A mãe suficientemente boa é aquela que se permite ser imperfeita

No final de dezembro um update da minha irmã Tiffany (@blogdati) com esta imagem acima me levou à leitura da entrevista do psiquiatra infantil e psicanalista francês Bernard Golse. Ao começar a leitura,  me deparei com a frase que deixo como título do post: A mãe suficientemente boa é aquela que se permite ser imperfeita. Para falar a verdade, só isso me convenceria, mas ao longo da entrevista notei vários pontos que merecem destaque e que faço questão de salvar aqui no @avidaquer.

Ajudar mães e bebês é um investimento que as sociedades que chamamos de desenvolvidas precisam fazer para economizar mais tarde tratando de adultos violentos, infelizes. (…) Os bebês são nossa última utopia. Depositamos neles toda a esperança de um mundo melhor, mas, ao mesmo tempo, somos muito exigentes com eles. Precisam ser no mínimo perfeitos. Das mães, não se exige menos. E, além de tudo, devem ser felizes. O nascimento é cercado de idealização. Temos a obrigação de ficar contentes, e qualquer sentimento diferente (tristeza, insegurança…) é mal-visto e, por isto, escondido. O resultado é que a mãe pode ficar deprimida e ninguém perceber. Quer dizer, os adultos que a cercam são capazes de não reparar (ou não querer reparar), mas o bebê percebe sempre. E quanto mais discreta a depressão que a mãe apresenta, pior para o filho, já que os adultos não vêm ajudá-la. E aí aparecem os sintomas clássicos, como falta de sono, problemas de apetite, entre outros. É o filho tentando reanimar a mãe, como que dizendo: “Eu estou aqui”. 

Bernard Golse critica o fato de as mães serem liberadas da maternidade no segundo ou terceiro dia após o parto. “Esse é um meio que a sociedade se deu para não detectar o risco de uma depressão materna.” Ele defende que é preciso encontrar formas de acompanhar a mãe, com visitas a domicílio ou com pediatras treinados. Penso aqui com meus botões, na experiência com meus outros filhos, ter a visita da pediatra e enfermeira do programa Mãe Curitibana (do posto de saúde do bairro, um programa da prefeitura) me fez ter a sensação de não estar só. Elas foram em casa, visitaram tudo, pediram para ver como estávamos acomodados, perguntaram quem me ajudava e quantas vezes por semana eu tinha companhia e apoio e me contaram do programa de aleitamento materno. Como eu passei a doar leite, tinha a visita da enfermeira pelo menos uma vez por semana e este contato era bom, me fazia me sentir menos abandonada. Sabem por quê? Ela perguntava de mim. Quando o bebê nasce muito frequentemente nós somos deixadas de lado e as pessoas só querem saber do bebê, esta é, na minha opinião, uma das grandes causas da depressão materna. Num trecho da entrevista Golse fala que “considerando o problema do isolamento das mulheres nas cidades, visitas a domicílio seriam necessárias. Alguns países deslocam profissionais, que têm ao mesmo tempo formação psicológica e social, para esse tipo de trabalho. Cada país deve encontrar suas próprias soluções. Mas, quaisquer que sejam elas, há a questão financeira, que só pode ser resolvida se as instâncias políticas estiverem mobilizadas. Ajudar os bebês significa que a sociedade economizará quando eles forem adultos. Se os bebês estiverem bem, os adultos que eles serão também ficarão bem. Acontece que a economia que isso gera é para daqui a 30 anos, mas os políticos querem ver o resultado do investimento de suas verbas no prazo máximo de cinco anos…”

E a depressão pode ser da mãe e do pai, sabiam?

Muitas vezes, as depressões maternas passam despercebidas pelos outros adultos. Mas não pelo bebê. Ele sente a depressão da mãe durante muito tempo. Porque, nos casos em que a depressão não é notada, os outros adultos não vêm ajudá-la. Então, os sintomas do bebê podem ser justamente uma maneira de levar à pergunta: “Será que não é a mãe que está com problemas?”. A questão é que, por enquanto, esse é um raciocínio de especialistas, não está ainda suficientemente difundido entre o grande público. Nem mesmo entre os próprios pediatras. Esse é um grande problema de saúde pública. (…) Aproximadamente 15% das mães vão ficar realmente deprimidas após o parto, e isto pode trazer dificuldades para o bebê a curto, médio e longo prazos, se não há terceiros capazes de intervir para protegê-lo. A situação no Brasil é essa que a gente conhece, mas, mesmo na França, ela não está boa. As pessoas têm muita dificuldade para admitir a realidade da depressão materna. Quando afirmei que poderia ser uma coisa ruim, quis dizer que é importante não falar só disso. Existem problemas que acontecem antes do nascimento. E, além da mãe, o pai enfrenta dificuldades.Depois do nascimento, não ocorrem apenas depressões, há toda uma série de situações psicopatológicas que trazem riscos à criança. (…) O isolamento é fator de risco muito grande. Independentemente dos cuidados específicos, precisamos pensar a organização da vida nas cidades, quais são os recursos para uma mãe só. Quando a gente atende uma mãe em dificuldades durante esse período logo após o parto, muitas vezes o essencial da avaliação de risco é saber quais são as pessoas que podem apoiá-la. 

E por fim, um ponto que considero fundamental para que o casal viva bem o momento da chegada de um novo membro e que, felizmente, eu e Gui fizemos sempre juntos: o acompanhamento médico. Golse diz que “o ideal seria que as visitas pré-natais e pós-natais incluíssem sempre o casal, mas isto é difícil porque os pais trabalham. Talvez as visitas médicas pudessem ocorrer aos sábados ou à noite. Em todos os países, o obstetra tem papel importante. Precisamos pensar que a criança é do casal, não apenas da mãe.

Conte nos comentários, como este momento foi vivido por sua família? O pai esteve presente em todos os momentos? A mãe se sentiu apoiada? Há casos de depressão? Compartilhar ajuda muito a apoiar efetivamente quem vive este mesmo drama!

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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