bem estar / destaque / relacionamentos

No dia em que outra mulher é vítima de abuso dentro de um ônibus na Avenida Paulista, um juiz diz não ver “constrangimento” por um homem ter ejaculado em uma passageira no dia anterior e manda soltá-lo, compartilhei no instagram um vídeo risível, típico dos grupos de WhatsApp. Mas a verdade triste é que as mulheres estão sozinhas nesta triste realidade do assédio sexual. Mas talvez os homens também estejam.

E parte da culpa do crescimento deste comportamento doentio pode ser nossa.

É o que eu depreendi ao ver uma palestra de Gail Dines, professora de Sociologia e Estudos da Mulher na Wheelock College em Boston, Massachusetts, famosa feminista e ativista contra a pornografia. Numa conferência na Polônia, ela tratou da pornografia violenta e suas consequências no desenvolvimento de jovens.

A pornografia é imoral? Não é isso que importa, temos que encarar a realidade de que é um problema de saúde pública. 

Descobri o vídeo por indicação de Gabriel Salomão e ao clicar para assistir, me chamou atenção uma comparação que Gail Dines faz da “nossa” geração (que vou entender como até a Geração X, talvez alguns Baby Boomers como ela) afirmando que fomos criados num mundo no qual a principal forma de comunicação era impressa e que nosso filhos são uma geração das imagens.

(Ok, há controvérsias aqui, pois fomos impactados pela TV e cinema, mas nada igual ao que os nascidos neste século XXI vivem com o youtube e streaming de vídeo, pois TUDO está sempre disponível em quantidades absurdas e quase sem filtro).

A frase que sintetiza esse alerta é:

Não há imunização para a sedução da eloquência da imagem.

Decidi não incorporar o vídeo aqui porque, honestamente, achei muito “explicativo”. Embora não seja explícito, a palestrante explica alguns ícones da pornografia disponível com tanto detalhamento que é um tanto quanto perturbador. E igualmente elucidativo, pois, como alertou Gabriel, “o fato é que uma parte dos adultos, especialmente muitas mulheres, vivem alheios ao mundo dos adolescentes, e em especial dos meninos”.

Um casal que tem um relacionamento estável e saudável possivelmente também fica alheio a essa realidade, mas quem garante que nossos filhos estarão?

Leia também:

 

Dica de livro/filme: Homens, Mulheres e Filhos

Há alguns meses, uma mãe de um grupo materno que modero contou que um novo colega entrou na classe do filho e aos 9 anos o garoto já era consumidor de pornografia.

Sério!

Daí, além de falar ao vivo para as meninas o que gostaria de fazer com elas – as coisas que via em casa, pois o pai era consumidor de vídeos assim – ele começou a falar despautérios em aúdios no grupo de whatsapp da turma da escola.

Pensem nisso, gente:

Sua filha de 8 para 9 anos, do terceiro ou quarto ano do ensino fundamental, de repente está sendo impactada por frases de efeito e descrições detalhadas de atos que um colega da mesma idade quer fazer com ela, sugerindo que todos os meninos, para serem “machos”, façam o mesmo.

Adianta só proibir o whatsapp e uso de internet, tirar o celular ou mesmo mudar de escola?

Honestamente acho que não.

A escola tem que intervir. Mas para isso, os pais precisam se informar para poder ajudar a escola a tratar da situação.

why-avoid-porn

Você pode achar que estou exagerando porque (1) sou coroa, (2) sou puritana ou (3) frustrada e que na verdade todo mundo pode tirar uma coisa boa de um pouco de pornografia.

Bom, não estou aqui para julgar seus hábitos nem entrar na sua intimidade, leitor.

Estou aqui dividindo minhas descobertas e reflexões. E dentre elas estão estudos científicos sobre o tema.

Um número cada vez maior de homens jovens está sofrendo problemas de saúde sexual, como disfunção erétil, por causa do consumo exagerado de pornografia virtual. O alerta é de uma das principais psicoterapeutas britânicas, Angela Gregory, da Universidade de Notthingham, que alerta para o fato de que homens entre 18 e 25 anos são os mais suscetíveis a sofrer com o vício em pornografia online.

Grande parte dos acessos ao material pornográfico se dá por meio de celulares, alterando o cenário do consumo da pornografia, que antigamente se dava por vídeos, no cinema ou na TV, videocassete ou DVD player, num volume menor de oferta e com muito menos privacidade, resultando nos únicos cinco anos em um aumento no número de pacientes relatando problemas de saúde sexual.

No passado, homens com disfunção erétil que nos procuravam eram mais velhos e o problema estava associado a diabetes, esclerose múltipla ou doenças coronarianas. Mas essa situação mudou, agora jovens sem nenhum problema clínico relatam dificuldades imensas de manter uma relação sexual satisfatória.

A outra questão importante, do vídeo de Gail Dines, é pensar sobre o que as mulheres na mídia, em capas de revistas e vídeos de comerciais e filmes, dizem para as meninas: você pode ser “comível” ou invisível. O que a mídia apoiada na pornografia reforça e perpetua é uma ideia de que se as meninas não são “gostosas com peitos e bundas destacados nas roupas e com cara de que estão prontas para fazer sexo agora” elas são invisíveis e ninguém vai querer ficar com elas.

É um estupro coletivo das identidades das meninas!

Outra questão importante que Gail Dines levanta, é:

Por que sempre focamos nas meninas e mulheres? Por que os homens quase nunca são o alvo das críticas relativas à pornografia?

Pensem aí!

E para completar, um update: uma mulher é estuprada em locais públicos em São Paulo a cada 11 horas. Os dados são de um levantamento da Secretaria de Segurana Pública obtido pela GloboNews por meio da Lei de Acesso à Informação.

Crime de estupro é qualquer conduta com uso de ameaça ou violência que atente contra a dignidade e liberdade sexual de alguém, segundo lei brasileira de 2009. Não é preciso haver penetração para ser estupro. Sexo oral, masturbação e ejaculação, como a que ocorreu em transporte público em São Paulo, são crimes caracterizados como estupro.

The following two tabs change content below.
Quarentona assumida, me sinto uma representante legítima da minha geração e, por que não, um modelo para as mais jovens que desejam envelhecer sem deixar de lado os pequenos prazeres da vida, da comida, da diversão, dos cuidados com a saúde e a beleza, das relações pessoais que fazem tudo valer a pena. Um breve resumo: cristã, jornalista, netweaver na otagai.com.br, blogueira no @avidaquer @maecomfilhos @cosmethica.

Comentários no Facebook

SEO Powered by Platinum SEO from Techblissonline Estatísticas