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Da pré-história à era da globalização, as sociedades elegeram diferentes bebidas e tiveram suas trajetórias fortemente ligadas a elas.

Copos de refri na minha "bebemoração" - a bebida atual é gaseificada.

Na sexta-feira, para chamar alguns amigos para comemorar meu aniversário, escrevi brincando que ia “bebemorar” num bar do meu bairro. No dia seguinte notei que quem não foi me perguntava num tom meio de provocação “como foi a bebemoração” e me peguei refletindo como o ato de beber para comemorar é arraigado para mim e, ao mesmo tempo, o quanto o ato de beber faz as pessoas pensarem imediatamente no alcool.

Minha ideia não era exatamente esta – falo beber porque a reunião com os amigos foi num boteco paulistano, não num restaurante onde se “comemoraria” – e, embora eu tome um ou dois chopes (raramente tomo destilados, sou dos fermentados como vinho e cerveja), a ideia de botecar está mais no clima, nos acepipes (os petiscos que comemos coletivamente e com calma) e na conversa tranquila que podemos “jogar fora”.

Aí lembrei de um dos meus livros favoritos: História do Mundo em 6 Copos, de Tom Standage (Zahar Editor). Ele foi presente de aniversário pro Gui há alguns anos e tem o enfoque que eu vejo nas bebidas, trazendo um pensamento amplo e diversificado, que parte da a cerveja, passando pelo o vinho e os destilados, mas sem deixar de citar o café, o chá e a Coca-Cola nos “copos” que influenciaram os rumos da história mundial e definiram políticas e práticas sociais.

Quer ver? A cerveja surgiu na fase do estabelecimento de tribos nômades em locais fixos e à adoção da agricultura, que por sua vez foi fator decisivo para o desenvolvimento da escrita. O vinho, surgido na Grécia séculos depois, já desempenhava papel central nas relações sociais e religiosas, sendo posteriormente símbolo de status e poder também no Império Romano.Os destilados, até hoje tão ligados à cultura europeia, influenciaram a relação das metrópoles com suas colônias e sua taxação foi decisiva no processo de independência dos EUA.

Aliás, sobre este tema, a própria Zahar lançou recentemente um livro que me pareceu divertido: Guia de drinques dos grandes escritores americanos, de Edward Hemingway e Mark Bailey. Inevitavelmente a obra me lembrou uma amiga que não só deve ter lido boa parte destes escritores como também é connaissair deste tipo de drink e com quem é possível ter horas de diversão misturando Bukowski, Capote, Dorothy Parker, Tennessee Williams, F. Scott e Zelda Fitzgerald. Talvez ela concorde com William Faulkner que diz que “A civilização começou com a destilação.”

Mas nem tudo tem álcool. O chá e o comércio das folhas resultaram na Guerra do Ópio e na exploração crescente da Índia e ainda é uma das bebidas mais consumidas no mundo – mesmo que, em nossa cultura, ele ainda não seja a bebida mais popular, pois o brasileiro prefere o café. Nascido na cultura árabe (que também toma muito chá, diga-se de passagem), o café foi nosso símbolo nacional e na Europa ele representou há poucos séculos (e durante eles) os valores da era da razão. Até hoje pensamos nos cafés franceses como o lugar por excelência do debate e da difusão de novas idéias – e no livro diz-se que os cafés públicos formavam uma ágil rede de informações – a Internet primitiva.

No meu tempo a bebida por excelência é gaseificada. Desde o surgimento da Coca-Cola e dos valores de liberdade individual e progresso defendidos em suas campanhas, tornou-se um dos ícones da globalização. Meus filhos são da geração da água gaseificada e aromatizada artificialmente (H2Oh, Aquarius, tantos outros que estão no mercado) e do consumo maciço de água mineral, sobre o qual, certamente, se falará em pouco tempo. Na praia, na piscina, nos parques, parar para tomar água e isotônicos (naturais como água de coco ou artificiais, como Gatorade ou afins) também é uma forma de hub, de reunir pessoas que correm ou tem filhos ou pequenos animais de estimação. Enfim, a bebida e a bedemoração está presente em nossas vidas de diferentes formas e, se contabilizarmos, poucas delas são de fato alcoolicas!

P.S. Tom Standage termina sua viagem com um epílogo dedicado à água, base de todas as bebidas consumidas pelos seres humanos e fator cada vez mais determinante da geopolítica mundial. Na história mais antiga, quantas situações são marcadas pelo encontro das pessoas nos locais onde se buscava água potável? Eles também eram uma ágil rede de informações, uma Internet primitiva.

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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