Banda de um homem só

Recebi elogios da minha maior fã na semana passada. Minha mãe, coruja como ela só, gosta muito dos temas sobre os quais eu escrevo aqui e já me disse que se informa muito com o blog. No meio dos elogios ela me fez uma crítica indireta: disse que gostou que eu parei de escrever sobre temas de tecnologia – leia-se mundo virtual, geek, das redes sociais como twitter, orkut, myspace, facebook, flickr, enfim, o ambiente onde ela não está nem pretende estar. No entanto, por outro lado, é através do meu filtro de informações que ela sabe que este universo existe. Assinante da revista Época, ela pode ler sobre os blogs mais influentes do Brasil ou a explosão do Twitter como uma pessoa íntima do tema, reconhecendo nas reportagens até nomes de pessoas que já jantaram conosco em sua casa.

Hoje li no Jornalistas da Web um artigo (meio acadêmico, admito) da pesquisadora Raquel Recuero sobre este filtro de informações e o papel que as redes sociais têm desempenhado nesta seleção de temas. Os grifos no texto são da autora e os mantenho porque concordei com eles:

As redes sociais conectadas através da Internet começam, cada vez mais, a funcionar como uma rede de informações, qualificada, que filtra, recomenda, discute e qualifica a informação que circula no ciberespaço. (…)
Neste universo, as redes sociais parecem organizar-se como filtros, no sentido de auxiliar na organização dessas informações. Como? As redes passam a eleger e atuar como gatekeepers. Através da seleção e da publicação de informações especializadas e localizadas, os atores sociais estão construindo relevância, a partir de valores sociais como reputação. Nichos de pessoas interessadas em determinados assuntos vão produzir informações relevantes, detalhadas e novas. Esses atores vão filtrar as informações do ciberespaço e publicá-las, para quem quiser ouvir/ler. Através da escolha de seus próprios gatekeepers, os demais atores vão construir uma leitura focada das informações que lhes são importantes. Essa leitura é assim, personalizada, através da escolha de suas próprias fontes informativas.”

Logo após esta leitura eu conversava ao telefone com @romartins e debatíamos a importância da seriedade da informação passada nestas redes sociais e o comprometimento de quem difunde as informações. Falávamos de editores (autores) de blogs, mas podemos ampliar a discussão para a figura do gatekeeper, o ator social que movimenta a supervia das informações que é a internet, que faz a ponte entre o leitor e a notícia neste canal que está sempre aberto para o tráfego de informações.

Como nem todo mundo estudou teoria da comunicação como nós, vamos conceituar. Segundo a wikipedia

“Os estudos sobre os gatekeepers (“guardiões do portão”) analisam o comportamento dos profissionais da comunicação, de forma a investigar que critérios são utilizados para se divulgar ou não uma notícia. Isso porque estes profissionais atuariam como guardiões que permitem ou não que a informação “passe pelo portão”, ou melhor, seja veiculada na mídia. Os estudos concluem que a decisão depende principalmente dos acertos e pareceres entre os profissionais, que estão subordinados a uma cultura de trabalho que não raro exclui o contato com o público.”

Impossível não perceber a conexão. A diferença que eu vejo neste conceito e no do ator da mídia social é que, ao menos a princípio, ele não perde o contato com o público. A interação com o leitor (que atua como um revisor, editor, pauteiro e tantas outras funções no blog) permite que este portão seja mais amplo e que os pareceres entre os envolvidos sejam, ao menos, mais naturais. Querer que blog seja democrático é ser hipócrita, é uma banda de um homem só e o repertório é escolhido por quem toca. Mas ele pode ser alterado porque o público, como no espetáculo de rua, está perto e reage, mostrando-nos do que gosta ou não. Duelamos por esta aceitação popular e neste interesse aberto (escancarado) em agradar o leitor está nosso maior trunfo!

(no video o curta A banda de um homem só, da Pixar)

[update] Agradeço à honra da citação deste post no blog RPalavreando, da @carolterra. 😀 [/update]

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Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

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