são BENJAMIN (1984), MACHADO (1995), WEISS (1997), que despertam para a importância da criança criar seu próprio brinquedo e sugerem situações de aprendizagem que muitas vezes articulam recursos e capacidades afetivas, emocionais, sociais e cognitivas de cada criança. Segundo estes estudos, “com o brinquedo-sucata, a criança pode exercitar sua criatividade ao confeccioná-lo e desenvolver sua interação social num espaço lúdico com materiais atraentes e educativos de baixo custo”.

A ideia é boa, mas nada funciona sem companhia para brincar. Independente do material, o calor humano e a troca que acontece na brincadeira tem que estar acima de tudo no brincar. A criança brinca bem sozinha? Claro. Mas ela brinca muito melhor com outra pessoa. Os colegas de mesma idade, os maiores ou menores, os pais, tios, avós, educadores, na minha opinião de mãe todos são figuras importantes para sua percepção da brincadeira e do momento lúdico.

Neste conceito concordo com Ligia Marques, que comentou no grupo Mães (e pais) com filhos:

“Criar ecochatos não está no meu programa. Meus filhos brincam com o que estiver disponível: desde bolinhas de papel que eles mesmo fazem até os tecno de última geração. Sem imposições,sem cobranças,sem patrulhamento. Conhecem as brincadeiras mais antigas e as mais modernas. Brincar é liberdade de ser, criar. Esse negócio de sustentabilidade, como tudo nessa vida, se cai no exagero incomoda.”‘

Por isso o papo da sucata e dos brinquedos educativos me cansam um pouco. Minhas lembranças mais gostosas de brincadeiras de infância são na calçada de casa, ao estilo “bairro do Limoeiro”, em atividades como passa-anel, pique-esconde, pega-pega, pular elástico e amarelinha, e outras que não tinham nada de material além dos participantes. Elas me divertiam até mais do que as brincadeiras de bola, que nos divertiam nas noites de férias de verão na rua de casa e quase tanto quanto andar de bicicleta na rua, emprestando a magrela para os amigos, pois nem todo mundo tinha uma, mas as que estavam na turma ficavam pouco tempo paradas porque eram emprestadas e viravam uma experiência coletiva.

Por gostar tanto destas brincadeiras de criança solta, vejo que passei este “paladar infantil” para meus meninos e raramente os vejo entediados, assim como não me pego com preocupações graves sobre o que fazer com eles nas férias. Nesta semana um texto de Rosely Sayão, foi muito recomendado e debatido entre meus amigos virtuais. Ao perguntar: “Quem vai ficar com as crianças?” e destrinchar a questão de que “passar mais tempo com os filhos durante as férias escolares transformou-se em problema para os pais”, a colunista da Folha de S. Paulo tocou num assunto que mexe com o cotidiano das famílias e trata de nossos valores mais íntimos. Recomendo a leitura, sem concordar, nem discordar 100% das palavras, apenas considerando que a questão final “Por que temos filhos?” é a que deve ser o ponto central de todas as nossas reflexões acerca de educação, cultura e sociedade.

P.S. Sobre o consumismo… Acho que fujo do padrão feminino, eu raramente compro quando saio com os meninos e ainda não sei como é ser mãe de menina. Entramos em lojas infantis, olhamos coisas, assim como olhamos tênis e gadgets, mas é muito mais frequente não comprarmos do que comprarmos. Estabelecemos que compramos coisas quando precisamos, simples assim. Nas outras ocasiões em que, por exemplo, vamos ao shopping para ver um filme, podemos até passear, mas voltamos para casa sem sacolas. Exceção é livraria, que eles sabem que é meu fraco… mas mesmo assim só ganham livros novos se tiverem lido todos os que estão em casa.

Posts relacionados

Você pode gostar também de ler:
The following two tabs change content below.
Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

Comentários no Facebook